O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias by Queirós, Eça de

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O Mysterio da Estrada de Cintra

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

EÇA DE QUEIROZ E RAMALHO ORTIGÃO

O Mysterio da Estrada de Cintra

Cartas ao _Diario de Noticias_

Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio

LISBOA

Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor 50--RUA AUGUSTA--54

MDCCCXCIV

LISBOA TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA 11--Apostolos--1.^o

+PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+

CARTA AO EDITOR D'O _Mysterio da Estrada de Cintra_

Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente de duas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante _pot-pourri_ dos _Dois Foscaris_, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do _Diario de Noticias_.

Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem estylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámos a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia.

Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do _Diario de Noticias_ o _Mysterio da Estrada de Cintra_, o comprou ainda n'uma edição em livro; e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o que pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos com saudade...

Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera o sympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além do Passeio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelas tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr. Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas. Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das bibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro intitulado... (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziam commovidamente os criticos:--_Eis ahi uma obra que ha de ficar!_... Nós, emfim, eramos novos.

O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?... Pensamos simplesmente--louvores a Deus!--que elle é execravel; e nenhum de nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peor inimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveria tirar.

Poupemol-o--para o não aggravar fazendo-o em tres volumes--á enumeração de todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seus mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobre os seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre os seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que se arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda, sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes, sobre as suas _toilettes_ romanticas, sobre os seus cavallos esporeados por cavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no pó das phantasticas aventuras pella Porcalhota fóra!...

Todas estas cousas, aliás sympathicas, commoventes por vezes, sempre sinceras, desgostam todavia velhos escriptores, que ha muito desviaram os seus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua.

Como permittimos pois que se republique um livro que sendo todo d'imaginação, scismando e não observado, desmente toda a campanha que temos feito pella arte de analyse e de certeza objectiva?

Consentimol-o porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer envergonhar-se do ser trabalho.

Conta-se que Murat, sendo rei de Napoles, mandara pendurar na sala do throno o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o sceptro mostrava depois o açoite, gostando de repetir: _Comecei por ali_. Esta gloriosa historia confirma o nosso parecer, sem com isto querermos dizer que ella se applique ás nossa pessoas. Como throno temos ainda a mesma velha cadeira em que escreviamos ha quinze annos; não temos docel que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem, não se cingem por emquanto de corôa alguma, nem de louros, nem de Napoles.

Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só dia desde aquelle em que datámos este livro até o instante em que elle nos reapparece inesperadamente na sua terceira edição, com um petulante arzinho de triumpho que, á fé de Deus, não lhe vae mal!

Então, como agora, escreviamos honestamente, isto é, o melhor que podiamos: d'esse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio talvez a sympathia do publico ao livro da nossa mocidade.

Ha mais duas razões, para auctorizar esta reedição.

A primeira é que a publicação d'este livro, fóra de todos os moldes até o seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a receber, uma util lição de independencia.

A mocidade que nos succedeu, em vez de ser inventiva, audaz, revolucionaria, destruidosa d'idolos, parece-nos servil, imitadora, copista curvada de mais deante dos mestres. Os novos escriptores não avançam um pé que não pousem na pégada que deixaram outros. Esta pusilanimidade torna todas as obras tropegas, dá-lhes uma expressão estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o effeito de sahir velha do berço e de entrar na arte de muletas.

Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámol-os ha muito, os das nossas extravagancias de espirito desejamos que fiquem. Aos vinte annos é preciso que alguem seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite, Para ser ponderado, correcto e immovel ha tempo de sobra na velhice.

Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistencia ás correntes da tradição, é indispensavel para a revivescencia da invenção e do poder criativo, e para a originalidade artistica. Ai das litteraturas em que não ha mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o sobressalto de uma aventura, não haverá n'ellas que lembrar. Além de que, para os que na edade madura foram arrancados pelo dever ás facilidades da improvisação e encontram n'esta região dura das coisas exactas, entristecedora e mesquinha, onde, em logar do esplendor dos heroismos e da belleza das paixões, só ha a pequenez dos caracteres e a miseria dos sentimenos, seria dôce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs de sol, ao voltar da primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a doirada abelha da phantasia.

A ultima razão que nos leva a não repudiar este livro, é que elle é ainda o testemunho da intima confraternidade de dois antigos homens de lettras, resistindo a vinte annos de provação nos contactos de uma sociedade que por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triumpho para o nosso espírito, é para o nosso coração uma suave alegria.

Lisboa, 14 de dezembro de 1881

De V.

Antigos amigos

Eça de Queiroz

Ramalho Ortigão

+O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA+

+EXPOSIÇÃO DO DOUTOR*** +

I

Sr. redactor do _Diario de Noticias_

Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia, pelo menos, do que vou expôr.

Os successos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mysterio, envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que se passou por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerração de um drama que supponho terrivel com quanto não conheça d'elle senão um só acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas precedentes e quaes tenham de ser as ultimas.

Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F..., um amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.

Montavamos dois cavallos que F... tem na sua quinta e que deviam ser reconduzidos a Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa.

Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A mellancolia do logar e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos na paizagem, caminhando a passo.

A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem, n'um ponto a que não sei o nome, porque tenho transitado pouco n'aquella estrada, sitio deserto como todo o caminho através da charneca, estava parada uma carruagem.

Era um _coupé_ pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha côr de castanha.

O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavallos.

Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar attentamente o jogo da carruagem.

Um quarto individuo, egualmente de costas para nós, estava perto do vallado do outro lado do caminho, procurando alguma cousa, talvez uma pedra para calçar o trem.

É o resultado das sobrodas que tem a estrada, observou o meu amigo. Provavelmente o eixo partido ou alguma roda desembuxada.

Passavamos a este tempo pelo meio dos tres vultos a que me referi, e F... tinha tido apenas tempo de concluir a phrase que proferira, quando o cavallo que eu montava deu repentinamente meia volta rapida, violenta, e caiu de chapa.

O homem que estava junto do vallado, ao qual eu não dava attenção porque ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo repentinamente e com a maxima força as redeas que ficavam para o lado d'elle e impellindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para o lado oposto.

O cavallo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das pernas e tombou ao dar a volta rapida e precipitada a que o tinham constrangido.

O desconhecido fez levantar o cavallo segurando-lhe as redeas, e, ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna que ficára debaixo do cavallo.

Este individuo tinha na voz a entoação especial dos homens bem educados. A mão que me offereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma mascara de setim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapeu. Era um homem agil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez cair o cavallo.

Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara lucta entre o meu companheiro e os outros dois individuos que fingiam examinar o trem e que tinham a cara coberta como aquelle de que já fallei.

Puro Ponson du Terrail! dirá o sr. redactor. Evidentemente. Parece que a vida, mesmo no caminho de Cintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verosimilhança artistica. Mas eu não faço arte, narro factos unicamente.

F..., vendo o seu cavallo subitamente seguro pellas cambas do freio, tinha obrigado a largal-o um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregára uma pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo depois arrancar-lhe da mão.

Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha no entanto tirado da algibeira a chave de uma porta da casa de Cintra, e esporeava o cavallo estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça d'aquelle que o tinha seguro.

O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do cavallo empinado, apontou com a outra um rewolver á cabeça do meu amigo e disse-lhe com serenidade:

--Menos furia! menos furia!

O que levára com o chicote na cabeça e ficára por um momento encostado á portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma trança de clina, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça o chapeu que lhe caira.

A este tempo o que me derribara o cavallo e me ajudara a levantar tinha-me deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, d'aquellas a que chamam em França _coups de poing_ e que varam uma porta a trinta passos de distancia. Depois do que, me offereceu delicadamente o braço, dizendo-me com afabilidade:

--Parece-me mais commodo acceitar um logar que lhe offereço na carruagem do que montar outra vez no cavallo ou ter de arrastar a pé d'aqui á pharmacia da Porcalhota a sua perna magoada.

Não sou dos que se amedrontam mais promptamente com a ameaça feita com armas. Sei que ha um abysmo entre prometter um tiro e desfechal-o. Eu movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavallo possante; somos ambos robustos; poderiamos talvez resistir por dez minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais provavel, em estrada tão frequentada como a de Cintra n'esta quadra, do que apparecerem passageiros que nos prestassem auxílio.

Todavia confesso que me sentia attrahido para o imprevisto de uma tão extranha aventura.

Nenhum caso anterior, nenhuma circumstancia da nossa vida nos permittia suspeitar que alguem podesse ter interesse em exercer comnosco pressão ou violencia alguma.

Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia tambem que as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um homicidio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me pessoas de bom mundo. Agora que de espírito socegado penso no acontecido, vejo que a minha conjectura se baseava em varias circumstancias dispersas, nas quaes, ainda que de relance, eu attentara, mesmo sem proposito de analyse. Lembro-me, por exemplo, que era de setim alvadio o forro do chapeu do que levara a pancada na cabeça. O que apontára o rewolver a F... trazia calçada uma luva côr de chumbo apertada com dois botões. O que me ajudára a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas; as calças, de casimira côr de avelã, eram muito justas e de presilhas. Tinha esporas.

Não obstante a disposição em que me achava de ceder da lucta e de entrar no trem, perguntei em allemão ao meu amigo se elle era de opinião que resistissemos ou que nos rendessemos.

--Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! disse gravemente um dos desconhecidos. Por quem são, acompanhem-nos! Um dia saberão por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes a nossa palavra que ámanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavallos ficarão em Cintra d'aqui a duas horas.

Depois de uma breve reluctancia, que eu contribuí para desvanecer, o meu companheiro apeou-se e entrou no _coupé_. Eu segui-o.

Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da parelha segurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada e pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e sentaram-se nos logares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os stores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem.

No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidraça e pediu um charuto. Passaram-lhe para fóra uma charuteira de palha de Java. Pella fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a mascara que tinha no rosto, e partimos a galope.

Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa, um omnibus, talvez uma sege. Se me não illudi, a pessoa ou pessoas que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavallos, um dos quaes é russo e o outro castanho, e poderão talvez dar noticia da carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O coupé era, como já disse, verde e preto. Os stores, de mogno polido, tinham no alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz.

Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de expedir ainda hoje esta carta pela posta interna.

Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo porque lhe occulto o meu nome e o nome do meu amigo.

II

Julho, 24 de 1870--Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente por v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em vista da collocação dada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do jornal.

Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso qual o dia em que fomos surprehendidos na estrada de Cintra. Foi quarta feira, 20 do corrente mez de julho.

Passo de prompto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o dialogo que travámos, tanto quanto me seja possivel com as mesmas palavras que n'elle se empregaram.

A carruagem partiu na direcção de Cintra. Presumo porém que deu na estrada algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não presentiram pela intercadencia da velocidade no passo dos cavallos. Levaram-me a suppol-o, em primeiro logar as differenças de declive no nivel do terreno, com quanto estivessemos rodando sempre em uma estrada macadamisada e lisa; em segundo logar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro do _coupé_ coada pela cortina de seda verde, o que me indicava que o trem passava por encontradas exposições com rellação ao sol que se escondia no horisonte.

Havia evidentemente o designio de nos desorientar no rumo definitivo que tomassemos.

É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria absolutamente impossivel decidir se ia de Lisboa para Cintra ou se vinha de Cintra para Lisboa.

Na carruagem havia uma claridade bassa e tenue, que todavia nos permittia distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relogio. Eram sete e um quarto.

O desconhecido que ia defronte de mim examinou tambem as horas. O relogio que elle não introduziu bem na algibeira do collete e que um momento depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era um relogio singular que se não confunde facilmente e que não deixará de ser reconhecido, depois da noticia que dou d'elle, pellas pessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado opposto ao mostrador era de esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo de armas de ouro encobrado e polido.

Havia poucos momentos que caminhavamos quando o individuo sentado defronte de F..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhassemos, nos disse:

--Eu julgo inutil asseverar-lhes que devem tranquilisar-se inteiramente em quanto á segurança das suas pessoas...

--Está visto que sim, respondeu o meu amigo; nós estamos perfeitamente socegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de acreditar que nos não têem coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão creança que se apavore com o aspecto das suas mascaras negras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não querem fazer-nos mal: nós devemos pela nossa parte annunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos desagradavel, nada nos seria mais facil do que arrancar-lhes as mascaras, arrombar os stores, convidal-os perante o primeiro trem que passasse por nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxal-os em seguida aos cuidados policiaes do regedor da primeira parochia que atravessassemos. Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. D'outro modo ficariamos todos grotescos: os senhores terriveis e nós assustados.

Com quanto estas cousas fossem ditas por F... com um ar de bondade risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvil-o. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovello n'um joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, reclinando-se para traz e como se mudasse de resolução:

--No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez eu fizesse e dissesse o mesmo no seu logar.

E, tendo meditado um momento, continuou:

--Que diriam porém os senhores se eu lhes provasse que esta mascara em que querem ver apenas um symptoma burlesco é em vez d'isso a confirmação da seriedade do caso que nos trouxe aqui?... Queiram imaginar por um momento um d'esses romances como ha muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo marido viaja ha um anno. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, está gravida. Que deliberação ha de tomar?

Houve um silencio.

Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude d'aquelle problema e respondi:

--Enviar ao marido uma escriptura de separação em regra. Depois, se é rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se é porbre, comprar uma machina de costura e trabalhar para fóra n'uma agua furtada. É o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se morre depressa n'essas condições, n'um _cottage_ á beira do lago Genebra ou n'um quarto de oito tostões ao mez na rua dos Vinagres. Morre-se egualmente, de tisica ou de tedio, no esfalfamento do trabalho ou no enjôo do idyllio.

--E o filho?

--O filho, desde que está fóra da familia e fóra da lei, é um desgraçado cujo infortunio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube definir a responsabilidade do pae clandestino. Se os paes fazem como a legislação, e mandam buscar gente á estrada de Cintra para perguntar o que se ha de fazer, o melhor para o filho é deital-o á roda.

--O doutor discorre muito bem como philosopho distincto. Como puro medico, esquece-lhe talvez que na conjunctura de que se trata, antes de deitar o filho á roda ha uma pequena formalidade a cumprir, que é deital-o ao mundo.

--Isso é com os especialistas. Creio que não é n'essa qualidade que estou aqui.

--Engana-se. É precisamente como medico, é n'essa qualidade que aqui está e é por esse titulo que viemos busca-lo de surpresa á estrada de Cintra e o levamos a occultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa d'elle.

--Mas eu não faço clinica.

--É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos seguir n'esta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma these de cirurgia que despertou a attenção e mereceu o elogio da faculdade. Queira fazer de conta que vae assistir a um parto.

O meu amigo F... poz-se a rir e observou:

--Mas eu que não tenho curso medico nem these alguma de que me accuse na minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer?

--Quer saber o motivo porque se encontra aqui?... Eu lh'o digo.

N'este momento porém a carruagem parou repentinamente e os nossos companheiros sobresaltados ergueram-se.

III

Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir successivamente as duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de accender as velas, e rangerem nos anneis dos cachimbos os pés das lanternas como se as estivessem endireitando.

Não comprehendí logo a razão porque nos tivessemos detido para similhante fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.

Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos servia de cocheiro não quereria parar em logar onde houvesse gente. Se tivessemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a accender-se e que nós veriamos atravez da cortina ou das fendas dos stores, poderiam dar-nos alguma idéa do sitio em que nos achassemos. Por esta fórma esse meio de investigação desapparecia. Ao passarmos entre predios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflexão d'essa claridade para dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma aldeia ou uma rua illuminada.

Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas, aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F... a razão porque elle nos acompanhava, prosseguiu:

--O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico. Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora comprehende, continuou elle dirigindo-se a F..., a razão por que nos acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.

--A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha discrição.

--A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence.

F... achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados.

As palavras de F... accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras.

É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar.

Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:

--Lá vou!

Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia:

--Vão com raparigas para Lisboa.

O trem prosseguiu.

Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira?

Não posso dizel-o com certeza.

A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:

--Chegámos.

O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma commoção:

--Tenham paciencia! perdôem-m'o... Assim é preciso!

F... approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente vendado pelo que estava em frente de mim.

Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que era disse:

--Levo o trem?

A voz do que nos guiara respondeu:

--Leva.

Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:

--Vamos!

Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar.

Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.

Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma especie de sobresalto pueril.

Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado.

--Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros.

Descobri os olhos. Era noite.

Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.

Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror.

O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem.

IV

Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em que estou para comprehender a secreta verdade d'esta aventura, os habitos da minha vida repousada subitamente exaltados,--tudo isto me dá um estado de irritação morbida que me aniquilla.

Logo que vi o cadaver perguntei violentamente:

--Que quer isto dizer, meus senhores?

Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:

--Não ha tempo para explicações. Perdôem ter sido enganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com algum narcotico?

Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d'aquella situação, approximei-me do cadaver, e examinei-o.

Estava deitado n'uma _chaise-longue_, com a cabeça pousada n'uma almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descançando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha signaes de congestão, nem vestigios de estrangulação. A expressão da physionomia não denotava soffrimento, contracção ou dôr. Os olhos cerrados frouxamente, eram como n'um somno leve. Estava frio e livido.

Não quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria embaraçar esta narração concisa com explicações scientificas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle homem estava sob a influencia já mortal de um narcotico, que não era tempo de dominar.

--Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica.

Não pensava então em crime nem na mysteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma historia progressiva dos factos que tinham determinado a narcotisação.

Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da _chaise-longue_ sobre uma cadeira de estofo.

--Não sei, disse elle, talvez aquillo.

O que havia no copo era evidentemente opio.

--Este homem está morto, disse eu.

--Morto! repetiu um d'elles, tremendo.

Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrivel.

Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente:

--Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d'um doente sou inutil; como testemunha posso ser perigoso.

Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave:

--Escute, crê em sua consciencia que esse homem esteja morto?

--De certo.

--E qual pensa que fosse a causa da morte?

--O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam mascarados surprehendendo gente pela estrada de Cintra.

Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação.

--Perdão, disse um, e ha que tempo suppõe que esse homem esteja morto?

Não respondi, puz o chapeu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F... junto da janella batia o pé impaciente. Houve um silencio.

Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos na face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras, tudo dava áquelle momento um aspecto profundamente sinistro.

--Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem--comprehendem perfeitamente, que se nós tivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma testemunha importuna! Desconfiavamos, é claro, que estava sob a acção de um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se não entregamos este caso á policia, se cercámos de mysterio e de violencia a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receavamos que as indagações que se podessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cumplice, alguem que nós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações...

--Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui ha um crime; este homem está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitaria, nós achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias teem um mysterio tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntaria assistencia, ser parte n'este negocio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquella porta.

Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu.

--Ah! os senhores escarnecem! gritou F...

E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle, curvaram-n'o, arrastaram-n'o até uma poltrona, e deixaram-n'o cair, offegante, tremulo de desespero.

Eu tinha ficado sentado e impassivel.

--Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela colera, eu protesto pelo tedio.

E accendi um charuto.

--Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente. Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a mascara, tiro-a eu! É necessario que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar por assassino!... Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem!

E fez um gesto furioso. N'este movimento, a mascara desapertou-se, descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desesperação. Os outros cercaram-n'o, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassivel. Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam baixo. Eu no emtanto examinava a sala.

Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom para correr com os pés nús. O estofo dos moveis era de seda vermelha com uma barra verde, unica e transversal, como têem na antiga heraldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de _marechala_.

O homem que estava morto era moço, de perfil sympathico e fino, de bigode louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de perolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma côr clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.

Pella physionomia, pela construcção, pelo corte e côr do cabello, aquelle homem parecia inglez.

Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, d'um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os logares onde ordinariamente se está, se falla e se vive, aquelle quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, umas luvas cahidas, alguma d'estas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviaes.

F..., tinha-se approximado de mim.

--Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei.

--Não. Conheceste?

--Tambem não. Ha um que ainda não fallou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.

Um dos mascarados approximou-se, perguntando:

--Quanto tempo póde ficar o corpo assim n'esta _chaise-longue_?

Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas conteve-se. N'este momento o mascarado mais alto, que tinha saido, entrara, dizendo para os outros:

--Prompto!...

Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F..., que passeiava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.

--Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado--damos-lhe a nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quizerem. Imaginem que estão aqui pela violencia, pela corrupção, pela astucia, ou pela força da lei... como entenderem! O facto é que ficam até amanhã. O seu quarto--disse-me--é n'aquella alcova, e o seu--apontou para F.--lá dentro. Eu fico comsigo, doutor, n'este sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Ámanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte á policia ou escrever para os jornaes.

Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. Não respondemos.

Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. N'uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto d'uma poltrona, uma coisa branca similhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caido. Era effectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e uma corôa.

N'este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se a F...

--Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessario vendar-lhe os olhos.

F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu elle mesmo os olhos, e sairam.

Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente.

Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente, elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo d'agua. Elle comeu.

Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quasi em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha viajado e tinha lido.

De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou as luzes.

Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das chaves que a pessoa que estava fóra ás escuras procurava introduzir na fechadura.

Nós, immoveis, não respiravamos.

Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um phosphoro, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, immovel, com os braços estendidos.

Ámanhã, mais socegado e claro de recordações, direi o que se seguiu.

* * * * *

P.S.--Uma circumstancia que póde esclarecer sobre a rua e o sitio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra:

Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um coração offendido...

Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notavel esclarecimento dizendo em que rua passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas populares.

V

Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, reconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se seguiu á entrada imprevista d'aquella pessoa no quarto onde estava o morto.

O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de _toilette_. Voltou a si, e, ainda tremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a janella!

O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:

--Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o coração!

--Vá, vá, disse eu, breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui?

Elle não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia machinalmente:

--Está perdido tudo! Está tudo perdido!

--Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veiu fazer aqui? Que é isto? como soube?...

A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim negro da mascara.

--Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o como um vime.

--Escute... disse o homem convulsivamente. Vinha saber... disseram-me... Não sei. Parece que já cá estava a policia... queria... saber a verdade, indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações...

--Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços.

Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia ali um cadaver! Só elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente ignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde estava o cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao logar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava positivamente envolvido no crime...

--Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado.

O homem calou-se.

--Quem lhe fallou n'isto?

Calou-se.

--Que vinha fazer, de noite, ás escondidas, a esta casa?

Calou-se.

--Mas como sabia d'este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?...

E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do expediente que ia tomar, accrescentou:

-- ... nós e o senhor comissário.

O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os bolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos.

--Para que era isto?

--Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa... um caixote...

O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento rapido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a livida face do cadaver.

--Conhece este homem?

O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, demorado e attento.

Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos olhos d'elle, dominei-o, dísse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:

--Porque o matou?

--Eu? gritou elle. Está doido!

Era uma resposta clara, franca, natural, innocente.

--Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martello? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, ou d'aqui a uma hora está no segredo, e d'aqui a um mez nas galés. Chame os outros, disse elle para mim.

--Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o desconhecido.

Esperámos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem dicta:

--A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, n.º tantos...

Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde estava!

Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôz-lhe a mão aberta sobre a bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:

--Se diz onde estamos, mato-o.

O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali, sem saber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presença eram tambem suspeitos, e que por consequencia não eramos empregados da policia. Esteve um momento calado e accrescentou:

--Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui?

--Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o assassino.

--Esperem, esperem, gritou elle, não comprehendo! Quem são os senhores? Suppuz que eram da policia... São talvez... disfarçam para me surprehender! Eu não conheço aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me sair... Que desgraça!

--Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado.

Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia. Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu. O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me _que o salvasse_, chamava-me seu _amigo_. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.

--Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto.

--Qual?

--É que não tivesse deixado signaes o arsenico...

--Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil.

Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.

--Sabe tudo, disse eu ao mascarado.

--Foi elle, confirmou o mascarado convencido.

Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:

--A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão, dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que vêr n'este negócio.

--De certo que não. Este homem é o assassino.

E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da mascara:

--E porque o matou?

--Matei-o... respondeu o homem.

--Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para lhe roubar 2:300 libras em _bank-notes_, que aquelle homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de prata, que eram as iniciais do seu nome.

--Eu!... para o roubar! Que infamia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi, não o matei!

--Que malditas contradicções! gritou o mascarado exaltado.

A.M.C. objectou lentamente:

--O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o unico amigo que elle conhecia em Lisboa?

--Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço. Falle,diga.

--Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este sujeito, que é extrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou ha poucas semanas, vinha a esta casa...

--É verdade, atalhou o mascarado.

--Que se encontrava aqui com alguem...

--É verdade, disse o mascarado.

Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das idéas perturbada, via apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel.

--Além d'isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem que um grande segredo occupava a vida d'este infeliz...

--É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto.

--Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me que viesse ver se o encontrava...

Nós esperavamos, petrificados, o fim daquellas confissões.

--Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel.

E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.

--Leia, disse elle ao mascarado.

Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados.

Ergui o papel, li:

_I declare that I have killed myself with opium._

(Declaro que me matei com opio).

Fiquei petrificado.

O mascarado dizia com a voz absorta como n'um sonho:

--Não é possivel. Mas é a lettra dele, é! Ah! que mysterio, que mysterio!

Vinha a amanhecer.

Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até ámanhã.

VI

Peço-lhe agora toda a sua attenção para o que tenho de contar-lhe.

A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruidos da povoação que desperta. A rua não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Tambem não era uma rua larga, porque o echo das carroças era profundo, cheio e proximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens.

O mascarado tinha ficado n'uma prostração extrema, sentado, immovel, com a cabeça apoiada nas mãos.

O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido.

Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros. Entrava uma luz lugubre, esverdeada.

--Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessario fazer o exame do quarto, movel por movel.

Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e á cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de velludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de setim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fôfo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra com flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava uma bengala grossa com estoque.

Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade significativa. O exame d'ella dava na verdade a persuasão de que se estava n'uma casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um logar de entrevistas, e não um interior regular.

A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se no chão, ao pé da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre o tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao pé da cama.

Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o relogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha d'ouro, com dinheiro miudo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de fóra o opio; não appareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou em pó; e foi a primeira difficuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicidio.

Perguntei se não havia na casa outros quartos que communicassem com aquelle aposento e que devessemos visitar.

--Há, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas escadas. Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontrámol-a fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu d'esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.

Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer. Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir a hypothese do suicidio: não se encontrou a gravata do morto. Não era natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lançado fóra. Não era tambem racional que tendo vindo áquelle quarto, esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguem pois tinha estado n'aquella casa, ou pouco antes da morte ou ao tempo d'ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gravata do morto.

Ora a presença de alguem n'aquelle quarto, coincidindo com a estada do supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava presumpções ao crime.

Aproximámo-nos da janella, examinámos detidamente o papel em que estava escripta a declaração do suicida.

--A lettra é d'ele, parece-me indubitavel que é--disse o mascarado--mas na verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escripta!

Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas. Notei logo no alto da pagina a impressão muito apagada, muito indistincta, d'uma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao mascarado: elle ficou surprehendido e confuso. No quarto não havia papel, nem tinteiro, nem pennas. A declaração pois tinha sido escripta e preparada fóra.

--Eu conheço o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado; não é d'este; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar d'outro.

A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um _buvard_, um lapis.

Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com corôa.

Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmente nas lojas não tem corôas.

Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado ao meio e não tinha os vincos que dá o _enveloppe_.

Demais a folha tinha um aroma de pós de _marechala_, o mesmo que se sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos.

Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente efficaz e seguro.

--Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de escrever, abreviando-a, a palavra _that_, d'este modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida. N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra _that_ acha-se escripta por inteiro.

Voltando-se então para M. C.:

--Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta declaração foi falsificada.

--Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com surpreza.

--Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios d'isso. Mas o grande, o forte, o positivo indicio é este: onde estão 2:300 libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?

M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.

--Não apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.

--Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a minha palavra de honra que não sei a que se quer referir.

Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada sobre as feições do mancebo:

--Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer este novo negocio das 2:300 libras, de que só agora se falla; o que vejo é que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei é que evidentemente o cumplice é uma mulher.

--Não póde ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma supposição absurda.

--Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado, carregado de estofos, illuminado por uma claridade baça coada por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado com uma corda de seda; ali aos pés d'aquella volteriana aquelle tapete feito de uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o vestigio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?...

--Ou a qualquer outro fim.

--E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?

--Muitos homens o usam!

--Mas não o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia o mesmo aroma que se respira no ambiente d'esta casa. Este papel pertence a uma mulher, que examinou a falsificação que elle encerra, que assistiu a ella, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os dedos humidos, deixando no papel um vestigio tão claro...

O mascarado calava-se.

--E um ramo de flôres murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um buraquinho... É o vestigio flagrante que deixou no veludo um gancho de segurar o cabello!

--Esse ramo podiam ter-lh'o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de fóra.

--E este lenço que encontrei hontem debaixo de uma cadeira?

E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou n'elle avidamente, examinou-o e guardou-o.

M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com voz humilde, quasi supplicante:

--Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios não provam. Este lenço, de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?

--E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata?

O mascarado calou-se succumbido.

--No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é sair.

--Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado.

E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:

--Um momento! Eu volto já!

E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa, fechando-a á chave pelo outro lado.

Fiquei só, passeando agitadamente.

A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem ao clarão do sol.

Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro.

Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro.

Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello louro, um cabello de mulher.

Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente.

--Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!... Pobre cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi, patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no emtanto, tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás dizer?

De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro, reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua _nuance_ especial, no seu aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos labios,disse commigo:

--Ora! por um cabello! que loucura!

E não pude deixar de rir.

Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã.

VII

Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da cama um cabello louro.

Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso, languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, immovel, aquelle cabello perdido.

A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena, _mignonne_, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por uma ligação tenue, delicadamente organisada.

O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoista.

Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados phantasiosos.

Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus cabelos á abundante espessura natural.

Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem uma verdade scientifica, nem uma prova judicial.

Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões?

Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio, verosimilhança de crime.

O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento?

Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na minha vida.

O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e pela logica da verdade occulta.

Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.

--Vamos, disse elle.

Tomei calado o meu chapéu.

--Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.

Dei a minha palavra.

--Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.

E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.

Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados. Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho, levemente annelado.

A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga.

--Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente conducção para Lisboa.

E offereceu-me charutos.

Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou.

--Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor.

E abriu por dentro a portinhola.

--Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!

Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e estendendo-me para fóra um pequeno cartão:

--Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato.

Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente, olhei. O retrato estava tambem mascarado!

--É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote.

Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto.

Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.

O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de sarcophago!

Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto áquelle por onde elle desapparecia.

--Onde fica o Cacem?

--De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua.

A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra.

Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia.

Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco. Havia contradicções sobre a côr dos cavallos.

Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F. tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido este bilhete a lapis: _Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid._

Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.

Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é, seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser victima de uma emboscada.

São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome: assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero.

Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e feliz... Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu--pobre de mim!--estou encarcerado por um mysterio, guardado por um segredo!

P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias, só hoje me veiu á mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte d'essa carta, da qual depois de ámanhã lhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento n'este obscuro successo; é um vestigio luminoso e profundo. F... é um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem é muito mais facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher. É gravissima a situação do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso, hesitante, perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me á decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autographo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem... se poderem. Adeus!

+INTERVENÇÃO DE Z.+

Nota do Diario de Noticias.--No original da carta publicada hontem havia algumas palavras a lapis, nas quaes só fizemos reparo depois de impresso o jornal. Essas palavras continham esta observação: _A photographia do mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, rua das Chagas, Lisboa. Talvez ahi possa haver noticia do sujeito photographado._

Antes de darmos á estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos foi hontem enviada pelo medico, é dever nosso tornar conhecida uma outra importantissima que recebemos pela posta interna, assignada com a inicial _Z._, e que temos em nosso poder ha já tres dias. Esta carta, que tão estreitamente vem prender-se na historia dos successos que constituem o assumpto d'esta narrativa, é a seguinte:

Senhor redactor do _Diario de Noticias_.--Lisboa, 30 de julho de 1870.--Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quasi toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor anonymo conta o caso que essa redacção intitulou _O mysterio da Estrada de Cintra_. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade despreoccupada que se liga a um _canard_ fabricado com engenho, a um romance á similhança dos _Thugs_ e de alguns outros do mesmo genero com que a veia imaginosa dos phantasistas francezes e americanos vem de quando em quando acordar a attenção da Europa para um successo estupendo. A narração do seu periodico tinha sobre as demais que tenho lido o merito original de se passarem os successos ao tempo que se vão lendo, de serem anonymas as personagens e de estar tão secretamente encoberta a mola principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a veracidade do caso portentosamente romanesco, que o auctor da narrativa se lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o ideal mais perfeito, o typo mais acabado do _roman feuilleton_, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciaes de um nome de homem--A. M. C.--accrescentando-se que a pessoa designada por estas lettras é estudante de medicina e natural de Vizeu. Eu tenho um amigo querido com aquellas iniciaes no seu nome. É justamente estudante de medicina e natural de Vizeu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia por tanto o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamissima. Isto não é licito a romancista nenhum.

A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tedio. Saindo de casa pouco depois da leitura do seu periodico, procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me á sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir quanto antes á redacção do _Diario de Noticias_ a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam de certo recusar a semelhante aggravo.

Em casa do meu amigo acabo porém de saber, cheio de confusão e de surpresa, que elle desappareceu e que é ignorado o seu destino!

Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.

Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a noticia que leio na sua folha?

Julgo do meu dever assegurar o seguinte:

Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade d'estas contradicções.

Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja.

Saiu talvez ás tres horas da noite.

Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.

As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela madrugada.

--Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas.

Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de tempo.

Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um somno pacifico em sua propria casa.

Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio, fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente dormir? Tem isto logica?

Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E tudo isto se faz em meia hora! em _meia hora!_ Devendo, meus senhores, descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser?

Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno, impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico: estava para casar, sem romance, trivialmente.

Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal!

Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio!

Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura! Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes.

Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de chá e um livro de historia?

E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões!

Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa com um martello, com pregos, e se declara assassino,--isso não o sei explicar.

Suspeito que haja uma grande influencia que peza sobre elle, alguem que com promessas extraordinarias, com seducções indisiveis, o obriga a apresentar-se como auctor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorancia de que estas dedicações são sempre desapreciadas perante o trabalho da policia, quer expiar o crime de outro; perde-se para salvar alguem.

Com que interesse? por que seducções? Não sei explicar. Elle, tão indifferente ao dinheiro! tão rigido de costumes e de sensações!

Pois bem! M. C. póde sacrificar-se; póde-o fazer. Nós, seus amigos, é que não podemos consentil-o. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente, póde dal-o á infecção d'um carcere, ou ao peso d'uma grilheta. Mas o seu caracter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence tambem aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendel-a corajosamente.

Não! M. C. não foi o assassino. Dil-o a evidencia, a fatal logica dos factos, a terrivel mathematica do tempo, o conhecimento do seu caracter, e a coherencia dos temperamentos, que é uma verdade nas sciencias physiologicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, _mente_. Digo-lh'o claramente, em frente, diante dos seus proprios olhos fitos sobre os meus:--Se te declaras o auctor d'esse crime, _mentes_!

Elle tem de certo o senso moral transviado. Se me deixassem fallar-lhe!... Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquella rasão cheia de escuras nuvens da paixão e da dôr! Isto é afflictivo! Honra, amor, familia, esperança, tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só n'este mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da provincia, sua mãe, suas irmãs, sabem já que elle está aqui apontado como assassino! Que se lembre da terrivel deshonra, do seu futuro perdido, das horas solitarias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatorio publico, e do echo profundo que faz na alma humana o ruido sinistro dos ferros da grilheta.

Não ponho no fim d'esta carta o meu nome, porque presinto vagamente n'este grupo de successos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a passagem mysteriosa e fatal de um crime que vae poderosamente na direcção do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu não quero que a publicidade do meu nome leve os cumplices no attentado de que se trata, ou porventura a policia, a aniquillar ou a embaraçar de qualquer modo a intervenção expontanea que eu proprio vou ter no descobrimento dos reus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os pôr em pratica de toda a minha liberdade.

Creia-me, senhor redactor, etc--_Z._

+DE F... AO MEDICO+

I

Julho 21 à 1 hora da noite.

--Meu querido amigo.

--Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se continuas, como eu, permanecendo aqui em carcere privado. Em qualquer dos casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão encerrando para aquelle de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa das horas mais extraordinarias da nossa vida.

Escrevo mais para coordenar e fixar na memoria estes momentos do que para empregar n'outro destino puramente hypothetico esta carta. Será uma pagina das minhas confidencias que entregarei á discrição ou ao acaso da posta, reservando-me o direito de lhe pedir que m'as restitua a seu tempo.

Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos hontem á noite, pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadaver. O mascarado que se encarregára de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua e o numero de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da casa em que ella mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui dizer serenamente:

--Não o comprehendo.

Este individuo era o mesmo que na carruagem se conservára sempre calado, o mesmo que na sala me observava com attenção e desconfiança.

Aquella estatura, aquella falla, aquella voz, posto que apenas perceptivel ao meu ouvido, não eram novas para mim.

Elle respondeu fallando-me ainda mais baixo:

--Não poderá sair d'aqui antes de dois ou tres dias. Veja se precisa de escrever uma carta ou de mandar um recado.

Passou-me pela mente uma idéa a respeito d'aquelle homem... Se fosse...

Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio; bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.

--Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lapis?

Tinhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo em que elle saia promettendo trazer-me o necessario para escrever. O individuo que voltou com papel e pennas não era o mesmo que acabara de sair. Assim tinha eu perdido a occasião de confirmar uma suspeita ou de desvanecer uma duvida.

Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu creado serenando-o com relação ao meu desapparecimento.

--Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete.

--Nada mais.

Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de escrever directamente á pessoa a quem o mascarado se referira.

Fecharam a porta e fiquei só.

Achei-me n'um quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janella. A um lado havia um lavatorio; sobrepostas a um canto tres malas de viagem, de coiro de Varsovia com pregos d'aço, estrelladas com senhas de caminhos de ferro, d'hoteis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em grandes lettras pretas sobre uma tira de papel este distico: _Grand-Hotel-Paris_; uma das senhas era dos paquetes inglezes da carreira da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples guarnição d'este aposento um sophá forrado de marroquim verde, collocado no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha ceia á luz fulgurante de um grande candeeiro com largo _abat-jour_.

Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquelle recolhimento, aquelle socego, aquella solidão, depois da grande sobreexcitação em que me tinha achado!

Estirei-me no sophá, puz-me a olhar machinalmente para o circulo da luz trepidante projectada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura do _abat-jour_, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos spasmos do coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação occupada n'um trabalho inconsciente, similhante ao dos sonhos, ia tirando no emtanto do caso que eu presenceára as ramificações mais illogicas e mais phantasticas. Os successos por que passámos desde a estrada de Cintra até á minha entrada n'este quarto appareciam-me redemoinhando convulsamente no ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impellidos pelos pontapés de diabinhos sarcasticos, que se riam para mim e me deitavam de fóra as linguasinhas em braza.

Fui caindo mollemente n'um despego languido, fecharam-se-me os olhos, adormeci.

Ao acordar, depois de um somno breve mas socegado e reparador, encarei na ceia que reluzia aos meus olhos.

Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma terrinasinha de _foie gras_, uma perdiz, uma fatia de queijo e tres garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto d'estas, quatro garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o sacarolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos côr de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se collocado o instrumento destinado a abril-a. O copo era de cristal finissimo, o garfo de prata dourada, a faca de cabo de madreperola, os pratos de porcellana brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sophá, senti a fome encavallar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estomago vasio os acicates da gula.

Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto, cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão descarnada e tremula com um gesto prohibitivo e solemne. Atarantado, perplexo, escutei então dentro de mim um breve dialogo similhante áquelles que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a _besta_, na sua viagem á volta do quarto.

Havia uma voz pausada e grave que dizia:

--Attenta no que fazes, temerario! abre teus olhos, inconsiderado mortal! Essa perdiz, cujo peito insidioso e perfido está lourejando a teus olhos, foi apimentada com arsenico. Aquelle Chambertin, que te espera como uma onda da lagoa Stigia, embuscada por detraz d'aquelle lettreiro envernizado, apparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade tenebroso e fatal como o distico do festim de Balthazar, aquelle vinho, que te offerece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com acido prussico. As truffas, lubricas, venaes, devassas, envoltas n'esses figados de pato, estão empapadas nos temperos lethaes da cosinha dos Borgias!

A outra voz, insinuante e meiga, dizia n'uma vaga melodia de sereia:

--Come, se tens fome, estupido! Estás com medo do papão, maluco?... Põe os olhos n'esse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que elle tapa a marca d'esse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, chumbada e garantida com os mais especiaes lavores a lata d'essas sardinhas pescadas nas costas de França e cosinhadas ha seis mezes em Marselha? Não vês religiosamente grudada e sellada com as etiquetas insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de _foie gras_? Suppões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te arrancar essa vida inutil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. Deleita-te conversando depois comtigo e repousando-te no seio tepido da melancolia, d'essa deliciosa fada que só apparece evocada pelos namorados e pelos solitarios, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã _gatée_, a irmã feliz!

Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que misturára n'um copo.

Puz-me por fim a comer com apetite, com valor, com delicia, com uma especie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta de mim os espiritos beneficos do carcere que bafejaram as prisões de Silvio Pellico.

É singular isto: achava-me bem!

Depois da ceia accendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo comigo:

--Visitemos o paiz!

Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei a cama encostada á parede em que se achava esta porta e abri-a.

Era uma armario na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia altura por um prateleiro espaçoso e solido.

Occorreu-me que ao fundo do armario haveria talvez um tabique delgado atravez do qual me seria possivel escutar o que se passasse na casa contigua.

Penetrei no armario, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado havia um ruido volumoso e macisso. Parecia que se estava arrastando um movel pesado e grande.

O fundo do armario era effectivamente formado por um tapamento franzino. Era possivel que tivesse havido primitivamente uma porta no logar em que se fizera o armario. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via deante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da cal.

Peguei no saccarolhas, e no logar indicado fui esburacando devagarinho e progressivamente o cimento do muro, até operar um orificio imperceptivel, pelo qual me era dado vêr a luz e ouvir distinctamente o que se dizia do outro lado.

Eis-aqui o que ás onze horas e meia da noite se estava passando no quarto contiguo áquelle que me serve de prisão:

II

Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do logar em que elle estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho d'aquella em que se passava a scena que descrevo, e exactamente para junto do logar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de orelha.

Um d'esses homens dizia assim:

--Será o que muito bem quizer, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos trambulhões com os moveis á hora da meia noite.

--Ha de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo estendido ao pé da mangedoura, á espera que chegue o trem para ir tratar dos cavallos, a enfastiar-se sem ganhar vintem.

Aquelle que dizia estas palavras, comquanto se expressasse claramente, tinha todos os defeitos de pronuncia que distinguem os extrangeiro que falla portuguez. Pela aspiração especial de certas vogaes e pela contracção habil com que pronunciava os aa, era por certo allemão.

O que primeiramente fallára, proseguiu:

--É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a estas horas, ainda que os pese a oiro!

--Para mudar uma cama!

--Não é pela cama, é por ser a casa que é!

--Ora adeus! que tem a casa?!...

--Não tem nada! É uma graça! Ella é de tal casta que o senhorio teve-a quatro annos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A ultima gente que cá morou esteve só duas noites, e foi-se d'aqui tolhida com as coisas que lhe appareceram e com as trapalhadas que ouvia... Cruzes demonio! cruzes diabo!

--Petas! historias da vida!

--O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a familia!?... não estive com elles!? Fugiram de noite, fugiram á segunda noite que dormiram cá, estarrecidos de medo.

--Então que viram elles?

--Elles não viram nada.

--Então ahi tem!

--Não viram, mas ouviram.

--Haviam de ouvir boas coisas!

--Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a elles que succedeu isso, foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram com ella perdida!

--Então que ouviam elles?

--O senhor bem o sabe!... O que elles ouviam? Ouviam pancadas nas portas, quando ninguem batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem os carvões exactamente como se estivessem abanando á fogueira, quando estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um passaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; ouviam-o arquejar e bufar approximando-se cada vez mais dos que estavam deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das pennas, o calor de lume que elle deitava do bico e ao mesmo tempo o frio de neve que fazia a mover as azas!

--Ora adeus! tinham ouvido fallar n'isso e pareceu-lhes que sentiam o tal passaro, de que já fallavam os inquilinos anteriores, os quaes tambem tinham ouvido fallar n'elle, não havendo ao fim de contas ninguem que verdadeiramente o tivesse ouvido.

--Então o senhor não sabe porque foi que elles fugiram, os ultimos que estiveram cá, faz agora quatro annos?

--Ouvi fallar n'isso, mas por alto, não me deram pormenores.

--Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz. Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua, tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale, estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo, e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão.

--Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda noite que durmo aqui.

--Gabo-lhe o gosto! E não tem medo?

--Nenhum.

--Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem!

--Então que dizem por ahi de mim?

--Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que tem partes com o demonio.

--Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro, mudando de tom.

--Isto assim?

--Ainda mais... um quasi nada... até ficar a cabeceira unida á hombreira da porta... Basta!

--Não quer mais nada?

--Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras.

--Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta...

--A fallar-lhe a verdade gosto!

--Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja se passa ahi para a casa que fica ao lado!

--Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem...

--Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora!

O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para se deitar.

O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse.

Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar.

Agora nós, meu interessante e precioso visinho.

III

A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ageitava para dormir.

--Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?... exclamei eu, dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas as tuas faculdades de _medium_...

E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos.

Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira.

Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario.

Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro. Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual lhe ficava a cama.

No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.

O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror, com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da cama abaixo.

Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza:

--Quem está ahi?

Respondi-lhe:

--Sou eu.

--Quem és tu?

--E tu quem és?

--Frederico Friedlann, cidadão prussiano.

--Ah! disse eu.

--Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth, os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da Europa.

--Bem! observei.

Elle continuou impassivelmente:

--Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo?

--Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade e o meu tedio. Não sou espiritista.

--Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha ainda a ser uma religião.

--Puff! exclamei eu rindo.

--O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na philosophia do futuro.

--Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa...

--Tem-me ás suas ordens.

--Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo!

--Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza d'ella.

--Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que veiu ajudal-o a mudar a cama?

Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um homem de espírito extravagante, com um excentrico.

--Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta!

Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da sinceridade e da convicção mais profunda!

--E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que lhe consta?

--Eu lhe digo...

--Sinceramente!

--Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este mundo.

--Qual é então o seu juizo, vejamos?

--É evidentemente...

--Diga! diga!

--Presumo eu, pelo menos...

--Vamos! sem rodeios, francamente!

--De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo.

IV

As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de uma revelação que me obrigava a meditar.

O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a presumpção--ainda que vaga--da concorrencia de um ou mais amigos meus envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me deparava por visinho.

Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra, elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra da senha.

--_Salut, mon frêre!_ exclamou elle.

--Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me déra.

Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha removido, e deitei-me vestido.

Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.

N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças, d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira benção.

Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre?

Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento!

Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz.

Coitados!... Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios que se collavam nos d'elle!

Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo.

Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos achamos hoje.

Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas palavras:

--Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle?

--Sei que as trazia, dizia outra voz.

--É atroz então!

Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular!

É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo aspecto do _boudoir_ em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia.

As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais tenebrosa suspeita.

O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio, premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo.

Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia, affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta casa com a probidade e com a honra.

Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis.

Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, _posta restante, Lisboa_. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde estou.--Adeus.--_F_

* * * * *

Nota.--Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente publicadas n'esta folha:

F... não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprasava uma entrevista.

Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso.

F... é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal.

Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver.

O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não póde ser uma assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo comnosco, não pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua indignação e o seu odio.

Eu tratei apenas com um d'esses homens--o mais alto--mas com este fallei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos.

Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,--limpido espelho de uma alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia. Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F... é um homem conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos theatros.

Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus companheiros que eu todavia considero innocentes?

A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.

Na carta de F... encontra-se o seguinte periodo:

* * * * *

«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.»

Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... ao quarto em que elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular.

Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em torno d'elle?

As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor,--culto que para as almas honradas constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões--a religião do caracter?

Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com liberdade, com faculdade de acção?...

Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou.

Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara, solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.

Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica!

Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de um segredo soldado a um pé.

Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu, como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu nome.

Despedindo-me--seguramente para sempre--dos seus leitores, cuja attenção tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me permittido acrescentar uma derradeira palavra:

A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.

Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim, collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule.

Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F..., não creio que sejas victima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr, no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio.

Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos commensaes, isso acho logico, e é possivel.

Punge-me não sei que vago e triste presentimento... Meu pobre F...! Se estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!...

E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade humana!

Que remedio?!

Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante! aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!

+Segunda carta de Z+

Senhor redactor.--Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em que o doutor..., com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu pobre amigo A. M. C.

Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro mysterioso e lugubre.

Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda--não sei se n'um retiro voluntario, se n'uma sequestração forçada.

Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados.

O _Mysterio da estrada de Cintra_ é uma invenção: não uma invenção litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta invenção:

Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me atreveria a escrever esta grave affirmativa.

Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime, que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.

É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são visinhos, amigos de _tu_, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros?

Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas mãos, a sua _toillete_, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem relacionado, um velho dilletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, n'esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F... tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia!

E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguem que no salão de S. Carlos, não diga ao passar por elle: _lá vae fulano!_ E é de noite, ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos n'uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos todos! Comedia! Comedia!

E aquelles mascarados, são tão innocentes, tão ingenuos, que vão procurar, n'um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua posição, pela sua intelligente penetração, mais facilmente os poderia reconhecer.

Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquelle homem? Se lhes era indifferente, para que se mascararam?

E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir? Para salvar? N'esse caso então que homens são esses, que em logar d'ir á botica mais proxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo, logo,--vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao crepusculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os velhos episodios de floresta dos dramas de Soulié?

Suppunham por ventura que elle estava morto? Para que era então um medico, uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia? Comedia! Comedia sempre!

Veja-se o doutor *** diante do cadaver: não ha ali uma palavra que seja scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupillas, tudo é falso n'aquella descripção symptomatica.

E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F... que na rua d'uma cidade, dentro d'uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelles mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos supportam certas violencias humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, acceitam pela sua attitude condescendente uma parte da cumplicidade?

E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, timido, imbecil e coacto! Elle d'uma tão grande força de temperamento! d'uma tão energica coragem! d'um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar n'aquella astucia infantil, com que o doutor *** o envolve?

--O que admira é que não deixasse vestigios o arsenico!

--Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***.

Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade lôrpa?

E emfim, que mulher é aquella, que ahi se entrevê? Porque a quer o mascarado salvar? Que roubo é aquelle de 2:300 libras? Sejamos logicos: dado o typo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que elle, vendo que o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por uma mulher que mata para roubar?

Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a paixão, como explica o roubo?

Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as estradas, e vir fazer _tableau_ em volta d'um cadaver?

Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada! aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa! aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F... que não explicam nada, nada revelam, nada significam--a não ser a necessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas d'um jornal honesto.

Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia, houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!

O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.

Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosimeis invenções.--Z.

NARRATIVA DO +MASCARADO ALTO+

I

Senhor redactor.--A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era nas cartas do doutor *** designado pelo--_mascarado mais alto._--Sou eu. Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim, eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre:--«Vi as accusações contra si e os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se não fizer isto, denuncio-me á policia.»

Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia das dores mais profundas d'um coração que estimo.

Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa, aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de _whist_, onde ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima.

Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a _graça_. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade, reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do sol.

Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo. Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho sonho de se affogar n'aquelles olhos.

Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.

De resto, simples e espirituosa.

Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho. Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos n'essa noite o _écarté_; e ella terminou por fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus estados de espírito nervosos, ou melancolicos.

--Estou hoje com os meus _blue decils_, dizia ella.

Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado:

--Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem _ar_, não tem grammatica, não tem _toilette_, e todavia não é desagradavel.

Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu _dog-cart_.

O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas gravatas.

Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto heroico dos palacios, e a animação petulante das _maltezas_ de grandes olhos arabes...

--Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.

--Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a Malta. Venha tambem, primo.

--Está claro que vem! gritou o conde.

E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um navio, e que me deixava seu herdeiro.

Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade, queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados--mil planos incoherentes que nos faziam rir...

Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete da India.

Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude e no rosto.

--Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;--estou com uma sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos...

E mais baixo:

-- ... e de vago amor ... Sabe explicar-me isto?

Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico calor d'Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n'um segredo:

--Sabe que está linda!

--Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus, foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Ahi está! Como o luar é traiçoeiro, meu Deus! E eu que estou velha!

Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o capitão approximou-se:

--Conhecem aquella luz?

--Nunca viajei n'este mar, capitão--respondi.

--São portuguezes, não?... Aquella luz é o pharol de Ceuta.

Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta. D'ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu coração. Achava-se n'aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para sempre d'uma existencia.

Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas infinitas da paixão?

Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N'uma praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava ao som da canção do general Boum.

--Detesto os inglezes, disse a condessa.

--O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os inglezes?

E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida:

--Detesta os inglezes, menino!

II

Sr. Redactor.--Em Gibraltar fomos para _Club House-Hotel_. Os quartos abriam sobre a muralha do mar; viamos defronte, afogada n'uma luz admiravel, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas brumas esbatidas, a terra de Africa.

Fomos passeiar logo n'um d'aquelles carros de Gibraltar que são dois bancos parallelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes, puchados por um cavallo inglez robusto, rapido, e tendo já adquirido nas convivencias hispanholas um espirito teimoso.

O bello passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima da cidade, contorna a montanha, e é orlada de _cottages_, de jardins, de pomares, cheios já das extranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloes, nopaes, cactus e palmeiras; e vê-se sempre, atravez da folhagem, lá no fundo, a azul immobilidade luminosa do Mediterraneo.

A condessa estava encantada: aquella luz ampla e magnifica, a agua pesada pelo sol, o silencio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e róxas das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava áquella pobre alma contraida uma expressão inesperada. Ria, queria correr, tinha _verve_, e uma luz bailava-lhe nos olhos.

Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores inglezes artilharam-no talvez um pouco de mais. Não ha fontes, mas ha estatuas de generaes; as pyramides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e a estupida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnolias. Mas que serenidade! Que silencio abstracto e divino! Que ar immortal! Parece que as cousas, os seres vegetaes, a terra, a luz, tudo está parado, absorto n'uma contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em baixo está o Mediterraneo, liso como um setim, delicado, coberto de luz. Mais longe vaporisadas, docemente esbatidas nas nevoas azues, as duras fórmas do monte Atlas. Nada se move: apenas ás vezes uma pomba passa, voando com uma serenidade ineffavel. Um momento veiu-nos de baixo, onde passava um regimento de Highlanders, o som das _cornemuses_ que tocavam as arias melancolicas das montanhas da Escocia. E os sons chegavam-nos doces, ethereos, como se fossem habitantes sonoros do ar.

A condessa tinha ficado sentada, e immovel, calada, penetrada d'aquella admiravel serenidade das cousas, da beleza da luz, do somno da agua, dos vivos aromas.

--Não é verdade, disse, que dá vontade de morrer aqui, brandamente, só...

--Só? perguntei eu.

Ella sorriu, com os olhos perdidos na bella decoração do horisonte luminoso.

--Só... disse ella, não!

--Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se scismando assim vagamente, vem um pequeno sonho bem innocente, acampa no nosso coração, começa, a caval-o, e depois, querida prima, e depois...

--E depois vae-se jantar, disse o conde que tinha chegado ao pé de nós, radiante por ter apertado a mão de um coronel inglez, e colhido um cacto vermelho.

Descemos ao hotel. Á noite passeavamos no Martillo. Era a hora de recolher; uma fanfarra ingleza tocava uma melopéa melancolica. Ouviu-se no mar um tiro de peça.

--Chegou o paquete da India, disse o nosso guia. E no alto do morro um canhão respondeu com um echo cheio e poderoso.

--Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei.

--Os militares quasi sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com licença do governador.

Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeiado ao luar nas esplanadas, sentimos na sala de _Club-House_, ruido, vozes alegres, estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Officiaes inglezes que vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham desembarcado, e ceavam.

Nós tinhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive occasião de approximar d'um dos officiaes inglezes que estava proximo de mim o frasco de mostarda. O frasco caiu, sujou-me, elle sorriu com polidez, eu ri alegremente, conversámos, e ao fim da noite passeiavamos ambos pelo braço, na esplanada que ficava defonte das janellas do hotel e que está sobre o mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualisava a decoração admiravel das montanhas, a vasta agua immovel.

Eu tinha sympathisado com aquelle official, já pelo seu perfil altivo e delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade triste que havia na sua attitude. Era moço, capitão de artilheria, e batera-se na India. Era loiro e branco; mas o sol do Indostão tinha amadurecido aquella carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos, e dado aos cabellos uma côr fulva e ardente.

Passeiavamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, abriu-se uma janella, e uma mulher com um penteador branco, apoiou-se levemente na varanda, e ficou olhando o horisonte luminoso, a melancolia da agua. Era a condessa.

O luar envolvia-a, empallidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava á sua forma toda a espiritualisação de uma figura de antiga legenda: o seu penteador caia largamente ao redor d'ella, em grandes pregas quebradas.

--Que linda! disse o official parando, com um olhar admirado, e profundo. Quem será?

--Somos um pouco primos, disse eu rindo. É casada. É a condessa de W. Parte para Malta ámanhã no paquete. A bordo levar-lhe-hei o meu amigo para a entreter contando-lhe historias da India. Adora o romanesco aquella pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o ha. Caçou o tigre, capitão?

--Um pouco. Falla o inglez sua prima?

--Como uma portugueza, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre.

Separámo-nos.

--Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima--disse eu entrando na sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando;--um romance onde se caçam tigres com rajahs, onde ha bayaderas, florestas de palmeiras, guerras inglezas, e elephantes...

--Ah! como se chama?

--Chama-se Captain Rytmel, official de artilheria, 28 annos, em viagem para Malta, bigode loiro, um pouco da India nos olhos, muito da Inglaterra na excentricidade, um perfeito _gentleman_.

--Um bebedor de cerveja! disse ella, desfolhando a flôr de cactus.

--Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma indignação comica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas isso se não queres fazer-me cabellos brancos! Estimo os inglezes e respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço d'aquella perfeição!... murmurava elle, fazendo ranger a penna.

Ao outro dia subiamos para bordo do paquete da India, o _Ceylão_. Eram 7 horas da manhã. O morro de Gibraltar mal acordada tinha ainda o seu barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e officiaes sobre a tolda. O chão estava humido, havia uma confusão violenta de bagagens, de cestos de fructa, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se á _cabine_, para dormir um pouco. Ás 9 horas quasi todos os passageiros que tinham entrado de Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor fumegava, os escaleres affastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol dava uma côr rosada ás casa brancas de Algesiras e de S. Roque, e ouvia-se em terra o rufar dos tambores.

A condessa, sentada n'uma cadeira indiana, olhava para as pequenas povoações hispanholas que assentam na bahia.

O official inglez, Captain Rytmel, conversava a distancia com o conde, que adorava já a sua figura captivante e altiva, as suas aventuras da India, e a excentrica fórma do seu chapeu, que elle trazia com uma graça distincta e audaz. O capitão tinha na mão um album e um lapis.

--Captain, disse-lhe eu tomando-lhe o braço, vou leval-o a minha prima, a senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ella é implacavel e faz caricaturas.

A condessa estendeu ao inglez uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com umas unhas polidas como o marfim de Dieppe.

--Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil historias da India para me contar. Já lhe digo que lhe não perdôo nem um tigre, nem uma paisagem. Quero tudo! adoro a India, a dos Indios, já se vê, não a dos senhores inglezes. Já esteve em Malta? é bonita?

--Malta, condessa, é um pouco de Italia e um pouco de Oriente. Surprehende por isso. Tem um encanto extranho, singular. De resto é um rochedo.

--Demora-se em Malta? perguntou a condessa.

--Uma semana.

A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no official, tossiu brandamente, e com um movimento rapido:

--Ah! vae deixar-me ver o seu album.

--Mas, condessa, está branco, quasi branco; tem apenas desenhos lineares, apontamentos topographicos.

--Não creio; deve ter paisagens da India, ha de haver ahi um tigre, pelo menos, a não ser que haja uma bayadera!

E com um gesto de graça victoriosa, tomou o album da mão do official.

O capitão fez-se todo vermelho. Ella folheou o livro e de repente deu um pequeno grito, córou, e ficou com o album aberto, os olhos humidos, risonhos, os labios entreabertos. Olhei: na pagina estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janella, tendo defronte um horisonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Elle tinha-a visto assim na vespera, ao luar, á janella do _Club-House_.

O conde tinha-se approximado.

--Como! como! És tu, Luiza! Mas que talento! É um homem adoravel, capitão. Que desenho! Que verdade!

--Oh! não! não! disse o capitão. Hontem estava no meu quarto, em _Club-House_; instinctivamente tinha o album aberto, e o lapis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lapis que deve ser castigado.

--O quê! gritou o conde, é um lapis encantado. Capitão, está decidido que vae jantar commigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Ha de ser o nosso _cicerone_ em Malta. Mas que talento! Que verdade!

E fallando em portuguez para a condessa:

--E um bebedor de cerveja, hein?

N'esse momento uma sineta tocou: era o almoço.

III

Talvez extranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu conto estes factos, conservando-lhes a paizagem, o dialogo, o gesto, toda a vida palpavel do momento. Não se admire. Nem tenho uma memoria excepcional, nem faço uma invenção phantasista. Tenho por costume todas as noites, quando fico só, apontar n'um livro branco os factos, as idéas, as imaginações, os dialogos, tudo aquillo que no dia o meu cerebro cria ou a minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui.

Á mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso logar era ao pé do capitão. O commandante do _Ceilão_ era um homem magro, esguio, com uma pelle muito vermelha, d'onde sahiam com a hostil aspereza com que as urzes saem da terra, duas duras suissas brancas.

Ao seu lado sentavam-se duas excentricas personalidades de bordo: o _Purser_, que é o commissario que vela pela installação dos viajantes e pelos regulamentos de serviço, e mr. Colney, empregado do correio de Londres. O _Purser_ era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens robustos mettidos e apertados n'uma farda de marinha mercante. Mr. Colney era alto e secco, com um immenso nariz agudo e enristado, em cuja ponta repousava pedagogicamente o aro de ouro dos seus oculos burocraticos. O _Purser_ tinha uma fraqueza que o dominava--era o desejo de fallar bem brazileiro. Tinha viajado no Brazil, admirava o Maranhão, o Pará, os grandes recursos do imperio. A todo o momento se approximava de mim para me perguntar certas subtilezas de pronuncia brazileira. Mister Colney, esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas comicas. Os outros passageiros eram officiaes, que iam tomar serviço na India, algumas _misses_ alegres e loiras, um _clergiman_ com doze filhos, e duas velhas philantropicas, pertencentes á Sociedade educadora dos pequenos patagonios.

Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fria, encarou-o, ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:

--_Viva Dios!_ É Captain Rytmel! Eh! querido! mil abraços! Está gordo, hombre, está mais gordo!

Envolvia-o nos braços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpreza, em que se fez pallido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente bella, que estava sentada ao pé d'aquelle homem guloso e expansivo, o qual era um hispanhol, negociante de sedas, e se chamava D. Nicazio Puebla.

A senhora, que se chamava Carmen, era cubana, e segunda mulher de D. Nicazio; era alta, de fórmas magnificas, com uma carnação que fazia lembrar um marmore pallido, uns olhos pretos que pareciam setim negro coberto de agua, e cabellos annelados, abundantes, d'esses a que Beaudelaire chamava _tenebrosos_. Vestia de seda preta e com mantilha.

--Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel.

--Em Cadix, meu caro, disse D. Nicazio. Viemos hontem. Vamos a Malta. Volta para a India? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcuttá! Lembra-se hein?

--Captain Rytmel--disse sorrindo friamente Carmen--esquece depressa, e bem!

No emtanto nós olhámos curiosamente para Carmen Puebla. O conde achava-a _sublime_. Eu admirado tambem, disse á condessa:

--Que formosa creatura!

--Sim! Tem ares d'uma estatua malcreada, respondeu ella seccamente.

Olhei para a condessa, ri:

--Oh prima! É uma mulher adoravel, que devia ser em miniatura para se poder trazer nos berloques do relogio; uma mulher que de certo vou roubar, aqui no alto mar, n'um escaler; uma mulher cujos movimentos parecem musica condensada! Oh prima! confesse que é perfeita... Menino! accrescentei para o conde, passa-me depressa a soda, preciso calmantes...

No emtanto Captain Rytmel, sentado junto de Carmen, fallava da India, de velhos amigos de Calcuttá, de recordações de viagens. A condessa não comia, parecia nervosa.

--Vou para cima, disse ella de repente, mandem-me chá.

Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:

--Está incommodada a condessa?

--Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, falle-lhe da India. Eu, não posso deixar este _carril_...

Eu tinha interesse em ficar á mesa defronte da luminosa Carmen, concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu excentrico chapeu indio, orlado de veus brancos.

Ao vel-o seguir a condessa, a hispanhola empallideceu. Momentos depois ergueu-se tambem, tomou uma larga capa de seda á maneira arabe de um _bournous_, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada n'uma alta bengala de castão de marfim.

O almoço tinha acabado. Fallava-se da India, do theatro de Malta, de lord Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao commandante, e fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.

A condessa estava sentada n'um banco á pôpa; ao pé d'ella o capitão Rytmel, n'um _pliant_ de vime.

Carmen passeava rapidamente ao comprido da tolda; ás vezes, firmando-se nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e ficava olhando para o mar, emquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento, e lhe davam uma apparencia ondeada e balançada, que a assimilhava áquellas divindades que os esculptores antigos enroscavam no flanco dos galeões!

IV

D. Nicazio Puebla, que o _Purser_ me apresentara já, viera fumar para o pé de mim.

--Esteve na India, Caballero? perguntei-lhe eu.

--Dois annos, em Calcuttá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel. Conviviamos muito. Jantavamos sempre juntos. Fui á caça do tigre com elle. Cacei o tigre. Deve ir a Calcuttá! Que palacios! Que fabricas!

--O capitão é um valente official.

--É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a vida.

--N'alguma caçada.

--Eu lhe conto.

Tinhamo-nos approximado da pôpa, fallando. N'este momento vi eu a hispanhola encaminhar-se para o logar em que a condessa fallava com Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe:

--Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra?

A condessa fez-se muito pallida. O capitão teve um movimento colerico, mas ergueu-se e seguiu a hispanhola.

Eu approximei-me da condessa.

--Quem é esta mulher? Que quer?... disse-me ella toda tremula.

Eu soceguei-a e dirigi-me a D. Nicazio.

--Viu aquelle movimento de sua mulher?

--Vi.

--É inconveniente: e o cavalheiro responde de certo pelas phantasias ou pelos habitos d'aquella senhora...

--Eu! gritou o hispanhol, eu não respondo por coisa alguma. O senhor que quer? É um monstro essa mulher! Livre-me d'ella, se póde! Olhe: quel-a o senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer d'estas scenas! E não lhe posso fazer uma observação! É uma furia, usa punhal!

--Esta mulher, fui eu dizer á condessa, é uma creatura sem consideração e parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a presinta. Se houver outra inconveniencia eu dirijo-me ao commandante, como se ella fosse um grumete insolente. É pena... é terrivelmente linda!

A hispanhola no entanto, junto da amurada, fallava violentamente ao capitão Rytmel que a escutava frio, impassivel, com os olhos no chão.

O conde subiu n'este momento. Outras senhoras vieram, os grupos formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo _do boi_...

Eu approximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importancia:

--Então esta sua senhora dá-lhe desgostos?

--É sempre aquillo com o capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre... Quer que lhe conte?...

--Diga lá.

Sentei-me na tenda onde se fuma, accendi um charuto, cruzei as pernas, recostei a cabeça e, emballado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.

--Um dia em Calcuttá, começou o hispanhol, dia de grande calor...

Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta historia a saiba do proprio capitão. Ahi tem a tradução fiel de uma das mais vivas paginas de um dos seus albuns de impressões de viagem.

* * * * *

...«Sabes, escrevia elle a um amigo, que o sonho de todo o negociante que chega á India é caçar o tigre.

D. Nicazio Puebla quiz caçar o tigre. Sua mulher Carmen decidiu acompanhal-o. Essa, sim, que tinha a coragem, a violencia, a necessidade de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquella familia. Combinámos uma caçada com alguns officiaes meus amigos, então em Calcuttá. A duas leguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. Tinha mesmo saltado, havia duas noites, uma palliçada de bambus, na propriedade d'um doutor inglez, antigo colono, e tinha devorado a filha de um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado.

Partimos de madrugada, a cavallo. Um elephante, com um palanquim, levava Carmen. Um boi conduzia agua em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns officiaes de artilheria, cipaios, tres malaios e um velho caçador experimentado, antigo brahmane, degenerado e devasso, que vivia em Calcuttá das esmolas dos nababos e dos officiaes inglezes. Era destemido, meio louco, cantava extranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e dormia sempre em cima de uma palmeira.

Nós levavamos espingardas excelentes, punhaes recurvados, espadas de dois gumes, curtas, á maneira dos gladios romanos, e o terrivel tridente de ferro que é a melhor arma para a lucta com o tigre. Ia uma matilha de cães, forte e dextra, da confiança dos malaios.

Ás 11 horas do dia penetravamos em plena floresta. O tigre devia ser encontrado n'uma clareira conhecida. Iamos calados, vergando ao peso implacavel do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, n'um ar suffocado, cheio d'aromas acres. Toda aquella natureza estava entorpecida pela calma: os passaros, silenciosos, tinham um vôo pesado; as suas pennas coloridas, vermelhas, negras, roxas, doiradas, resplandeciam, sobre o verde negro da folhagem. O ceu mostrava uma côr de cobre ardente; os cavallos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi que levava a agua mugia lamentavelmente; só o elephante caminhava na sua pompa impassivel, em quanto os malaios para esquecer a fadiga, diziam, com a voz monotona e lenta, cantigas de Bombaim.

Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos proximo da clareira.

Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e agua...

Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me respondendo ao meu.

Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n'um terrasso em Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n'aquella floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não foge.

--Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá!

--Está rindo, capitão...

--Na caçada do tigre póde-se pensar n'isto: o tigre é astuto; tem o instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.

--Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão.

--Só hoje?

--Sempre, e bem sabe por quê.

De repente o meu cavallo estacou.

--O tigre! o tigre! gritaram os malaios.

Os cavallos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturaes, e o elephante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solemne e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens.

Estavamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pallido e inquieto.

--D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o signal d'alarma!

D. Nicazio picou rapidamente o cavallo para mim, murmurou com uma voz suffocada:

--Quero subir para o elephante. Carmen não deve estar só; póde haver perigo...

Fallei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe ao dorso dos elephantes. O Carnak dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho faiscante e medroso.

Mas estão foi Carmen que não quiz ficar dentro do palanquim, pediu, gritou, queria montar a cavallo, sentir o cheiro á fera.

--Tirem-me d'aqui, tirem-me d'aqui! Não fiz esta jornada toda para ficar dentro d'uma gaiola...

Não havia sella em que mulher montasse, nem cavallo bastante fiel; não se podia consentir que Carmen descesse. Mas eu tive uma idéa extranha, perigosa, tentadora, imprevista: era pôl-a á garupa do meu cavallo. Disse-lh'o.

Ella teve um gesto de alegria, quasi se deixou escorregar, agarrando-se ás cordas do palanquim, pelo ventre do elephante; correu, pôz o pé no meu estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se á garupa. Os officiaes exclamavam que era uma imprudencia. Ella queria, instava e apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras do tigre a arrancariam d'alli...

Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava Carmen á garupa, tinha-me collocado atraz do grupo, cerrado, com os pés firmes nos estribos, attento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.

Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem.

Carmen apertava-me exaltada.

--Vá! Vá! pediu-me ella baixo. O tigre, o tigre! Dê o signal.

Ergui um rewolver e disparei. O echo foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se um rugido surdo, lugubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar...

--Que ninguem se alargue! disse o velho brahmane, que tinha trepado a uma palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava!

Todos conservavam a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o salto do tigre. Eu déra uma _cuchilla_ a Carmen, tinha na mão da redea um forte rewolver e na outra um punhal curvo...

De repente os arbustos estremeceram, as altas hervas curvaram-se, sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veiu cair, com um rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado, e immovel.

Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ossea, os olhos fulvos, ferozes, n'um movimento perpetuo e convulsivo; e a lingua vermelha como sangue coalhado, pendia-lhe fóra da bocca.

Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhaes com a cauda. Depois com um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no prendido no ar, pelas orelhas, pela pelle espessa do pescoço, pelas pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo. Alguns ficaram logo despedaçados.

E no instante em que a fera tendo cuspido todos os cães, ficou só, magnifico, e de cabeça alta o brahmane fez um signal. Duas balas partiram. O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido. Immediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o tridente e os punhaes enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas laminas agudas. Prendera porém um malaio entre as garras, e rasgava-lhe o peito. Á uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e elle, succumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.

--Nada de bala! nada de bala! gritava o brahmane.

Eu estava fascinado. Carmen convulsivamente apertada a mim, com os olhos chammejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos d'excitação. O tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, seguia-lhe a mais pequena contracção dos musculos. Vi-o arquear-se de repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Carmen. Com uma determinação subita, disparei um tiro do meu rewolver no ouvido do cavallo que montavamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair a distancia, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a elle, cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rapido, que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca malaia em fórma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Carmen.

--Hurrah! gritaram todos, e o echo d'este grito estendeu-se pela floresta.

Carmen tinha-se approximado do tigre morto, acariciava-lhe a pelle aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.

--Hurrah! hurrah! continuavam gritando os caçadores.

Carmen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com enthusiasmo, dizendo alto:

--Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!...

E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:

--Amo-te.

A tarde cahia. Sentiamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a dirigir-nos para Calcuttá. Descançámos n'uma plantação de indigo. E ao começar da noite, com archotes accesos e cantando, partimos alegremente para a cidade, pela floresta, n'um caminho conhecido e seguro. As luzes davam á ramagem attitudes phantasticas; passaros acordando esvoaçavam; e sentia-se o fugir dos chacaes. Era como a volta d'uma caçada barbara, das velhas legendas da India. Carmen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu montava, ao lado d'ella, o cavallo do malaio morto. Ella inclinou-se para mim e com a voz abafada:

--Juro-te, disse-me, que te amo, como só no nosso paiz se ama. Juro-te que em todas as circumstancias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei os teus perigos, serei a tua creatura, e só te peço uma cousa.

--O quê?

--É que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres um pouco de mim.

O momento, o sitio, os perfumes acres, as phantasticas sombras da floresta, a luz dos archotes, a belleza maravilhosa e fatal de Carmen, os tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavallos, os gritos dos chacaes, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a logica, disse-lhe:

--Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires que te esqueço, quero que me mates!

Ella segurou a mão que lhe estendi, e com uma caricia humilde, com um gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e beijou-me os dedos.

A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrellas scintillantes...»

V

Ao terceiro dia de viagem do _Ceylão_, um dia antes de avistarmos Malta, um official inglez, ao almoço, lembrou que n'aquelle dia fazia 28 annos o principe de Galles. Quasi todos os officiaes que estavam a bordo conheciam o principe, estimavam o seu caracter, o seu temperamento eminentemente _byroneano_. Resolveram, com accedencia do commandante, celebrar a data e valsar á noite, na tolda, á luz d'um _punch_ collossal.

O jantar foi já ruidoso; o Champagne resplandeceu como opala liquida nas taças facetadas; a pesada _pale ale_ espumou; o Xerez ferveu na _soda water_. Carmen, pela sua belleza e pela extranha _verve_ da sua agitação, foi a alegria d'aquelle pesado e longo banquete de annos reaes.

Houve _toasts_, á rainha e aos principes inglezes, ao lord-almirante, á companhia _P. and O._; e um inglez rico fez um _speech_ aos estrangeiros: _The count and countess of W_.

--Peço um _toast_, disse Carmen, de repente.

Os copos tiniram, estalaram as rolhas.

--Á caçada do tigre! aos palanquins de cortinas brancas! aos caçadores que salvam as damas que têem á garupa!

A maior parte não comprehendeu, alguns riram, mas como o _toast_ era excentrico, foi escoltado d'applausos.

--_Oh! shocking!_ disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo amplo ventre do _Purser_ uma fascinação concentrada.

--_Not at all, Madam!_ disse eu, é apenas o sangue meridional. Aquella viveza, aquelles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ella agora quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue meridional...

A ingleza escutava, como quem se instrue.

-- ... Se ella tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete contra um rochedo, era o sangue meridional; se ella ousasse arrancar com mãos impias os seus oculos, milady...

--Ouh! gritou ella.

-- ... era ainda o sangue meridional!

--_Oh! very shocking the_ sangue meridional.

Os officiaes inglezes, esses, estavam enthusiasmados com Carmen.

No emtanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntára-se um grupo de bebedores convictos e serios. Serviu-se o cognac e os alcools. Carmen ficára entre os homens, bebendo licôr, rindo e fumando cigarrettes.

A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel.

D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda, de salada, de vinagre, de sal, de rabanos e d'um leve pó apimentado de Ceylão.

Não sei como, fallou-se de mulheres, e de caracteres femininos.

--Eu, disse logo Carmen, comprehendo a gravidade devota das _misses_: como senhoras inglezas é sua educação; nasceram para serem hirtas, loiras, frias e leitoras da _Revista d'Edimburgo_. Estão na verdade do seu caracter: um pouco menos vivas seriam de _biscuit_, um pouco mais seriam _shockings_. Mas o que eu detesto, são as canduras allemãs, os modos virginaes de creaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu paiz, pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma hispanhola, uma italiana, uma portugueza, caindo no _missismo_, e dando-se ares vaporosos, hypocritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não serve para esconder dois.

Aquellas palavras eram evidentemente uma allusão sanguinolenta ás maneiras reservadas da condessa, que, sendo loira, discreta, suave, contrastava poderosamente com aquella trigueira e ruidosa hispanhola.

--Perdão, _señora_, disse-lhe eu em hispanhol: hoje as verdadeiras maneiras não são o _salero_, são a _gravidade_. O _salero_ póde ser bom no theatro, na _zarzuella_, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem á Hispanha, mas é de todo o ponto inconveniente n'uma sala.

Ella empallideceu levemente, e fitou-me:

--_Caballero_, perguntou, _es usted pedante de rhetorica?_

Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo _toast_.

Mr. Cokney, que escutava a hispanhola, tinha attendido ás nossas palavras, tinha achado um som pittoresco e extranho n'aquelle dizer--_pedante de rhetorica_, e exclamava para os outros inglezes, rindo:

--_Oh yes, Pedantt de Rhetoric, it is very phantastic!_

Entretanto, a noite caia. Eu senti-me pesado, recolhi á _cabine_, adormeci ligeiramente. Pelas nove horas subi á tolda. Fiquei surprehendido.

Não havia luar, nem estrellas, nem vento. Ao fim da tolda ardia o _punch_. Era enorme, a sua chamma larga, azulada, phantastica, subia, palpitava, fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos logares escuros saiam risadas de _flirtations_. Havia uma flauta, e uma rebeca. E já um ou outro par valsava em roda da _clara-boia_ da tolda.

A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do _punch_, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satan.

Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando nos circulos da valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas n'uma claridade phosphorica, os vestidos brancos tomavam tons espectraes, os cabellos louros luziam com um encanto morto, havia em tudo aquillo como uns longes de dança macabra...

Carmen estava possuida da mesma agitação da chamma do _punch_, travava do braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha replicas, batia o leque. D. Nicazio, esse resonava perto da amurada. De vez em quando entornavam-lhe _punch_ pela bocca: elle abria uma frestado olho:

--_Thank you_, caballeros! e adormecia.

--Onde está captain Rytmel? disse de repente Carmen. Tragam-n'o... Quero valsar com elle.

Rytmel conversava com a condessa socegadamente, longe da luz.

--Rytmel! Rytmel! chamaram varias vozes.

Vimol-o approximar-se contrariado, mas rindo.

--Uma valsa, gritou-lhe a hispanhola.

A flauta começou: ella tomou os hombros do capitão, e despediram em grandes circulos; os vestidos de Carmen enchiam-se d'ar, os seus cabellos desmanchavam-se; a luz do _punch_ tremia; ao compasso rapido, os giros vertiginosos, enlaçados, pareciam vôos, lembravam a valsa do diabo cantada por Byron. Ella vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os olhos cerrados, os beiços entreabertos e humidos.

--Bravo! Bravo! gritavam os inglezes em roda.

A luz do _punch_ erguia-se, balançava-se, valsava tambem. Carmen e Rytmel passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos idealisadores da chamma azul. O som frenetico da flauta perseguia-os; parecia que elles iam voar, desapparecer entre as cordagens, dissipar-se na noite. Os inglezes gritavam, erguendo os chapeus:

--Hip! hip! hip!

Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação: estava observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante. Apenas a valsa findou, ella tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer n'uma voz grave e reprehensiva:

--Não dance mais.

Fiquei surprehendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva, tão casta, tão timida!...

Approximei-me d'ella.

--Prima, é tarde. Não quer descer?...

Ella olhou-me serenamente, sorrindo.

--Não. Porquê?

E affastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se fumava, e agora deserta e quasi escura.

Eu machinalmente fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado opposto, e quasi sem querer ouvi.

O capitão dizia-lhe:

--Mas porque duvida? Eu desprezo aquella mulher. A nossa amisade nada perde, e nada soffre. Ella foi para mim um capricho, e historia de um momento. Agora nem uma recordação é...

Continuaram fallando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um momento á amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar...

Quando me approximei de novo dos grupos ruidosos, ouvi casualmente Carmen que dizia:

--Onde se some aquelle capitão Rytmel? Desappareceu outra vez com a condessa, não viram? Vamos procural-os.

Comprehendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, á tenda _fumoir_, entrei, sentei-me n'um banco, conversando alto, ao acaso. A tenda estava apenas allumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me apparecer assim tão bruscamente, fizera-se pallida de colera.

Mas n'este momento chegavam alguns officiaes, gritando:

--Rytmel! Rytmel!

Eu adiantei-me, dizendo:

--Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais...

Os officiaes affastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me, profundamente.

--Desça, condessa, desça, segredei-lhe eu.

Ella disse com um sorriso melancolico a Rytmel:

--Está frio, adeus!

Rytmel e eu voltámos para o grupo dos officiaes.

Eu queria-me vingar-me de Carmen; lembrou-me o tornal-a o centro de ruido, e d'orgia.

--Señorita! disse-lhe eu, cante-nos uma _seguidilla_ ou uma _habanera_! Faz um bello effeito no alto mar. Estão aqui _gentlemen_ que nunca ouviram a musica dos nossos paizes.

--Sim, sim, gritaram todos. _Uma seguidilla_!

Ella queria recusar-se, descer ao beliche.

--Não, não, cante, mylady, cante!

Os pedidos eram instantes, e ruidosos. Ella cedeu, ergueu a voz, no meio do silencio, acompanhada pelo monotono ruido do vapôr e pelo vento crescente, e cantou com uma voz forte e languida:

Á la puerta de mi casa Hay una piedra mui larga...

Os inglezes estavam extaticos. No fim os applausos estalaram como foguetes, encheram-se os copos, um gritou:

--Pela _señorita Carmen!_ hip! hip! Hurrah!

Os applausos echoaram no mar.

Ella estava extremamente embaraçada, comprehendia que só, no meio d'aquellas acclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada.

--Ora vejam! disse eu então, com uma bonhomia mephistophelica, é pena que as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na pandiga.

Carmen deitou-me um vivo olhar de odio: eu estava vingado.

Um dos inglezes, no entanto, Mr. Reder, continuava, erguendo o copo, cheio de _punch_:

--A Carmen Puebla! Hip! hip! hip!

--Hurrah! responderam os outros enthusiasmados.

E o echo triste do mar, repetiu:

--Hurra!

Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram se as luzes. Quasi todos desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio crescia. Navegavamos então á vista da terra d'Africa. Quando a tolda ficou deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a grande pancada do mar.

De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancolica do marinheiro de vigia, dizia, pausadamente:

--_All is well_.

Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava n'aquella confusa penumbra que não é o somno, nem a vigilia, mas um vago sonho vivo que se sente e que se domina: via a condessa passar n'uma nuvem com Rytmel, alegre, bebendo cerveja; via Carmen vestida de monge, dançando sobre a corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater do helice.

De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou um grande grito.

VI

Dei um salto, corri á porta do beliche:

--_Stewart! Stewart!_

_Stewart_,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú.

--Que é? Estamos perdidos? Batemos n'um rochedo?

--Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro.

Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n'um perigo.

--Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação angustiada.

A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda pesada entrar, alagar a _cabine_.

Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais lugubre. A officialidade estava impassivel.

--Que foi? que foi? perguntei a alguem.

--Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel vendaval...

--Estamos perdidos!

--O navio é seguro, respondeu o outro.

Ao lado diziam:

--O capitão devia deitar as lanchas ao mar.

O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d'agua. Olhei os astros, o ceu impassivel, a agua negra,--e senti um immenso despreso pela vida.

Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns diziam que ficariamos _á capa_, esperando firmemente o mau tempo; outros que o navio estava perdido... Um official disse ao passar:

--Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas vezes d'Aden a Bombaim.

Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se caminhassemos n'um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim, appareceu:

--Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco dias.

No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma. Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões.

A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado para as _cabines_, indifferentes ao perigo. Algumas _ladies_, tranzidas, mas graves, ficaram no convez.

Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem cessar.

Captain Rytmel approximou-se de mim.

--É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d'este commandante navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d'Africa. Se o vendaval nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia o nosso engenheiro de bordo, Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa?

Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e pallida.

--Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o perigo!

Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma, reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel.

--Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se, havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma baleia morta!...

Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos. Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas.

Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos crusadas.

--Morremos, hein? perguntou ella.

--Tem medo? disse eu.

--Um pouco, de morrer affogada. D'uma bala ou d'uma facada, não me custava. Mas aqui, estupidamente, n'este antipathico elemento, é cruel! Ao menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!...

--Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo.

--Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes, deshonra a Peninsula. Ahi está.

--Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por ella.

--E que me importa a mim esse cavalheiro?

E deu uma curta risada.

No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo deprehendi, debaixo da _tenda_. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar, apesar do ruido do vento.

Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d'um perigo,--e as acções humanas n'esses momentos não se podem sujeitar ao criterio da vida trivial,--tudo me levou a ir escutar, apesar das repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d'espião:

--E custa-lhe morrer?

--Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque, francamente, sou eu feliz?

--Se a minha amisade é para si um interesse profundo...

A condessa calou-se.

--Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa. Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a sua alma...

--Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim... Vamos passear, vamos ver o mar.

O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina trabalhava-se sempre.

Rytmel continuava fallando á condessa.

--Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.

--Não; devo dizer-lh'o: esta palavra «amisade» é falsa. D'aqui a duas horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma justiça. Digo-lh'o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d'estas palavras, o mar é um bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a...

--Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos levaria? ou ao despreso ou á tortura...

Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.

De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua voz era alta e vibrante:

--Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?

--Penso, condessa.

--Pois bem, quero dizer-lh'o então: amo-o!

E depois de um momento:

--Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.

N'este momento um ruido extranho tomou o navio.

Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga. Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei para a abertura que desce á machina.

--Que é? perguntei a um official que subia.

--Um milagre de Pernester!

Todos tinham corrido. Era uma anciedade.

O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior da machina sobe ao pavimento do navio.

Estava radiante.

--Imaginem que Pernester...

--Sim, sim, interrompi, mas então?

--Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.

--Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.

O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho, grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse n'um tom suave:

--_Now, I should enjoy a nice glass of beer..._

VII

No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte _La Valette_, elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular. Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza.

Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o palacio dos grã-mestres, os palacios chamados _Estalagens_, e que eram pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso, que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny, _viajante por tedio_, dizia elle.

Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das grandes tranças louras d'uma rapariga que nós viamos sempre na 1.^a ordem do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d'uma frescura de _miss_ e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize, dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de Rytmel.

Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia, dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem perdidamente namorado.

Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me n'uma discripção completa e delicada.

Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus _blue devils_. Tinha vindo de Inglaterra n'um lindo _yacht_, chamado _The Romantic_, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel.

Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro, onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de _ladies_, não a encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se apenas pelo gosto de o vêr contrariado...

Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.

--Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.

--Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que _transformação fecunda_ fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do _Morning Post_. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no divino Ganges paquetes a tres _schellings_ por cabeça; fazem beber ás _bayaderas_, _pale ale_, e ensinam-lhes o jogo do _criket_; abrem _squares_ a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de _porter_, que quando não vão ser forçados em _Botany-Bay_, vão ser governadores da India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!

Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:

--Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu logar, a sua hora e as suas armas.

E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e transmitti-lhe as palavras do meu amigo.

Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o achava um adoravel _gentleman_, que pedia das suas palavras as mais humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas quaesquer...

--Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as armas...

--Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.

Nomearam-se padrinhos n'essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d'armas têem as mais severas penalidades. Era difficil, porém, estando n'uma ilha ingleza, não se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o seu _yacht_ e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre. As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a clavicula partida. Foi deitado n'uma _cabine_ preparada. Levantou-se o pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde.

Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só.

--Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido.

--Isso cura-se, eu mesma o curarei... agora o que é sério, é o que se está tramando aqui dentro d'este hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio apenas... Diga ao conde que vigie a condessa!

Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde, Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto a excursão, e offerecia o seu _yacht_. O conde esquivava-se, dizendo que o mar o incommodava, no estado nervoso em que estava.

--Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa, tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama.

--Mas, então?

--Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês! Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d'ella, tem o sangue maltez!

Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim no corredor e tomou-me pela mão.

--Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro.

Era Carmen.

--Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo.

E desappareceu.

VIII

No outro dia ás seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia estado durante a noite sob o dominio d'uma extrema agitação nervosa, mas não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lord Grenley com Rytmel, tomando chá.

Pareceu-me pela fadiga das suas physionomias, que se não tinham deitado: lord Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na vespera, e tinha ainda na _boutonniêre_ um jasmim do Cabo, murcho e amarellado.

--Bonita madrugada! disse Rytmel.

Tinham aberto a janella, o ar fresco entrava; nas arvores do jardim cantavam os passaros.

--Adoravel! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se transtorna o passeio... Outra cousa: tem um rewolver, Rytmel?

--Para quê?

--Disseram-me que era muito curioso atirar aos passaros que se escondem nas cavernas, em Gozzo. Ha um echo excentrico. Precisamos de uma arma.

Rytmel deu-me um pequeno rewolver marchetado.

--Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da albuns e de canetas para tirar desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vae?

--Porque? como assim, mylord?

--Um jantar official com o governador disse Lord Grenley, é horrivel. Tenho uma pena immensa...

Ás sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o caes Marsa-Muscheto.

Notei ao entrar no _yacht_ que a equipagem estava augmentada e havia um piloto arabe.

Largámos com um vento fresco, ás oito horas da manhã; as gaivotas voavam em roda das velas, as casas brancas de _La Valette_ tinham uma côr rosada, ouviam-se as musicas militares, o ceu estava d'uma pureza encantadora.

A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria avida, para o vasto mar azul, livre, infinito, coberto de luz.

--O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está encantada por se vêr só, com rapazes, n'um _yacht_, no alto mar. É para ella quasi uma aventura!

Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante. Representar eu alli o marido, a familia, o dever, diante de duas creaturas moças, bellas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro annos, ardente e apaixonado, o encarregado de fazer a policia d'aquelle romance sympathico! _Á la grace de Dieu!_ O mar é largo, o ceu profundo, a honra existe, daqui a duas horas estamos em Gozzo, passeamos, rimos, jantamos, e ao anoitecer, quando Deus espalhar o seu rebanho de estrellas, voltaremos na viração e na phosphorescencia, calados, ouvindo o piloto arabe cantar as doces melopeas da Syria, ao ruido languido da maresia...

Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço. A condessa ficara de pé, á prôa, com um vestido curto de xadrez, botinas altas, envolta n'uma manta escoceza, de largas pregas. Nunca eu a vira tão linda.

Costeavamos Malta com vento oeste.

Approximamo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveriamos almoçar, e que ao fim de meia hora desembarcavamos em Gozzo, na _Calle Maggiara_; iriamos vêr as curiosidades da ilha, tornariamos a embarcar para tornear Gozzo, e vêr as terriveis cavernas, onde o mar se abysma e se perde, e ao anoitecer tocariamos o caes de La Valette.

O almoço foi muito alegre. Havia Champagne, um Rheno adoravel, um guizado arabe e um piano na camara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter uma preoccupação inexplicavel, fez ao piano depois do almoço interminaveis improvisações. Caminhavamos sempre. Casualmente, tirei o relogio, e tive um sobresalto! Havia duas horas e meia que tinhamos descido! Ora quando o almoço começára, faltava-nos meia hora para desembarcar em Maggiara! Porque seguiamos então? Subi rapidamente á tolda. O piloto arabe estava ao leme. Não se via quasi a terra: iamos no mar alto, navegando com uma extraordinaria velocidade sob o vento.

--Onde está Gozzo? gritei ao arabe em inglez, depois em francez, depois em italiano.

O arabe nem sequer se dignou olhar-me. N'este momento Rytmel e a condessa subiam.

--Onde está Gozzo? perguntei eu a Rytmel.

--Ha talvez uma bruma, respondeu elle vagamente e voltando o rosto.

O horisonte porém estava limpo, puro, sem mysterio, a perder de vista. Ao longe via-se uma sombra indefinida que denunciava a terra: e nós affastavamo-nos d'ella!

Corri á bussola. Navegavamos para Oeste.

--Navegamos para Oeste, Captain Rytmel! affastámo-nos de Malta! Que é isto? Para onde vamos?

Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse:

--Vamos para Alexandria.

Num relance comprehendi tudo. Rytmel fugia com a Condessa!...

Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo:

--Isso é uma infamia!

Elle empallideceu terrivelmente; mas a condessa, interpondo-se, com uma voz vibrante:

--Não! sou eu! Sou eu que vou para Alexandria.

--N'esse caso sou eu o infame, prima.

Houve um silencio. Os olhos da condessa estavam humidos. Correu para mim, tomou-me uma das mãos, murmurou entre soluços:

--Que quer? Ninguem tem culpa. Amo este homem, fujo com elle.

Rytmel tomara-me a outra mão.

--Agora, dizia, é impossivel voltar. É um passo dado, irreparavel...

Eu estava succumbido: aquella situação imprevista, deixava-me sem raciocinio, sem voz, sem vontade.

Eu, amigo do conde!... Eu, cumplice d'aquella fuga! Além d'isso, alli, no meio d'aquelles dois amantes encantadores, que me supplicavam apertando-me as mãos, eu sentia-me ridiculo--e isto augmentava o meu desespero. A condessa, no entanto, continuava:

--Primo, disse ella, que importa? Estou deshonrada, bem sei. Mas que queria? que eu ficasse ao lado de meu marido, amando este, n'uma mentira perpetua, vivendo alegremente instalada na infamia? Essa situação nunca! É suja! Ao menos isto é franco. Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para elle.

--Captain Rytmel, disse eu, então mande deitar uma lancha ao mar.

--Que quer fazer? gritou a condessa.

--Eu? ganhar a terra. Acha que tambem não é uma infamia installar-me n'este navio?

--Está louco, disse Rytmel, ha só um escaler a bordo. O vento cresce, o mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos.

--Melhor! Um escaler ao mar! gritei eu.

--Ninguem se mecha! bradou Rytmel.

E voltando-se para a condessa:

--Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem elle? Foi forçado, foi levado. Não responde por nada.

--Um escaler ao mar! gritava eu.

Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bordo d'onde pendia o escaler, cortou as correias de suspensão; o barco cahiu na agua com um ruido surdo, ficou jogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como um corpo morto.

Eu bati o pé, desesperado.

--Ah que infamia! capitão Rytmel! Que infamia!

E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma cousa de violento, gritei para alguns marinheiros que estavam á prôa:

--Ha algum inglez ahi que preze a sua bandeira?

Todos se voltaram admirados, mas sem comprehender.

--Pois bem! gritei eu, declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a cumplicidade da deshonra, e que é sobre toda a face ingleza que eu cuspo, cuspindo no pavilhão inglez.

E correndo á popa cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a larga bandeira ingleza. Um dos marujos então de certo comprehendeu porque teve um movimento de ameaça.

--Ninguem se mova! gritou Rytmel. Eu sou o offendido. Meu amigo, disse elle com a voz suffocada, tem razão: desde que abandonei Malta, deixei de ser official inglez. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com effeito, não tem que fazer aqui!

Adeantou-se, arreou o pavilhão de tope da popa.

E n'uma exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao mar; as ondas envolveram-n'o, e por um estranho acaso, no encontro das aguas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena, immovel, á superficie do mar, até que se afundou.

Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, tomou um lenço das mãos da condessa, amarrou-o á corda da bandeira, e içando-o rapidamente, gritou:

--De ora em diante o nosso pavilhão é este!

Eu achava-me no meio de todas aquellas scenas violentas, como entre as incoherencias d'um sonho.

N'um movimento que fiz, senti no bolso o rewolver: não sei que desvairadas ideias de honra me hallucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei:

--Boa viagem!

--Jesus! bradou a condessa.

IX

Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o rewolver.

Eu murmurei simplesmente:

--Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos.

A condessa então adiantou-se, livida como a cal e disse (nunca me esqueceu o som da sua voz):

--Rytmel, voltemos para Malta.

--Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus!

Eu interpuz-me, disse as cousas mais loucas:

--Rytmel, dê-me esse rewolver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão póde retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-me, fugi vós para bem longe...

Mas a condessa, que era a unica que parecia ter ainda uma luz de razão dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dôr oculta:

--Rytmel, voltemos para Malta.

Elle olhou-a um momento: a consciencia da nossa odiosa situação pareceu então invadil-o, subjugal-o; vergou os hombros, obedeceu, foi dizer algumas palavras ao capitão do _yacht_.

D'ahi a um instante corriamos sobre Malta.

Houve um grande silencio, como o cançasso d'aquella lucta da paixão. Rytmel passeava rapidamente pelo convez, e sob a serenidade do seu rosto, sentia-se a tormenta que lhe ia dentro.

--Aqui está! disse elle de repente, parando e cruzando os braços, com um extranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos para Malta. Que mais querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre! Iamos a Alexandria; estavamos salvos, sós, novos, felizes! E agora? Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre ingenuo! Fallam-te na honra! Que honra a que me vae matar todos os dias, a que me arranca do meu paraiso, a que me torna o ultimo desditoso! Honra! Que me resta a mim? Uma bala na India. Morrer para ali, só, como um cão.

A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar.

E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado:

--Vês tu! Vês isto? Eu soffria tudo por ella; a deshonra, a infamia, o desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o escarneo, tudo por ella. Diz-se a um homem--amo-te, vae-se fugir com elle, está-se n'um navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraiso, quando já se não vê terra, vem um escrupulo, uma mágoa, uma saudade do marido talvez, uma lembrança d'um baile, ou d'uma flôr que ficava bem--e adeus para sempre! e quer-se voltar; e tu, miseravel, soffre, chora, arrepella-te, e morre para ahi como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz, nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a terra!...

--William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua, só tua... tua deante de Deus, tua deante dos homens...

N'este momento ouviu-se a voz distante de um sino!

Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte.

A suavidade da hora era extrema; o ar estava ineffavelmente limpido. Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de la Valette. O sol descia. Os seus ultimos raios obliquos faziam scintilar os _miradouros_. Distinguiam-se no caes os vendedores de flores. Duas gondolas corriam para nós. Houve um grande ruido nas velas, assobios de manobras, o navio parou, e a ancora caiu na agua! Tinhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam repicando.

X

Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa, n'um triste estado de exaltação e de paixão.

Carmen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente, perguntou-me:

--Voltaram? como foi?

--Sabia então alguma cousa? interroguei admirado.

--Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante toda a noite Rytmel andou fazendo preparativos. Era uma combinação de ha trez dias. Lord Grenley sabia. E agora?

--Agora, disse eu, tudo terminou. A condessa naturalmente parte no primeiro paquete.

--Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei, mas que quer? Amo aquelle homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação, salvou-me a vida. É sobretudo uma paixão estupida que me roe, que me mata. E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar. Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para que vivo eu? Vivia d'esta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me quem o não ha de adorar? Ás vezes lembra-me matal-o!...

Conversámos algum tempo. A pobre creatura tinha nos olhos um fulgor febril, na face uma pallidez de marmore. Eu procurei calmal-a. Começava a sympathizar com ella...

A condessa não sahiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ella tivera em Gozzo um susto terrivel, porque tinhamos estado em perigo, na visita ás cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive quasi sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu espirito. Accommodava-se, ainda que com certas repugnancias, a uma situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana é cheia de conciliações!) ao fim de cinco dias a condessa appareceu no theatro, fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus hombros reluziam as dragonas de ouro de Captain Rytmel!

Entrámos então n'uma vida serena, sem romance e sem lucta. Os corações tinham calmado, e fallavam baixo. O conde passeava no campo com mademoiselle Rize; lord Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de opio; eu jogava as armas com os officiaes inglezes; D. Nicazio negociava; Rytmel tinha um ar feliz e mysterioso; a condessa recebia, guiava os seus poneys, e todas as noites, no theatro, fazia reluzir ao gaz o louro esplendor dos seus cabellos e a pallidez preciosa das suas perolas. Santa paz!

O tempo estava adoravel. Malta resplandecia, a bahia reluzia ao sol, os jardins floresciam, os olhos das maltezas suspiravam. Era o tempo das flôres da laranjeira. Só Carmen emmagrecia e vivia retirada.

Mr. Perny entrava em convalescença: passava o tempo deitado n'um _sophá_, de dia compondo uma opera comica, á noite jogando com alguns officiaes, e salpicando a gravidade britannica de _calembourgs_ bonapartistas.

Uma occasião, ao sair de casa d'elle, onde tinha perdido algumas duzias de libras, recolhia eu a Clarence-Hotel levemente irritado, e sentindo um prazer excentrico em cantar o _fado_ pela ruas de Malta, a mil legoas do Bairro Alto. O pavilhão que nós habitavamos em Clarence-Hotel dava sobre um jardim todo escuro d'arvores e de moitas de flôres.

Ordinariamente o conde e eu entravamos pelo jardim. Tinhamos uma pequena chave que abria a portinha verde no muro, todo coberto de musgo e de copas d'arbustos orientaes. N'essa noite, ao abrir a porta, cantando em voz alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar estava sereno, accendi um phosphoro, e áquella luz trémula, entrei na sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente, retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu nome. Era Carmen.

--Que faz aqui? disse eu.

--Mato-me. Não lhe disse que sempre que suava de noite, me erguia e vinha apanhar o orvalho?

Mas ella estava completamente vestida de seda preta, e tinha sobre os hombros uma larga capa escura, de fórma arabe, com grande capuz!

--Ah! minha cara, disse eu, mata-se mas é d'amores. A esta hora, com essa _toillette_, n'este jardim, com este aroma de laranjeiras!... Que historia me vem contar d'orvalhos e de suor?

--Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui n'esta sombra encontrar alguem?...

--E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a côrte. Que lhe dê uma serenada, que suba por uma escada de corda, que a seduza n'este jardim...

Emquanto eu fallava, davam horas na Igreja de S. João, e Carmen mostrava uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim, torcendo freneticamente uma luva descalçada.

Eu comprehendi que ella esperava _alguem_. Alguem, isto é, _el querido, el precioso, el saleroso, el niño_ de toda a legitima andaluza. Affastei-me discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura plangente.

--É elle, pensei eu. É o _niño_. Pobre Carmen! Bebe vinagre, apanha os orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não póde ser superior a vir receber debaixo das laranjeiras algum cabelleireiro francez com voz de tenor, ou algum tenor maltez com bigodes de cabelleireiro.

Subi ao meu quarto, mas não tinha somno; a noite era suave e languida, mordia-me uma aspera curiosidade, e com a astucia d'um ladrão napolitano, desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi Carmen. Estava só! Extrema surpreza!

--E _el querido?_ perguntei-lhe eu rindo.

Ella voltou-se em sobresalto e perguntou-me com a voz agitada:

--Qual _querido_?

--O que entrou agora?

--Não entrou ninguem.

--Eu vi.

--Conheceu?

--Não, onde está?

--Abriu as asas, voou! disse ella rindo-se e affastando-se em direcção aos seus quartos.

--Diabo! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os, parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia!

No emtanto, tinha a curiosidade excitada. _Alguem_ tinha entrado mysteriosamente, com uma chave falsa de certo, porque só o conde e eu tinhamos a chave d'aquella porta do jardim. Mas onde estava esse _alguem_? Teria entrado, e saído logo? N'esse caso não era uma entrevista d'amor! Mas se não era um segredo de coração, para que era o mysterio, a hora escura, o silencio, a chave falsa?

_Alguem_ teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto.

Deitei-me preoccupado com aquella aventura. No outro dia, ao almoço, um criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno punhal e que o hospede a quem elle pertencesse o reclamasse em baixo, no _office_. Era um punhal, de fórma curva como se usa no Hindustão. Tinha sido encontrado n'uma moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido, mas voluntariamente arremessado. Ninguem reclamou o punhal.

Tudo isto me causava uma singular curiosidade.

--Diabo! dizia eu commigo, estamos em terra italiana, apesar da policia ingleza, e é provavel que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda por ahi haja alguma _agua tufana_. Sejamos prudentes.

Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado á minha secretaria, escrevia para Portugal, quando senti no corredor passos rapidos, e a porta abriu-se violentamente.

Abafei um grito de terror. De pé, á entrada do quarto, livida, com os cabellos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a condessa.

--Que foi? bradei.

Ella tinha caido n'um sophá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os dentes trémulos.

Eu borrifava-a d'agua, tomava-lhe as mãos, fallava-lhe baixo, e perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar:

--Que foi, minha querida, que foi?

Via-lhe os vestidos cheios de sangue.

--Feriram-n'a?

Ella fez um gesto negativo.

--Então? então? disse eu.

A pobre senhora queria fallar, erguia-se, suffocava, anciava, parecia n'uma agonia.

De repente atirou-se aos meus braços e desatou a chorar.

--Fale, diga, insistia eu.

--Mataram-n'o, disse ella.

--Mataram quem?

--Rytmel.

--Como? Onde?

--No jardim... Vá!

XI

Corri ao jardim. Os meus passos instinctivamente, apressaram-me para o lado da pequena porta verde aberta no muro.

Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, estendido no chão, levemente apoiado no cotovello, vi Rytmel.

--Então? gritei-lhe, abaixando-me anciosamente para elle.

--Só ferido...

--Como? onde?

Não respondeu, os olhos cerraram-se e desfalleceu sobre a relva.

Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em agua, molhei-lhe as faces e as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por baixo da clavicula. Vi que não era mortal.

Eu estava n'uma extrema hesitação. Para onde levar aquelle homem?

O mais racional era conduzil-o a um quarto do hotel; mas isso era dar ao facto uma publicidade ruidosa, fazel-o cair sob o dominio da policia, arrastar até á acção dos tribunaes inglezes o nome da condessa. Porque eu tinha comprehendido tudo. Sabia agora, bem, quem na vespera entrára rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quem pertencia o punhal indio achado nas moitas de buxo. Comprehendia a commoção de Carmen, quando eu a surprehendera ali, no jardim, embuçada n'um _burnous_, esperando. E comprehendia desgraçadamente a que quarto se dirigiam os passos de Rytmel dentro do jardim de _Clarence-Hotel_.

Era, pois, necessario encobrir aquella aventura. E Rytmel, apesar dos obscurecimentos do desmaio e da dôr, tinha-o pensado tambem, porque me disse com uma voz expirante:

--Escondam-me em qualquer parte!

Sahi logo á rua. Passava um daquelles carros ligeiros, d'um só cavallo, que percorrem, com extrema velocidade, e com immensa doçura, as ruas inclinadas de _La Valette_. O _vatturino_ era italiano. Fallei-lhe vagamente n'um duello, dei-lhe um punhado de _shellings_, ameacei-o com os _policemen_, e pul-o absolutamente ao serviço do meu segredo.

Collocámos Rytmel no carro; com mantas fizemos-lhe uma especie de ninho, commodo e molle, e o cavallo trotou rapidamente, pela rua de S. Marcos, para casa de Rytmel. Ahi grande rumor entre os officiaes inglezes. Eu contei uma incoherente historia d'assalto ao florete, em que a minha arma subitamente se tinha desembolado. A historia era inacceitavel; mas era facil comprehender que havia por traz d'ella um segredo delicado, e isto era o bastante para a altiva reserva de _gentlemen_.

Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu.

Tudo tinha sido feito em silencio, desapercebidamente. Fui tranquilizar a condessa. Eram tres horas da noite. Havia temporal, e eu sentia quebrar o mar nas rochas da bahia. Tudo dormia em Clarence-Hotel.

--Agora nós! disse eu. E dirigi-me ao quarto de Carmen.

Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, desmaiada. Ao principio não distingui ninguem e ouvi apenas soluçar. Emfim sobre um sophá, deitada, enroscada, sepultada, vi Carmen, com a cabeça escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo. Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de _cognac_ e um pequeno frasco azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Carmen levantou-se um pouco no sophá. N'aquelle momento a sua belleza era prodigiosa.

Tinha os cabellos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, aberto sobre o peito, deixava vêr a belleza maravilhosa do seio.

Confesso que não foi a idéa da vingança e do castigo que me tomou o espirito diante d'aquella mulher tão terrivelmente possuida da paixão. Lembraram-me as figuras tragicas da arte, lady Macbeth e Clithemnestre, e tanta belleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cerebro um vapor de amores pagãos.

Ella tinha-se erguido e, com uma voz secca:

--Que quer?

Eu fiquei calado.

--Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está ahi a policia, não? Estou prompta. É pôr um chale.

--Ninguem o sabe, disse-lhe eu baixo, e, sem saber por quê, commovido.

--Que me importa? Não o occulto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! pois quê? nós outras damos a nossa vida, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser, pomos n'isto toda a nossa existencia, a nossa honra, a nossa salvação na outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabellos mais loiros ou a cinta mais fina, adeus tu, para sempre! olá creatura! despreso-te, tu foste para mim o momento, o capricho, a _futilidade_. Ah! sim? Então que morra. Que quer mais? Vá buscar os _policemen_.

Eu disse-lhe então, em voz baixa:

--Fui encontral-o banhado em sangue.

Ella olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se sobre o sophá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lagrimas, com um delirio de soluços:

--Ah, meu Deus, perdoae-me! Perdoae-me, Jesus! Perdoae-me! Fui eu que o matei! Estou doida de certo. Pobre Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o torno a vêr, não lhe torno a fallar! Acabou-se para sempre!... Jesus, o que eu sinto na cabeça!... Em Calcuttá adorou-me, aquelle homem. Ajoelhava aos meus pés, eu queria morrer por elle. Diga-me,escute: enterraram-n'o? Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? não, isso não! Vá depressa. Vá buscar a _policia_!... Mas porque me não prendem? Ah meu pobre Rytmel! eu morro, eu morro, eu morro! D'aqui a pouco começam a tocar os sinos!..

Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compoz o cabello com ar desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo negro.

--Escute, disse-lhe eu. Rytmel não morreu.

--Não morreu? gritou ella.

De repente, arrojou-se aos meus braços que a ampararam, tomou-me a cabeça entre as mãos, e fitando-me com uma grande angustia:

--Dize-me: não morreu? Está salvo?

--Está, disse eu.

--Juras?

--Juro.

--Quero vêl-o, quero vêl-o já! gritou ella. O meu chale, o meu chale! Procure-me ahi o meu chale. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo... Positivamente não lh'o fizeram! Se não lhe acudo! Que diz elle? Chora? Pobresinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! maldita seja eu!

Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, derrubava os moveis, arremessava as roupas, fallando, gesticulando, e ás vezes cantando.

--Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que horas são? Elle falou no meu nome?

Veio tomar-me o braço:

--Vamos.

--Onde?

--Vêl-o. Quero vêl-o. Quero! não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, amal-o, servil-o, ser a sua criada, a sua enfermeira...

Parou, e desprendendo-se do meu braço:

--E a outra? Não a quero vêr lá! Ella está lá? Não quero que ella o trate. Mato-a, se a vejo. A outra, não, não, não! Não a deixe chegar ao pé d'elle. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto.

Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande suspiro, e caiu no chão immovel.

Levantei-a, deitei-a no sophá, borrifei-a d'agua; e ella com uma voz expirante:

--Eu morro! eu morro... chame um padre. Não lhe tinha dito... Envenenei-me.

--Envenenou-se? gritei aterrado.

--N'aquelle frasco, alli!

XII

O medico, apressadamente chammado, declarou que não havia perigo. Carmen tinha tomado o veneno n'um preparado fraco, e n'uma porção diminuta. Podia porém receiar-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação dos seus espiritos, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se fazia sentir pelos _ais_ soluçados que se lhe desprendiam do peito.

Fui então vêr a condessa. Não se tinha deitado. Ficára embrulhada n'um chale, sentada aos pés da cama, n'uma attitude absorta de dôr e de inercia que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janellas conservavam-se fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de flôres.

Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flôres murchavam.

--Então? disse ella quando me viu.

--Então! elle está curado, e bom n'um mez. A condessa deve partir dentro de quinze dias.

--Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instante que seja! Não me póde impedir isto: não m'o impeça, não?

--De modo algum, prima. Eu mesmo lh'o facilito.

--E ella?

--Ella, minha prima? Entrei no quarto d'ella para a arrastar ao primeiro _policeman_ que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a amar.

--Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher.

--É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou n'este mundo n'um aspecto divino foi n'aquella mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade:--a logica.

Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel _cavalliere serviente_. Vi-a convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia. Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a imaginação doente.

Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu intento era entrar n'um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento:

--É triste! Aos vinte e oito annos!

Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, idéas de uma redempção pela oração, pelo jejum, pelo silencio e pela contemplação. N'aquelle espirito visitado por todas as paixões, e sempre n'uma vibração exaltada, entrava por seu turno o sombrio catholicismo hispanhol, e vendo o logar deserto das outras idéas do mundo, acampava lá serenamente.

Um dia pediu-me para ir vêr Rytmel antes de partir para Hispanha.

--É como irmã da caridade que o quero vêr!

Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal alumiado pela desmaiada luz de velas de stearina. A pallidez de Rytmel era dolorosa sobre a brancura do seu travesseiro. Carmen entrou, arremessou-se de joelhos ao pé da cama d'elle, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando longo tempo. Rytmel chorava tambem.

Eu tinha-me encostado á parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda e insondavel como a noite. Um visinho, cuja janella abria para o estreito pateo, para onde dava tambem uma janella de Rytmel, tocava n'esse momento na sua rebeca, com uma melancholia plangente, a walsa do _Baile de mascaras_, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que idéas de festa e de morte, de amor e de claustro.

Rytmel queria levantar Carmen, fallar-lhe. Mas ella estava prostrada, com o rosto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia:

--Perdôe-me, perdôe-me!

Rytmel por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços, disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um encanto infinito beijou-a nos olhos.

A pobre creatura córou, eu senti renascerem-se as lagrimas. Querido e pobre Rytmel! como elle teve n'aquelle momento a ternura ideal, e o divino encanto do perdão!

Ella com uma simplicidade, em que já se sentia a immensa força interior que lhe dava a fé, fallou a Rytmel de Deus, do convento em que queria entrar, da ordem que preferia, com palavras naturaes e tocantes, que nos enchiam de magoa. Por fim beijou a mão do seu amante.

--Adeus, disse ella. Para sempre! Resarei por si.

E ia sahir, de vagar, succumbida, quando de repente, á porta do quarto, parou, voltou-se, olhou-o longamente; os olhos encheram-se-lhe de uma luz sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empallideceu, e com os braços abertos, os labios cheios de beijos, n'um impeto da sua antiga natureza, correu para se atirar aos braços d'elle com o phrenesi das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, cahiu de joelhos, e n'um grande silencio e n'um grande recolhimento beijou-lhe castamente os dedos! Depois tomou-me o braço, e sahimos.

Ao outro dia chamou as criadas e repartiu por ellas todos os seus vestidos, rendas e _toilettes_. Deu as suas joias a um padre inglez para as distribuir pelos pobres. Frascos, bijouterias, essencias, tudo destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia resando na egreja de S. João e preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam.

Á noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse á sua volta da Sicilia. Deixava-lhe tudo.

Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu immenso cabello caíu, quasi até ao chão, em grossos anneis, esplendido, forte, immenso, e d'uma poesia sensual.

Tomou uma thesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquellas tranças admiraveis, que teriam sido uma gloria publica no tempo da Grecia.

Eu estava absorto pela belleza, magoado com o desastre. Parecia-me já aquillo o começo do claustro.

Carmen apanhou o cabello caído, embrulhou-o n'um lenço, e, entregando-m'o, disse:

--Guarde essa lembrança. É a verdadeira Carmen, a outra que eu lhe deixo ahi. Agora peço-lhe uma derradeira cousa. Prepare tudo e leve-me a Cadiz. Ámanhã... é possivel?

--Ámanhã não; mas dentro d'uma semana, juro-lh'o, teremos visto do mar as montanhas de Valencia.

Ella no entanto passava rapidamente as mãos pelos cabellos, dando-lhes uma feição masculina. Era encantadora assim. A sua belleza tomava uma expressão ingenua de um extraordinario mimo. Ella sorria ao espelho, eu olhava-a, e via, entre as duas luzes, a sua imagem, como n'um leve vapor azulado e luminoso. Ella, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e compunha o geito do cabello. Eu por traz d'ella sorria. Ella, no enlevo do espelho, na surpreza de se achar linda com o cabello cortado, sorria tambem. Parecia-me ver-lhe as faces tomarem a côr da vida e o seio a ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma cousa doce, chamal-a ao mundo... De repente arremessou o pente, e curvando a cabeça, foi silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu leito, e sobre a qual agonisava um Christo com a cabeça pendente, a testa gottejante, os braços distendidos, o peito constellado de chagas!

XIII

D'ahi a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da India a Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rize ficava, e o Chiado esperava-o! De mais, o estar só com a condessa embaraçava-o: as melancholias d'ella, as suas lagrimas inexplicaveis, a sua pallidez apaixonada, toda a incoherencia do seu caracter, que aquelle excelente libertino explicava pelo _nervoso_ e pelo histerismo, davam-lhe uma certa fadiga enfastiada, e, como elle dizia, embirrava com romantismos. A condessa, essa, partia resignada: Rytmel depois da sua convalescença iria para a Italia, para aquecer as forças ao sol de Napoles, e mais tarde em Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns mezes livres, para, como diziam os antigos poetas, os tecerem d'ouro, seda e beijos.

Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir um dever melancholico: acompanhar a Cadiz aquella infeliz Carmen, ainda ha pouco de uma belleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitencias.

Lord Grenley, que ia para Cadiz dentro de quatro dias, tinha-nos offerecido, a Carmen e a mim, o seu _yacht_. Aceitei com alegria. Era um transporte commodo e livre, e lord Grenley uma companhia symphatica, porque me assustava a idéa de ver durante uma longa viagem no mar, a debilidade de Carmen estiolar-se ao meu lado. Emfim uma tarde partimos.

Era ao escurecer, o ceu estava nublado, quasi chuvoso. Carmen ia profundamente doente. Magra, transparente, livida, sem poder suster-se, sem dormir, alimentando-se quasi só de chá, a sua vida parecia estar a todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus livros de orações. Aquella exaltação a que faltava a terra procurava febrilmente todos os caminhos do ceu.

Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite. Nunca mais tornaria a ver aquella branca cidade. Não fôra ali feliz. Mas amamos todos aquelles logares em que por qualquer sentimento ou por qualquer idéa a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado lagrimas minhas.

Logo no primeiro dia de viagem, Carmen esteve expirante. Havia um forte balanço. O mar era grosso, e nós receavamos mau tempo quando nos avisinhassemos das correntes do golpho de Lião.

Carmen quasi sempre queria estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. Arranjava-se-lhe uma cama, e ali ficava, olhando, scismando, soffrendo, e conversando com o capellão de lord Grenley, velho cheio d'uncção, que tinha um encanto singular fallando das cousas do ceu. Aquella scena era profundamente triste, sobretudo de tarde; o sol cahia, a immensa sombra começava a cobrir o mar: Carmen fallava baixo: nós, em redor, escutavamol-a, ou, calados, seguiamos o correr da maresia, olhavamos o fim da luz. Um marinheiro escossez vinha ás vezes cantar as arias das suas montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago.

Ao terceiro dia de viagem, Carmen, subitamente, teve um grande accesso de febre e quiz confessar-se. O medico disse-nos que ella não chegaria a ver as montanhas da Hispanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor redactor, que intensidade têem, na vasta extensão das aguas, as dôres humanas! Junta-se-lhes o sentimento da immensidade, e não sei que terrivel instincto do irreparavel.

A confissão de Carmen foi longa. Quando terminou quiz fallar-me.

--Adeus! disse-me ella, vou morrer.

Disse-lhe que não, quiz dar-lhe esperanças ephemeras.

--Não, não, respondeu ella, nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem para ser feliz? Chame lord Grenley.

Começou então diante de nós a fallar da sua vida. Disse-nos qual fôra a sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigencia das suas paixões, e fallou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento quasi legitimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdem. As ultimas palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rozario do seio.

--Veiu de Jerusalem, disse-me, dê-lh'o a _ella_.

Eu tinha os olhos humedecidos, Carmen, entretanto, empallidecia terrivelmente.

--Levem-me para cima, quero vêr o mar, quero vêr a luz.

Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Collocámos Carmen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá tinha ficado a sua vida. Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas.

--Que terra é aquella? perguntou mostrando com a mão tremula, uma linha escura no horisonte.

--A Africa, respondeu lord Grenley.

Ella ficou olhando vagamente:

--Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era feliz! Estava um dia lindo... Era em maio...

Calou-se. E voltando-se para mim:

--Faz agora mezes que passámos n'esta altura, lembra-se? E aquelle _punch_ a bordo do _Ceylão_? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então... O que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais!

E como fallando comsigo mesma:

--Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio d'este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse encontrado, a elle... Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos simples sempre. As loucuras vieram depois... O marinheiro que canta as arias escocezas, onde está? Chamem-n'o. Não, não o chamem que me vae fazer chorar.

Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol.

--Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me _és bonita, amo-te!_ E agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E _elle_? lembrar-se-ha de mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está aqui, que morro e que elle se não lembra de mim!

E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro.

--Rytmel é uma alma nobre. Estima-a, creia...

--Mas esquece-me! dizia ella suspirando e limpando os olhos. De resto, de mim ninguem se lembra. Eu não sou uma mulher de quem se seja enfermeiro. «Estás boa? estás alegre? amo-te». «Estás a morrer? Vae-te fazer enterrar para outro sitio!» É bem triste este mundo!

Lord Grenley, com os olhos rasos d'agua, mordia convulsamente o seu cachimbo.

--Guarde bem os meus cabellos, sim? dizia-me ella. Diziam que eram bonitos. Se eu por acaso não morresse, haviamos de ir todos a Sevilha. Que lindo que é Sevilha. Á tarde, nas _Delicias_, todo o mundo traz um ramo de flores.

De repente abriu demasiadamente os olhos como deante d'uma cousa pavorosa; levou as mãos á face, gritou:

--Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se cáio no inferno, meu Deus!

--O inferno é uma visão, minha pobre senhora! dizia o capellão. Os castigos de Deus não são feitos com o fogo.

--Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim, sim?

Alguns marinheiros tinham-se approximado. O capellão ajoelhou: todos tiraram os barretes, resavam baixo. Lord Grenley ficara de pé, descoberto, immovel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no ceu. O vento começava a assobiar.

--Adeus, disse-me ella. Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por fim... Um pouco estroina, talvez... Lord Grenley, obrigada. Que tristeza, ter morrido alguem no seu _yacht_!... Que é aquillo, além, ao longe? É a terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! ah! meu amor, ouve-me, onde estás tu?

Duas grandes, tristes lagrimas, correram-lhe na face: teve ainda força para as enchugar. Depois sorrindo:

--Olhem, não pensem em mim com tristeza. Sómente ás vezes, quando estiverem juntos, e elle estiver tambem, lembrem-se d'esta pobre rapariga que para aqui morreu no mar... E digam: pobre Carmen! ahi está uma que sabia amar devéras!

E dizendo isto, estremeceu, fallou desvairadamente em Malta, em Sevilha, em Rytmel, e, dando um gemido profundo, morreu.

O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lord Grenley curvou-se, beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava.

Então um velho marinheiro approximou-se, e sobre aquelle corpo, que fôra Carmen, estendeu a bandeira ingleza.

XIV

Imagine, senhor redactor, em que lamentavel estado de espirito nós ficámos. Lord Grenley encerrou-se no seu camarote, eu e o capellão ficámos velando junto do cadaver. A tarde descia. Uma nevoa extensa cobria o mar. O rugido do vento era lugubre. Todos estavam profundamente apiedados. A velhos marinheiros, que tinham naufragado no mar da India e dobrado o Cabo, eu vi saltarem as lagrimas...

--Pobre creança! diziam elles.

Para aquellas rudes naturezas simples, essa mulher nova, vestida de branco, pallidamente linda, era a _miss_, a virgem, a creança! Um arranjou-lhe uma corôa d'algas seccas, e foi piedosamente pôr-lh'a sobre o peito. Era o ramo de flôres do mar.

Eu pensei algum tempo em conduzir o corpo de Carmen até Hispanha, mas o piloto observou-me que teriamos ainda 4 ou 5 dias de viagem, e o corpo não podia esperar na sua pureza durante esta longa demora. Por isso resolvemos deital-o ao mar, quando viesse a noite. Assim, ficámos o capellão e eu, durante a tarde, junto do cadaver, lembrando as suas bellezas e as suas desgraças.

A noite caiu; cobriu as aguas. O capellão desceu. Fiquei só. Havia sobre o cadaver, pendente d'uma corda, uma lampada. Descobri-lhe o rosto, afaguei-lhe os cabellos. A sua belleza tinha-se fixado n'uma immobilidade angelica, como se a morte lhe tivesse restituido a virgindade. A curva adoravel do seu seio apparecia em relevo na bandeira que a cobria: nunca tanta força tinha produzido tanta graça! Olhei-a durante muito tempo, enlevado na sua contemplação. As lagrimas cahiam-lhe dos olhos.

--Pobre creatura! dizia eu na solidão dos meus pensamentos, pobre creatura! vaes para a mais profunda das covas, para a sepultura errante das aguas. Uma febre d'amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te agitará na morte! Condiz o tumulo com a existencia! Como o mar tu foste bella, orgulhosa e ruidosa. Como o mar tu tiveste as tuas tormentas, as tuas calmarias occultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua elevação religiosa, a tua espuma immunda. Como sobre o mar, sobre o teu cerebro correram as doces idéas geniaes e puras como vélas de pescadores: as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; as brutaes exigencias do temperamento, estupidas e victoriosas como _monitores_ armados. Despedaçaste-te de encontro á fria reserva d'um amor que se extingue, como elle se esmigalha contra a escura insensibilidade das rochas. Como elle tem o vento que é o seu tyranno, tu tiveste a paixão. Vae, pobrezinha, repousar em paz, no fundo das algas verde-negras! Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, córou, quiz, venceu? Quantas lagrimas causaste! Quantas loucas palpitações! Quantos desejos para ti voaram como bandos de pombas! Quantas vozes perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste succumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duas balas aos pés e atira com elle ao mar! E aqui jaz o ruido do vento, e aqui jaz a espuma da onda!

De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, á vontade, aos nervos, ao pensamento, que trouxeste do seio da materia? Que idéa deixaste, que memoria, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo bello, desejado e photographado? Fizeste parte, durante a vida, d'aquellas insensiveis bellezas naturaes, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camelia, ou como a penna d'um pavão. Foste um adorno, não foste um caracter. Nunca tiveste um logar definido na vida, como não terás um tumulo certo na morte! Adeus pois para sempre, oh doce ephemera! o teu destino é a dispersão!

Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? onde estão os que tu amaste? Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de xadrez, sobre o convez d'um navio, só, sempre no meio de homens, como na vida! Não ha uma flôr aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que se te envolva a face morta. Morres entre cordagens, no meio de rudes marinheiros, que veem agora da sua ração d'aguardente. Nem um padre catholico tens que te falle dos anjos, doces camaradas da tua mocidade. Nem um parente, sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se cantará nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te arremessarão ao mar!

Pois bem, minha pobre amiga! que importa? Estás na logica do teu destino, que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniencias humanas, morres em plena liberdade da natureza.

Não verás o teu leito cercado de parentes avidos, de criados indifferentes, de padres que te dêem os santos oleos bocejando, n'um quarto escuro e abafado, entre o cheiro dos remedios: morres diante do ceu, aos emballos do mar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros da India, que te choram, sob o sublime ceu, na plena liberdade dos elementos!

Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça antigas corôas funebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu penteador branco, como para uma alegria nupcial!

Não te pregarão n'um caixão estreito, nem te apertarão como um fardo; terás o contacto das cousas vivas; as lagrimas do mar correrão sobre os teus cabellos; poderás toucar-te d'algas; os raios do sol poderão ir procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e a tampa do teu esquife será o infinito azul.

Não sentirás em volta de ti no teu enterro cantos em mau latim, o som das campainhas, a voz aguda dos meninos do côro, os commentarios estupidos da multidão, as grosseiras enchadadas do coveiro. Serás lançada á tua cova do mar no meio de um silencio militar, levando por mortalha a bandeira ingleza, ao cantochão infinito dos ventos e das aguas.

Não ficarás para sempre apertada em cinco palmos de terra, sentindo a bôca das raizes pastar o teu seio e a multidão dos vermes entrar no teu corpo como n'uma cidadella vencida. Não! a tua morte será uma perpetua viagem: viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os thesouros mysteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar, amarás o corpo encantado d'algum louro principe, outr'ora pirata normando! Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da agua!

Sobre o teu tumulo não virão sentar-se os burguezes, benzer-se os sachristães, cacarejar as gallinhas; sobre a tua azul sepultura errará o vento, melancolico velho que visita os seus mortos.

Não terás um epitaphio metrificado por um poeta elegiaco, e approvado pela camara municipal; serão os reflexos ineffaveis das estrellas que se encruzarão para formar sobre a tua sepultura as lettras do teu nome...

Um marinheiro bateu-me no hombro.

--São 11 horas, disse elle.

Ergui-me em sobresalto, e pensando nas vãs chimeras que se tinham estado formando no meu cerebro n'aquelle triste scismar, disse commigo:

--Pobre de mim! Tinham-me esquecido os tubarões.

Eram 11 da noite. Não havia estrellas. Todos estavam reunidos na tolda. Tinham-se posto lanternas nas cordagens, e accendido archotes.

Dois marinheiros tomaram o cadaver nos braços. O padre abençoou-o. Ligou-se-lhe ao corpo com uma corda a bandeira ingleza. Os grumetes trouxeram duas balas. Uma foi amarrada aos pés, outra ao pescoço. As botinhas d'ella, de seda preta, appareciam fóra da orla do vestido e da bandeira que a envolvia. As luzes dos archotes faziam tremer sobre o mar vagas claridades. No silencio sentia-se o estalar da rezina.

O sino de bordo começou a tocar. Os marinheiros elevaram o corpo á altura proxima da amurada. Então ergueu-se um canto grave, melancolico, de uma infinita tristeza. O padre resava com as mãos impostas sobre o cadaver. E affastando-se, disse:

--_In eternum sit!_

Todos responderam:

--_Amen!_

O vento gemia. Lord Grenley adiantou-se e disse em voz alta:

--N'este dia, a bordo do _Romantic_, navio inglez, morreu Carmen Puebla, de nação hispanhola, e para eterna protecção do seu corpo, como sendo sepultada em territorio britannico, foi amortalhada na bandeira ingleza. _In pace_.

--_Amen!_ responderam os marinheiros.

--Em nome do Padre, disse o capellão, do Filho e do Espirito, santa seja a sepultura a que ella é deitada, e que fique como em terra sagrada n'estas aguas do mar!

--_Amen!_ murmuraram os marinheiros.

--Ao mar! disse lord Grenley com voz forte.

Os dois marinheiros suspenderam o cadaver sobre o mar; todos se approximaram, fazendo circulo com os archotes; o cadaver, arremessado, mergulhou com um som lugubre, desappareceu, e a espuma das vagas correu-lhe por cima.

Os archotes foram apagados n'um triste silencio. O navio affastava-se. Eu, encostado á amurada, tinha os olhos fitos no ponto vago onde o corpo desapparecera. Ella alli ficava morta. Encheu-me o peito uma longa saudade. Lembrava-me d'ella, dançando no convez do _Ceylão_, rindo á mesa de _Clarence-Hotel_. Tudo tinha acabado. Nunca mais! nunca mais! Alli ficava com uma bala aos pés!

O vento refrescou.

--Vento d'Eeste! disse o marinheiro de quarto.

--Vem de Malta... pensei eu.

E as minhas ultimas lagrimas cairam sobre o mar...

XV

Cheguei ao fim das minhas confidencias.

Quando desembarquei em Lisboa a condessa tinha ido para Cintra. Vi-a, ao fim d'esse verão, em Cascaes. Ella mostrava-se alegre, o que era talvez uma maneira de estar triste! Cascaes estava imbecilmente jovial: _batia-se o fado!_ No inverno seguinte a condessa encontrou-se, em Paris e em Londres, com Rytmel. Voltou d'essa viagem mais triste e mais pallida. Lentamente, pareceu-me que a confiança do seu coração se affastava de mim. Apartei-me, n'uma reserva discreta. Nunca mais nos nossos dialogos, todos exteriores e ephemeros, se alludiu á viagem de Malta.

Eu, no entanto, continuava recebendo de Rytmel as cartas mais expansivas e mais intimas. A nossa amisade, que a exaltação e o acaso das paixões formara, affirmava-se agora n'uma communhão serena de sentimentos e de idéas. N'uma d'essas cartas Rytinel fallava-me de miss Shorn, uma rapariga irlandeza...

«É uma neta dos bardos, uma sombra ossianica, a alma da verde Erin!» dizia-me elle.

No começo d'esta primavera recebi uma carta de Rytmel que continha estas palavras:

«Parto para ahi: um quarto livre e solitario em tua casa; bons charutos; uma casa affastada e livre n'um bairro pobre; um _coupé_ escuro com bons _stores_; reserva e amisade.--_Frater, Rytmel_.»

Executei escrupulosamente as suas determinações.

Ha sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton. Pareceu-me mais triste, mais concentrado.

Havia certamente um segredo, uma preoccupação, um cuidado qualquer, que habitava no seu peito. Esperei que elle se abrisse expansivamente commigo n'alguma das longas horas intimas, em que, no jardim de minha casa, fallavamos na essencia dos sentimentos. Nunca dos labios d'elle saiu uma confidencia: apenas duas ou tres vezes o nome de miss Shorn, que segundo elle me disse, era uma relação recente de sua irmã, appareceu vagamente no indefinido da conversação.

A sua vida em minha casa, era de um extremo recolhimento.

Parecia mais um refugiado politico do que um amante amado. Não tinha relações nem convivencias. Ás vezes de manhã saía n'um _coupé_ cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava á porta.

De tarde, ás oito horas, saía tambem, e só o via no outro dia ao almoço, em que elle apparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe vinham de Londres e de Paris. Notei por esse tempo umas certas tendencias mysticas no seu espirito, de ordinario tão positivo e tão rectilineo. Surprehendi-o mesmo uma vez lendo a _Imitação_.

N'um caracter logico e frio como o de Rytmel, aquelle estado de espirito era de certo o symptoma de uma grave perturbação do coração.

Fallava ás vezes em Carmen, sempre com saudade. Gostava de conversar das cousas de religião e das legendas do ceu. Fallava na _Trapa_, no socego immortal dos claustros, e nas chimeras da vida. Eu extranhava-o.

Desde que elle viera para Lisboa eu não voltara a casa da condessa, por um certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. N'esse tempo estava ella absolutamente livre. O conde achava-se em Bruxellas, onde Mademoiselle Rise o tinha captivo dos nervosos e ageis bicos dos seus pés, que então escreviam pequeninos poemas no tablado do _Theâtre du Prince Royal_.

Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia:

«Meu primo: Se um gelado tomado n'um terraço com uma velha amiga não sobreexcita excessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em... (era uma quinta ao pé de Lisboa que ella habitava algumas vezes no verão). Traga o seu amigo Rytmel.»

Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodavamos na estrada de... n'um _coupé_ com os _stores_ corridos.

A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta, apanhámos flôres, e voltaram aquellas boas horas intimas d'outr'ora, cheias de abandono e de espirito. A condessa estava radiante.

Ás onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admiravel luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da agua, de largas folhas, e de nenufares, e onde poderia navegar um escaler. A agua escorre alli com um murmurio doce. A hora era adoravel. As redondas massas de verdura do jardim, os arvoredos, appareciam como grandes sombras pesadas e cheias de mysterio. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se n'um vapor docemente luminoso e pallido. Havia um silencio suspenso. As cousas pareciam contemplar e sonhar.

Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e tres pequeninas chavenas de Sévres, uma das quaes, de um gosto original e feliz, era a da condessa. Tinhamos tomado chá, e eu notava a excentrica fórma, o delicado desenho, a pura perfeição d'aquella maravilhosa e pequena chavena, que a condessa chamava a _sua taça_.

--O rei Arthur só podia beber pelo seu copo de estanho... disse Rytmel, sorrindo.

--E eu só posso tomar chá por esta taça, disse a condessa. Não sei porque, representa para mim o socego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por ella parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flôr que eu queira conservar ponho-a dentro d'essa chavena, e a flôr não murcha. Demais o chá bebido por ella tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! beba!

Toda aquella glorificação da chavena tinha tido por fim o poder Rytmel, na minha presença, sem isso ser menos discreto, beber pela chavena da condessa,--encanto supersticioso e romantico, que pertence de grande antiguidade á tradição do amor!

Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chavena dourada. Eu no entanto olhava a condessa.

Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decotado sobre o seio. E o luar dava-lhe aquelle limbo poetico que todas as claridades mysteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão ás figuras louras.

Havia um piano no terraço; a condessa sentou-se, e sob os seus dedos o teclado de marfim, chorou um momento. O silencio, o infinito da luz, a attitude contemplativa das cousas, o murmuroso chorar da agua nas bacias de marmore, tudo nos tinha insensivelmente lançado n'um estado de suave e vago romantismo...

De repente a condessa elevou a voz e cantou. Era a ballada do _Rei de Thule_.

Alguem tinha traduzido aquella ballada em rimas populares. E era assim que a condessa gostava de a dizer, em logar d'usar as palavras italianas com a sua banalidade de _libretto_.

Houve outr'ora um rei de Thule A quem, em doce legado, Deixou a amante ao morrer Um copo d'ouro lavrado.

Eu ficara junto do piano, fumando. Rytmel, de pé, encostado á balaustrada, enlevado no penetrante encanto d'aquella canção, olhava a agua do tanque, onde tremia a claridade da lua, conservando a taça na mão.

Os dedos da condessa volteavam no teclado de marfim; e a sua voz continuava, triste como a propria ballada:

Sempre o rei achava n'elle Um sabor da antiga magoa, E se por elle bebia Tinha os olhos rasos d'agua.

--Não cante mais, disse Rytmel de repente, voltando-se.

Á luz da lua eu vi-lhe os olhos humidos como os do rei da canção, e na sua mão tremia a pequena chavena dourada.

Ella voltou para Rytmel um longo olhar triste, e a sua voz proseguiu, vibrando mais saudosa no silencio:

N'alta esplanada normanda Batida da fria onda Reune os seus irmãos d'armas A uma tavola-redonda...

Parou com as mãos esquecidas sobre o teclado:

--Foi talvez como n'uma noite d'estas, disse ella. Estamos em plena legenda. O terraço batido da agua, a lua, os velhos amigos reunidos, a lembrança da pobre amante, que se apaga na memoria d'elle, o presentimento da morte... Que linda noite para o rei atirar a sua taça ao mar!

E cantou os derradeiros versos da ballada:

Foi-se com tremulos passos Na amurada debruçar... E com as suas mãos antigas Atirou a taça ao mar!

Junto ao seu corpo real Estão os pagens a velar E a taça vae viajando Por sobre as aguas do mar...

De repente Rytmel deu um pequeno grito: descuido, movimento, ou irreprimivel impulso d'um coração que se revela, Rytmel deixara cahir a pequena chavena ao tanque, entre as folhas dos nenufares.

A condessa ergueu-se, extremamente pallida, apertando com ambas as mãos o coração: e com os olhos marejados de lagrimas, disse para Rytmel:

--O rei de Thule ao menos esperou que ella morresse!

Elle desculpava-se banalmente, como se todo o mal fosse perder-se aquella fragil preciosidade de Sévres. A condessa deu-me o braço um pouco tremula, e penetrámos na sala.

D'ahi a dias foi a catastrophe. Outros que a contem. Eu deponho aqui a minha penna, com a consciencia de que ella foi sempre tão digna, quanto a minha intenção foi sincera.

+AS REVELAÇÕES DE A. M. C.+

I

Senhor Redactor.--Dirigindo-lhe estas linhas, submetto-me á sentença de um tribunal de honra, constituido para julgar a questão levantada perante o publico pelas cartas do doutor *** estampadas n'essa folha. Obriguei-me a referir quanto se passou por mim como actor d'esse doloroso drama, e venho desempenhar-me d'este encargo. Possam estas confidencias, escriptas com o mais consciencioso escrupulo, conter a lição que existe sempre no fundo de uma verdade! A existencia intima de cada um de nós é uma parte integrante da grande historia do nosso tempo e da humanidade. Não ha coração que, desvendado nos seus actos, não offereça uma referenda ou uma contestação aos principios que regem o mundo moral. Quando o romance, que é hoje uma fórma scientifica apenas balbuciante, attingir o desenvolvimento que o espera como expressão da verdade, os Balzacs e os Dickens reconstituirão sobre uma só paixão um caracter completo e com elle toda a psychologia de uma época, assim como os Cuviers reconstituem ja hoje um animal desconhecido por meio d'um unico dos seus ossos.

* * * * *

Sabem que sou natural de Vizeu. Criei-me n'uma aldeia encravada entre dois montes da Beira; açoitado de quando em quando por meu pae, quando lhe esgalhava alguma arvore mimosa do quinteiro; abençoado por minha mãe como a esperança dos seus velhos annos; coberto de prophecias de gloria, como o pequeno Marcello da freguezia, pelo reitor, o qual algumas vezes depois de lhe ajudar á missa, aos dez annos de idade, me argumentava na sachristia as declinações latinas. Era escutado este prodigio por um auditorio composto do sachristão e do thesoureiro, que com os chapeus debaixo do braço, coçavam na cabeça e olhavam para mim arregalados e attonitos. A um recanto, minha mãe sorria, com os olhos banhados de ternura, do fundo da caverna formada em redor do seu rosto pela côca de uma ampla e poderosa mantilha de panno preto.

Fiz depois os estudos preparatorios no lyceu da cidade, e vim finalmente matricular-me em Lisboa na escola de medicina.

Vivo pobre, humilde e obscuramente, tenho a minha existencia adstricta a uma pequena mezada, á convivencia de alguns companheiros de estudo e ao trato de duas senhoras velhas e pobres, irmãs de um capitão reformado, antigo aboletado de meu pae, em cuja casa de hospedes eu tenho por modico preço a minha moradia na capital.

A unica luz que atravessava a sombra da minha vida de desterro, de desconsolo e de trabalho, era a lembrança de Therezinha...

Therezinha! a doce, a meiga, a querida companheira, á qual eu consagro principalmente estas paginas, que são o capitulo unico da minha vida que ella não conhece, a confissão sincera, a historia completa do unico erro de que posso accusar-me perante a sua innocencia, a sua bondade, e o seu amor!

Therezinha! adorada flôr escondida entre as estevas dos nossos montes, que ninguem conhece, que ninguem viu, de quem ninguem se occupa, e que no emtanto inundas ineffavelmente a minha mocidade e a minha vida com o sagrado perfume de um amor casto, puro, imperturbavel e calmo como a luz das estrellas.

Se tu as entenderás, minha innocente amiga, estas palavras!

Se me perdoarás, tu, a enfermidade passageira e mysteriosa, cuja historia eu ponho confiadamente nas tuas mãos, pedindo-te, não o balsamo da cura para uma chaga que está fechada para sempre, mas o sorriso da benevolencia e do perdão para a vaga e sobresaltada melancolia do convalescente ajoelhado aos teus pés!

Como quer que tenha de ser, minha noiva, eu entendo cumprir perante a minha consciencia um dever sagrado contando-te, sem omissões e sem reticencias, tudo, absolutamente tudo, quanto se passou por mim. A verdade é que te amo! que te amo, e que te amarei! Outra imagem, incoercivel, vaporosa, vaga, perpassou por mim, mas esvaiu-se como a sombra de um sonho doentio, varada sempre pelo teu olhar candido que atravez d'ella se fixava e se embebia constantemente no meu.

Uma noite, ha dois mezes, recolhendo-me por volta das nove horas a minha casa, que fica situada em um dos bairros excentricos de Lisboa, encontrei parada uma carruagem de praça, cujo cocheiro altercava grosseiramente com uma senhora, que estava em pé junto do trem, vestida de preto e coberta com um grande veu de renda. Esta senhora trocou algumas palavras com outra mais idosa que a acompanhava e disse ao cocheiro com uma voz singularmente fina, tremula, delicada, musical, como nenhuma até então ouvida por mim:

--Onde quer que lhe mande pagar?... Não trago mais dinheiro.

--Importa-me pouco isso, respondeu o cocheiro. Quem não tem dinheiro anda a pé. Já lhe disse á senhora quanto é que me deve pela tabella. Se não paga o resto, chamo um policia. Se não traz dinheiro, dê-me um penhor.

Ella então bateu impacientemente com o pé no chão, ergueu a parte do veu que lhe cobria o rosto, e principiou a descalçar convulsamente uma luva. Suppuz que iria tirar um annel. O cocheiro apressou-se a passar as guias pela grade da almofada e apeou. Tinha-me no emtanto approximado, e no momento em que elle dava o primeiro passo, impellido por uma forte commoção nervosa, estendi-lhe com as costas da mão uma bofetada que o fez cambalear e cair de encontro á parelha. E dando-lhe em seguida uma libra, que trazia no bolso:

--Ahi tem pela bofetada; contente-se com o que lhe deram pela corrida.

Diria que alguem por traz de mim suggerira estas palavras romanticas, a tal ponto ainda hoje pasmo de as ter eu mesmo inventado como solução d'effeito oratorio, para similhante contingencia!

O cocheiro levantou a moeda, examinou-a á luz da lanterna, subiu outra vez á almofada, e partiu dizendo-me:

--Boa noite, meu amo!

Eu, atarantado, confuso, tirei machinalmente o chapeu, e titubiei algumas palavras vagas, não sabendo como despedir-me da pessoa que tinha ao meu lado.

Era a primeira vez que me achava perto de uma d'essas formosas senhoras da sociedade, tenra, fina, delicada, como nunca vi ninguem! Tinha uma carnação lactea e aveludada, como a petala de uma camelia,--prodigio de mimo só comparavel ao de uma outra mulher que não conheço, e que uma noite passou por mim no salão de S. Carlos, encostada no braço de um homem e envolta em uma grande capa branca de listas côr de rosa.

Aquelles que as conhecem, que as vêem e lhes fallam todos os dias, é possivel que se não impressionem com o aspecto d'estas creaturas transcendentes. Para quem as encontra de perto pela primeira vez em sua vida não ha cousa no mundo que mais perturbe. Homens habituados a arrostar com as mais violentas commoções, a olharem denodadamente para o perigo, para a desgraça ou para a gloria, tremem diante d'esta simples coisa: o primeiro contacto de uma mulher elegante! D'ahi vem o velho prestigio magnetico das rainhas sobre os pagens, das castellãs sobre os menestreis. É uma sensação unica. O ser humano bestificado converte-se por momentos n'um vegetal que vê.

Eu ficara immovel e mudo.

Ella correu-me de cima a baixo com um olhar rapido, e dizendo-me _obrigada_ com uma commoção tremula, estendeu-me d'entre a nuvem negra das suas rendas a mão de que tinha descalçado a luva.

Entreguei a minha grossa mão a essa mão delicada, magnetica, convulsa e fria, e senti percorrer-me todos os nervos um estremecimento electrico despedido do _shake-hands_ que ella me deu de um só movimento sacudido, fazendo tinir os elos de uma grossa cadeia que lhe servia de bracelete.

Obrigado a dizer alguma coisa, soltei instinctivamente as palavras monstruosas de uma formula que se usa em Vizeu, mas que estou bem certo nunca até esse dia haviam sido ouvidas por tal creatura, e que certamente lhe produziram o effeito do grito stridulo de um animal selvagem, escutado pela primeira vez entre mattos desconhecidos.

Vergonha eterna para mim! essas palavras, que eu desgraçadamente conservara no meu ouvido de provinciano e que a minha bocca deixou bestialmente cair, foram estas:

--Para o que eu prestar estou sempre ás ordens.

E dizendo isto, tendo-o ouvido com horror a mim mesmo, voltei rapidamente costas, e affastei-me a passos largos. Ia vexado, envergonhado, corrido, como se houvesse proferido uma obscenidade sacrilega. Dava-me vontade de me metter pelas paredes ou de me sumir pela terra dentro! Não me atrevia a olhar para traz, mas parecia-me que ia envolto em gargalhadas phantasticas, que não ouvia. Figurava-se-me que tudo se ria de mim, os candeeiros, os cães noctivagos, as pedras da rua, os numeros das portas, os letreiros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus barris, e os caixeiros que pesavam arroz sobre o balcão ao fundo das tendas.

Entrei precipitadamente em casa, subi as escadas, fechei-me por dentro e puz-me a passear ás escuras no meu quarto.

Nas trevas appareciam-me illuminadas por um clarão satanico essas duas mãos que pela primeira vez acabavam de se apertar na rua--a minha e a d'ella--uma trigueira, aspera e quente, a outra branca, nervosa e gelada. Depois entravam a reconstruir-se á minha vista os vultos completos das pessoas.

Ella, de uma pallidez eburnea, com o perfil melancolico de uma madona a que tivessem levado dos braços o seu bambino, movendo-se mollemente entre rendas e setim com uma ondulação de sereia.

Eu, inteiriçado e embasbacado diante d'ella, não sabendo como segurar o chapeu e a bengala, na mais flagrante e minuciosa ostentação dos meus defeitos e da minha pobreza incaracterisada e burgueza. Ao lado de quanto n'ella havia ideal, transcendente, ethereo, ia eu vendo, enormemente avultado e saliente, quanto o meu aspecto offerecia mais baixo e mais vil: o casaco comprado ao barato n'um algibebe; as botas de duas solas torpemente desformadas e orladas de lama; as calças com umas joelheiras que me dão ás pernas na posição vertical o desenho das de um homem que se está sentando; os punhos da camisa amarrotados; e a ponta do dedo maximo da mão direita sujo de tinta de escrever!

Eramos verdadeiramente os antipodas um do outro, postos na mesma latitude pela estupidez do acaso, e separados logo para sempre por aquellas palavras terriveis que me zuniam nos ouvidos como os prenuncios de uma congestão:

«Para o que eu prestar estou sempre ás ordens!»

Não sei que extranha attracção amarrava o meu espirito á lembrança da mulher que eu acabava de ver! Não era indefinida sympathia, não era occulto desejo, não era um vago amor. Interrogava-me detidamente, e o unico movimento que encontrava no meu coração--sinceramente o confesso--era o do odio. Odio áquella mulher, odio inexplicavel, monstruoso, como aquelle que imagino ser o de um engeitado á sociedade em que nasceu!

A distincção aristocratica, a elegancia da raça d'aquella gentil creatura aviltava-me, enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de rebellião demagogica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma arma prohibida, no fundo da sua alma.

Aquella mulher tinha certamente, um espirito menos culto do que o meu, uma rasão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para compensar estas depressões assistia-lhe uma superiodade repugnante, inadmissivel: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição delicada, um leito de pennas, a infancia resguardada na sombra, entre estofos, sobre tapetes, ao som de um piano,--isto basta, para que fique ridiculo, miseravel, desprezivel ao pé d'ella um homem que se creou ao clarão do dia, á luz do sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e por melodias o roncar das carvalheiras e o gemer dos pinhaes!

E entre mim e ella será isto perpetuamente uma barreira.

Ella ficará sempre bella, dominativa, seductora por natureza, instinctivamente captivante, querida, amimada, estremecida, dentro da sua zona de aromas, de veludos, de cristaes e de luzes!

Eu, entre a minha estante de pinho adornada com um boneco de gesso e a minha cama de ferro coberta de chita, ficarei sempre tenebroso e inutil,--desgraçado quando não quiser tornar-me tão ridiculo, e irrisorio quando tiver a vaidade de não querer ser desgraçado!...

Accendi as duas torcidas do meu candeeiro de latão e tentei estudar. Impossivel. As letras de um livro que tinha aberto diante de mim percorri-as com a vista pelo espaço de tres ou quatro paginas, machinalmente, sem comprehender o sentido de uma só palavra. Deixei o livro e fiquei por algum tempo inerte, estupido, neutro, com a vista fixa nas orbitas ôcas de uma caveira que tinha sobre a mesa, e que se ria para mim com o escancellado sarcasmo que trazem da cova os esqueletos desenterrados. Aborrecia-me a vida. Apaguei a luz, despi-me e deitei-me.

Tinham-me feito a cama n'esse dia com dois d'esses lençoes de folhos engommados, com que minha mãe enriquecera liberalmente o meu bahú de estudante. Estes lençoes tinham a aspereza do linho novo e o cheiro caracteristico do bragal da provincia.

--Pobre mãe, coitada! pensava eu, deitado e embebido n'essa longinqua exhalação olphactica da casa paterna. Coitada de ti, que na simplicidade dos teus juizos julgaste dotar-me com um luxo que faria commoção em Lisboa, orlando-me dois lençoes com esta enorme renda longamente trabalhada por ti mesma nos teus bilros infatigaveis! Se soubesses que este paciente lavor das tuas mãos em dois annos de applicação consecutiva, ninguem aqui o admirou, ninguem o viu, ninguem attentou n'elle, a não ser a criada, que esta manhã me perguntou, entre risadas sacrilegas, se os padres na minha terra se embrulhavam nos meus lençoes em dias de missa cantada! Que importa porém que o não apreciem os outros?... Toda esta gente é má, corrupta, perversa! Agradeço-t'o eu, minha obscura, minha velha amiga. Nos arabescos d'esta renda, que eu estou apalpando na mão e que tu me consagraste, figura-se-me sentir o correr caprichoso e ondeado das lagrimas que choraste emquanto o vento ramalhava nas arvores, a saraiva estrepitava nas janellas, e tu desvelavas as tuas noites de inverno, resignadamente ajoelhada junto do berço em que rabujava o teu pequeno. Quando sinto no rosto o aspero contacto dos teus eriçados folhos bordados, beijo-os piedosamente, beijo-os eu, como se fosse um anjo bom que me tocasse com a ponta das suas azas purificadoras e brancas!

Mas além do cheiro do bragal, que me envolvia como um afago mandado de longe, havia na minha cama outro perfume que contrastava singularmente com este. Era o que aromatisava a pelle d'aquella mulher desconhecida, e que me ficara na mão que ella apertou. Respirei-o com uma curiosidade irritante, que me pungia e me dilacerava. Ai de mim! collei os labios na mão aberta sobre o meu rosto, e principiei a sorver esse mysterioso respiro de um paraiso ignoto e longinquo.

É monstruoso, infernal, o turbilhão das idéas que esse aroma extranho, penetrante e cálido, me revolveu na cabeça.

Sentia os fogachos, as palpitações, a hallucinação da febre.

Quando pela manhã me levantei, sem haver dormido em toda a noite, tinha o travesseiro inundado em lagrimas...

Perdôa-me, Therezinha! minha Therezinha, perdôa-me...

Não foi pensando em ti, meu puro anjo, que eu chorei tanto n'essa noite!

II

Soube d'ahi a dias que a senhora com quem me encontrára era a condessa de W. A figura d'ella tinha-me ficado moldada na memoria como o rosto de um cadaver em uma mascara de gesso. Estava no Rocio quando me disseram o seu nome, ao vêl-a passar em carruagem descoberta.

Ia reclinada para o canto de uma victoria, quasi deitada, morbida, abstrahida, indifferente, como se uma aureola invisivel a segregasse dos aspectos e dos ruidos da rua, grosseiros de mais para lhe tocarem. Tinha uma seducção hallucinante, vestida de verão, com uma simplicidade cheia de mimo e de frescura, uma graça que se adivinhava mais do que se via e que menos appetecia ver do que respirar. Levava no seio uma rosa côr de palha, e uma pequena madeixa de cabellos finos, dourados, transparentes, soltos do penteado, cahia-lhe na testa.

Cravei os olhos n'ella e tirei o meu chapeu; ella viu o meu cumprimento, olhou-me, como se eu lhe apparecesse pela primeira vez, com a mesma indifferença com que olharia para uma vidraça vasia ou para uma taboleta sem distico, e proseguiu inalteravel e immovel como a imagem preguiçosa da formosura arrebatada do seu pedestal por um cocheiro agaloado e por dois cavallos a trote.

Continuei a passear com um amigo com quem estava e cobri tanto quanto[1] pude com algumas palavras rancorosas a respeito da politica a commoção que sentia.

Momentos depois, passou na mesma direcção que tinha tomado a carruagem da condessa, um _coupé_ escuro, sem letras nem armas, com todas as cortinas cerradas. Esta circumstancia, aliás naturalissima, encheu-me de indignação e de rancor. Imaginei possivel que aquelle trem seguisse o da condessa e, não sei por que processo do coração ou do espirito, nasceu-me o desejo de arrombar essa carruagem e calcar aos pés o homem que lá estivesse dentro.

--Estás a tremer! disse-me o amigo a quem eu dera o braço.

--Não é nada... um estremecimento nervoso.

--Impallideceste, tens os beiços brancos e as orelhas encarnadas...

--Foi uma vertigem. Dá-me isto ás vezes.

--Ahi tens! é o effeito das vigilias e do abuso do tabaco nas funcções do coração.

--E debilidade resultante da fome, exclamei eu sorrindo e mal podendo conservar-me de pé. Adeus que vou jantar!

E entrei na primeira carruagem de praça que passou por nós, emquanto o meu companheiro accrescentava:

--Agora estás afogueado e vermelho como lacre: toma ferro e bromureto.

Quando cheguei a casa tinha febre, e via por fóra do casaco o bater do coração.

Não tornei mais a encontral-a senão na noite da catastrophe.

O meu romance mysterioso e absurdo acabou então, cedendo o seu logar á tragedia em que entramos juntos.

III

Foi na noite de 20 de julho passado. Eu voltava de casa de Z... com quem tinha estado até ás duas horas; ía chegar quando senti atraz de mim os passos de duas mulheres. Parei. Ellas passaram por mim, descendo do passeio em que eu estava, e caminhando apressadamente. Entrevi-as á luz de um candieiro. Uma era alta, sêcca, direita, edosa; a outra--para que hei de descrevel-a?--era ella. Um relance de olhos, e conheci-a logo.

Ia inquieta, arquejante, abafada em pranto e em soluços. Commoveu-me tanto o aspecto passageiro d'essa grande angustia, d'essa dôr suprema n'aquella formosa mulher ha poucos dias ainda tão patentemente feliz, radiosa, intemerata, que eu daria n'esse momento a minha vida inteira, para a não vêr assim dobrada na lama de uma rua escura e deserta, pelo que ha mais violento, mais voluntario, mais hostil, mais implacavelmente humano: a desgraça... Ella, a viva imagem da delicadeza e do mimo, expressão suprema da belleza, do dominio, da omnipotencia terreal, via-a de repente succumbir envolvida pela serpente cuja cabeça eu imaginava segura pelo seu pé sobre um crescente de lua!

Fiquei por um momento perplexo. Por fim os meus passos apressaram-se para ella, sahi-lhe ao encontro e disse-lhe convulsivamente:

--Senhora condessa de W..., vejo que chora. É certamente um successo extraordinario e terrivel. V. Ex.^a parece-me só e desprotegida n'este bairro; sómente em tão excepcionaes circumstancias eu poderia permittir-me a liberdade de lhe fallar. Disponha de mim, minha senhora, como se dispõe de um amigo ou de um escravo para a vida e para a morte.

Ella parecia escutar sem me comprehender, n'uma grande inquietação. Á ultima palavra que proferi:

--Para a morte!--repetiu ella n'um grito de delirio. Quem lh'o disse? Como o soube?

E apoiando-se no braço da senhora que a acompanhava, segurou-se n'ella com um movimento convulso de pavor, ergueu o rosto para mim e fitou-me, trémula, supplicante, com os olhos hallucinados e lacrimosos.

--Que quer? Diga!--accrescentou ella. Vem prender-me? aqui me tem. Leve-me.

E tendo dito isto, voltou-se successivamente para todos os lados, olhando a rua com a mais exaltada expressão da confusão, da vergonha e do medo. Era a angustia personificada pela maneira mais viva e mais lancinante. Eu sentia o coração cheio de lastima e de piedade.

--Perdão,--disse-lhe,--socegue, por quem é! Eu nada sei. Não venho prendel-a, nem venho interrogal-a. Não sou um juiz, nem um espião, nem um carrasco. É esta a terceira vez que a vejo em minha vida. A primeira foi n'esta mesma rua ha cerca de um mez, no momento em que um cocheiro lhe pedia o aluguer de um trem. A segunda vez foi de passagem no Rocio ha quinze dias. Sou um amigo seu desconhecido, obscuro, anonymo. Suppunha-a no apogeu da fortuna e da felicidade. Tive-lhe inveja e odio. Encontro-a, ao que parece, á beira de um abysmo e não acho na minha alma doente e magoada senão enternecimento e dedicação! é, então, desgraçada como os outros... coitadinha! coitadinha!

E a minha dôr era profunda e sincera, a minha compaixão illimitada.

--Não sei, tornou ella, estou tão perturbada que não o comprehendo bem; estou tão afflicta que não o reconheço bem, entrelembro-me apenas... Mas parece-me generoso e compadecido... Ah! eu não posso ter-me em pé!

Dei-lhe o braço, que ella acceitou, e ficou um momento amparada em mim e na pessoa que a acompanhava, immovel, com a cabeça reclinada para traz e a bocca aberta, bebendo ar a longos sorvos.

--Vamos! disse ella depois de uma pausa. Não posso ficar, não posso morrer aqui; tenho que escrever, preciso de chegar a casa quanto antes.

E fazendo um grande esforço continuou a caminhar apoiada como estava, com passo vacilante e vagaroso, anciada, arquejante, parando a todo o momento para receber nos pulmões o ar que lhe faltava.

Eu ia absorvido pelo aspecto de tamanha dôr. Acudia-me de longe a longe uma palavra, que não me atrevia a pronunciar, receiando que ella podesse imaginar que eu tentava perscrutar a causa do seu infortunio com uma indiscrição grosseira.

A rua em que iamos andava-se concertando e estava coberta de uma camada de seixos britados e soltos, por cima de cujos angulos percucientes e cortantes eramos obrigados a caminhar. Chegavamos á esquina da rua quando ella, voltando-se para a pessoa que a acompanhava, e que então vi ser uma criada, lhe disse:

--Betty, calça-me o sapato. Saiu-me do pé.

A criada ajoelhou-se, e exclamou:

--O setim está espedaçado! O pé deita sangue!

A condessa pareceu não ouvir, e continuou a caminhar resolutamente.

Maravilhava-me e compungia-me o valor d'alma d'aquella debil natureza, e sentia-me arrebatado a levantar do chão e a transportar nos meus braços aquelle formoso corpo tão corajosamente subjugado. Felizmente, de uma travessa proxima desembocou pouco depois um trem de praça, vasio. A condessa, que tinha visivelmente a maior pressa de chegar, entrou, com a criada que a acompanhava, na carruagem que eu mandei approximar. Fechei a portinhola e disse á condessa baixo, quasi ao ouvido, dando-lhe o meu bilhete:

--Minha senhora, quaesquer que sejam as causas, quaesquer que sejam as consequencias da extranha aventura que acaba de approximar-se de v. Ex.^a, vá na firme certeza de que ninguem no mundo saberá do encontro que acabamos de ter. Se nunca precisar de mim, continuarei como até hoje sendo na sua existencia um homem inteiramente desconhecido, o qual de ora ávante considerará as suas relações com v. ex.^a exactamente no estado em que estavam antes de a ter visto pela primeira vez.

Ella respondeu-me enternecidamente:

--Bem haja por essas palavras de bondade, que são talvez as ultimas benevolas que eu tenho de ouvir n'este mundo. Quando souber--porque tem de se saber isto, meu Deus!--o que, desde esta horrorosa noite eu fico sendo perante a justiça e perante a sociedade, diga á sua mãe, á sua irmã, á sua amante, se tem amante, que me não odeiem ellas, ao menos! que eu sou menos criminosa do que lhes hei de parecer, que lhe confessei isto, ao despedir-me de si, entre a vida e a morte. Adeus!... Não lhe dou a mão... Sou indigna da amisade das pessoas de bem. O mais que eu posso pedir, eu, é piedade... Tenha piedade de mim... Adeus!

A carruagem tinha rodado a distancia de alguns passos quando parou outra vez a um gesto da condessa; ella mesma abriu a portinhola, desceu e dirigiu-se a mim. Fui ao seu encontro.

--Quero fallar-lhe ainda, disse ella.

E depois de uma pequena pausa, em que parecia coordenar idéas dispersas, accrescentou:

--Foi talvez providencial o nosso encontro aqui, a esta hora, n'esta rua... É talvez a unica pessoa que Deus quer permittir que me proteja, que seja por mim. Tenho um parente a quem vou escrever immediatamente entregando-lhe este segredo. Receio que elle se não ache em Lisboa. Sendo assim, não sei de quem me confie. Se tiver no seu coração tanta misericordia e tanta bondade que queira valer-me, procure-me em minha casa, ámanhã, ás 11 horas.

E dando-me a sua morada em Lisboa, entrou outra vez no trem que partiu.

Singular commoção a que produziu em mim essa mulher de quem acabava de saber que tinha commetido um crime; sentia-me inclinado a ajoelhar-me aos seus pés dilacerados e adoral-a!

IV

No dia seguinte á hora assignada apresentei-me em casa da condessa.

Era um predio de um só andar, simples, branco, todo fechado. Abriu-se-me a porta da rua, appareceu-me um criado vestido de casaca azul com botões brancos, collete encarnado, calção curto. Era um homem velho, de cabellos brancos, polido e nedio como um embaixador, serio como uma estatua, penteado como um gentleman. Fallou-me em francez e conduziu-me.

As escadas eram pintadas e envernizadas de branco, luzidias como o peito engommado de uma camisa. Ao meio dos degraus corria um tapete de veludo passado em varetas de cobre reluzente. No patamar projectava-se da parede uma concha de alabastro, cheia de plantas de longas folhas, em cima das quaes gotejava a agua de uma pequena fonte. No alto da escada a mobilia era branca, as paredes forradas de verde, cobertas de molduras doiradas encerrando quadros a oleo. A luz, suave e alta, vinha atravez de vidros baços. Havia o ar sereno e o perfumado silencio de uma tranquillidade elegante e feliz. Não me parecia o palacio de um fidalgo, nem o palacete de um burguez, mas sim o ninho domestico de um poeta ou de um artista.

Levantou-se um reposteiro e entrei em uma sala forrada de coiro, circumdada de sophás e de poltronas com estofos de marroquim cravejado de aço, grandes vasos de porcelana e alguns bronzes, um dos quaes representava o busto da condessa, assignado e datado de Milão. Um dos espessos reposteiros que cobriam as portas estava corrido e deixava ver, no meio da casa proxima, que era um salão antigo, um piano de ebano volumoso e longo em cujo flanco se lia em grandes caracteres de prata o nome de Erard. Junto do piano, inclinado sobre um _fauteuil_, achava-se um violoncello defronte de uma estante de marfim. Sobre as chaminés de marmore havia alguns livros e vasos com flores. Os moveis estavam dispostos de maneira que parecia conversarem baixinho em coisas delicadas e intimas. Sentia-se que estava ali, domiciliada n'um aconchego feliz, uma existencia espirituosa e contente: percebia-se no ar e no aspecto das coisas, o vago prestigio do perfume, da harmonia, do calor, que as pessoas que ahi tivessem estado haviam derramado em volta de si, conversando, lendo, fazendo musica. Eu tinha levantado os olhos de um livro sobre a mesa do centro da sala, quando vi defronte de mim, ao fundo de um grande espelho, uma figura immovel, tectrica, espectral. Voltei-me rapidamente, e não pude reprimir um grito de pasmo e de terror. Era a condessa.

Horrivel transformação por que ella passára! Durante as poucas horas que haviam mediado entre esse momento e a ultima vez que a vira, a condessa de W... tinha envelhecido dez annos. Os olhos profundamente encovados haviam tomado uma expressão apagada e immovel; a carne tinha uma côr terrea e opaca; os musculos faciaes, contrahidos na mais violenta oppressão, davam-lhe ao rosto, transversalmente vincado por dois sulcos escuros, o aspecto de uma magreza extrema; os cabellos apanhados todos para traz, alizados e seguros n'um rolo sobre a nuca, avultavam-lhe o nariz afilado e despegavam-lhe do craneo as orelhas lividas, de uma saliencia rija e cadaverica.

Fez-me signal que a acompanhasse. Segui-a com a sensação enregelada de quem entra nos dominios da morte. Atravessámos uma sala e entrámos em um dos quartos d'ella. Apontou para um sophá e sentou-se ao meu lado, olhando para mim, impassivel.

Ficou assim por um momento na mudez de uma dôr intraduzivel, pausa terrivel em que a alma emerge de um abysmo de lagrimas e se debate violentamente antes de apparecer na voz. Tinha os labios entre-abertos como os de quem vae soltar um grito, e o queixo tremulo oscillava-lhe como o das creanças subjugadas pelo terror no instante de lhes rebentar o pranto. Por fim disse-me lentamente, com palavras pesadas, firmes, entrecortadas, como se estivesse retalhando o coração e dando-m'o em bocados!

--Peço-lhe que não me condemne pelas primeiras palavras que vae ouvir.

E, em voz baixa, depois de um breve silencio, accrescentou:

--Eu matei um homem.

--Que diz?! gritei eu estupefacto. Está louca! enlouquceu!

--Não. Não estou louca, tornou ella grave e serenamente. Não enlouqueci ainda. E admiro isto. Como têem decorrido estas horas, minuto por minuto, segundo por segundo, sem que a minha razão succumbisse n'esta desgraça infinita, sem remedio, sem termo, sem remissão! Matei um homem... Involuntariamente, sim, mas matei-o. Quero entregar-me aos tribunaes, estou prompta, estou deliberada. Estendendo os olhos ao meu futuro, não vejo senão uma esperança, senão um lenitivo unico no prazer de morrer em tormentos, que eu abençoarei como os maiores beneficios do ceu, de morrer de fome, de desprezo, de miseria, prostrada no fundo de uma enxovia, no porão de um navio, ou abandonada em uma praia da Africa, abrazada pelo sol, sobre as areias ardentes, roida pelo cancro, devorada pela sede e pela febre. Por mim uma só cousa temo: a loucura que um momento em minha vida me consinta a alegria horrivel de cuidar que ainda sou amada e feliz; ou a morte repentina que me arrebate a consolação unica que Deus concede aos grandes culpados: a liberdade de soffrer. Mas elle... O seu nome descoberto! o seu cadaver profanado! o seu segredo trahido!...

E fallando, como n'um sonho, abstractamente:

--Desventurado homem! que fatal destino o encaminhou para mim arremessando-o, de encontro ao meu coração, em que estava a sua morte? Porque não amou outras mulheres que o mereciam mais do que eu? Porque não se deixou amar por Carmen Puebla, que o adorava e que morreu por elle? Que cego, que imprudente, que desgraçado que foi!...

E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar n'um pranto convulso e desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fóra em borbotões de lagrimas e de soluços.

--Vamos,--disse-lhe eu quando esta crise abrandou,--serenemos um momento, e pensemos no que importa fazer. É então positivo que o conde está morto?

--O conde?... interrogou ella, erguendo-se de subito e enxugando os olhos. Sim, tem rasão, eu ainda lhe não disse tudo... O homem que eu matei não é meu marido.

E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar hallucinado, e accrescentou com voz demudada e profunda:

--É o meu amante.

Em seguida ficou immovel, esperando as minhas palavras na postura de um reu que vae escutar a sentença da bôca de um juiz.

A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, sêcca, inesperada, foi a da surpreza primeiro, de uma instinctiva repulsão depois. Ergui-me machinalmente e dei alguns passos na casa. A condessa permanecia na mesma posição, n'uma insensibilidade que tanto podia ser a prostração do arrependimento como o cynismo da culpa. Eu estava surprehendido e revoltado. Aquella mimosa e pura estatua, á qual eu levantára quasi um altar no meu coração, assim repentinamente baqueada n'um lamaçal, causava-me horror. Poderia supportal-a criminosa; não podia consideral-a prostituida. Medi-a com um olhar em que senti dardejar o despreso que ella n'esse momento me inspirava, e depois de um silencio repassado de magoa:

--É horrivel isso!

Ella estremeceu, cerrou desfallecidamente os olhos e amparou-se vacillante ao espaldar de uma cadeira.

--Extranha talvez a lastima e o horror que me causa? insisti eu. É natural. Tendo ouvido que em Lisboa, a sociedade vê benevolamente essas quedas como incidentes triviaes da existencia domestica. Eu porém que sou um selvagem, eu que me criei no principio de que a fidelidade é no caracter de uma mulher um dever tão sagrado como a honra no caracter de um homem, eu protesto, em nome das unicas mulheres que a minha inexperiencia me tem permittido conhecer no mundo--em nome d'aquella que me gerou e em nome d'aquella que eu amo--contra similhante interpretação da liberdade de amar. Não comprehendo que cáia em tal erro uma pessoa limpa. O adulterio é uma indecencia e uma porcaria. Matar um homem em taes circumstancias, é mais do que faltar ferozmente ao respeito devido á inviolabilidade da vida humana; é faltar egualmente ao respeito da morte... É atirar um cadaver a um cano de esgoto... É tragico--e coisa ainda mais horrivel--é sujo...

Ella escutava-me em silencio, extatica, como hypnotisada pela minha instinctiva mas cruel grosseria.

De repente, sem uma exclamação, sem um grito, sem um gesto, caiu desamparadamente no chão, fulminada, inerte, como se estivesse morta.

Quiz chamar alguem, ia a tocar no botão de uma campainha quando me occorreu a inopportunidade de qualquer intervenção n'esta scena. Fui para ella, que ficára estirada de costas sobre o tapete. Levantei-lhe a cabeça. Não lhe senti o pulso. Ergui-a em peso, tomei-a nos meus braços. A fronte d'ella pendeu sobre o meu hombro, ficando perto dos meus labios a sua face desmaiada.

Approximei-me de um sophá. Depois, por um sentimento supersticioso de respeito, colloquei-a n'uma cadeira de braços, e corri aos aposentos contiguos áquelle em que estavamos. O quarto proximo era um gabinete de vestir. Trouxe um frasco de agua de Colonia que estava n'um lavatorio. Humedeci-lhe as fontes e os pulsos, fiz-lhe respirar o alcool. Auscultei-a. O coração começava a bater. O pulso reapparecia.

Eu tinha-me ajoelhado junto da poltrona em que ella jazia e contemplava melancholicamente a sua figura exanime.

Os olhos cerrados, a bocca entre-aberta deixando vêr os dentes miudos e côr de perola, a cabeça reclinada ao espaldar, davam ao seu rosto, assim em escorso, a expressão de uma figura d'anjo, ascendendo de um tumulo. Os pés estreitos e finos, calçados em meias de seda e sapatos de setim preto sobresaíam da orla do vestido n'uma immobilidade sepulchral. Uma das mãos, atravez de cuja lividez se via a rede tenue e azul das veias, tendo no dedo annular um circulo de grossos brilhantes entremeiados de rubis, repousava-lhe no regaço, e do seu roupão de rendas pretas exhalava-se o mesmo perfume, o perfume d'ella, que ficára na minha mão a primeira vez que a vi.

Lembrei-me então da sua figura entrevista de noite, ao gaz de um candeeiro da rua, tornada a vêr depois, á luz do dia, no Rocio, passando em carruagem descoberta. E estas coisas, tão vivas na minha lembrança, faziam-me todavia, a impressão de haverem passado ha muitos annos.

Ella estava velha!

Muitos dos seus cabellos, seccos, baços, como mortos, tinham embranquecido nas fontes e no alto da cabeça.

A contracção violenta de todos os musculos da dôr transformara n'uma só noite as suas feições e desfigurára a sua physionomia. Os cantos da bocca tinham descaído ao peso das lagrimas como ao peso dos annos, e dois vincos profundos sulcavam-lhe as faces flaccidas na mesma direcção obliqua que tinham tomado os sobr'olhos, riscando-lhe a testa em rugas curvilineas e transversaes.

Que medonha, que tenebrosa, que incomparavel angustia devia ter passado em algumas horas por este desgraçado corpo para o devastar assim!

Na rua, a pequena distancia, um realejo tocava um _pot-pourri_ de varias operas, e, ao som d'esse corrido martellar idiota da musica mecanica, pareceu-me ver desfilar em louca debandada no ar, entre mim e a pobre senhora, como n'uma especie de evocação ao mesmo tempo tragica e grotesca, todos os grandes symbolos das educações sentimentaes, ladainha viva das paixões elegantes, girando sob a manivella do seu realejo, n'um redemoinho funebre, de dança dos mortos, em torno d'esse corpo desfallecido, como as visões da vida passada, figuradas nos velhos retabulos, em torno do leito das monjas moribundas.

Era como se, no decorrer d'essa musica, automatica como um andar de somnambulo, eu visse perpassar no espaço a grande ronda das tentações que na vida levaram comsigo o destino d'esta creatura: os pallidos Manriques e os febris Manfredos, trazendo sob a capa das poeticas aventuras a bravura cavalleirosa de campeador Ruy de Bivar ou do paladino Rolando, a melancolia de Hamlet, a exaltação sentimental de Werther, a revolta do Fausto, a sociedade de D. Juan, o tedio de Childe Harold; e toda a legião dramatica das bellas mulheres amadas: Francesca, Margarida, Julietta, Ophelia, Virginia e Manon.

E, em grinalda de beijos seccos, de beijos de pau, matraqueados no instrumento da rua, todas essas figuras d'amorosas legendas bailavam mysteriosamente ao som da _Traviata_, da _Lucia_, do _Balle in maschera_.

--_Amor! amor! amor!_--tal foi de certo a letra da grande aria que constantemente lhe cantaram atravez de toda a sua existencia de mulher bella, instruida e rica.

Foi n'esse mundo moral que a sua imaginação habitou e que se fez o seu pobre espirito de linda creatura ociosa e desejada.

Como poderia ella adivinhar a honesta serenidade dos destinos simples no meio de uma existencia tão complicadamente artificial como a sua?

Fóra dos interesses da elegancia, da moda, talvez da arte, que conhecia ella de serio e de grave na vida senão a religião e o amor? Tinha um missal e um marido. É pouco para o equilibrio de uma alma, principalmente desde que o missal cessa de convencer e o marido cessa d'amar.

As que tem um salão, uma carroagem, um camarote na opera, um cofre cheio de joias, um quarto cheio de vestidos, não pódem ser as singelas mulheres que passam a vida a dar de mamar aos filhos e a vender cerveja, como diz o Iago, de Shakespeare; nem podem resumir o seu destino facil em ter filhos, chorar e fiar na roca, como diz Sancho Pansa. Esta não vendia cerveja, não a ensinaram a fiar... Chorou apenas.

Quem sabe se na sua dourada existencia a amargura das lagrimas a não compensou hoje de tudo quanto ignora da amargura da vida!

E tive uma paixão sincera com um remorso profundo das palavras crueis que lhe dissera.

Que poderia eu fazer para a salvar? Não o sabia. Achava-me porém resolvido a tudo, a sacrificar-me inteiramente, para lhe valer.

Devo dizer tambem que, vendo-a, ouvindo-a, eu não suppuz nem por um momento que no homicidio de que ella se accusava podesse haver o que se chama verdadeiramente um crime, isto é, uma intenção infame ou perversa. Um criminoso, um cobarde, um assassino, nem chora assim, nem falla assim, nem se denuncia, nem se inculpa, nem se entrega por esta fórma a uma pessoa quasi extranha, quasi desconhecida. Ella tinha-m'o dito com a mesma simplicidade com que o gritaria da janella para a rua, sem a minima preoccupação de se salvar. Cheguei a pensar por um momento que não tinha deante de mim senão uma extranha nevrose, um caso de hallucinação, de delirio raciocinado. Mas o delirio não faz padecer tanto. Tenho visto muitos loucos no hospital. A expressão d'elles, ainda a mais dolorida, não apresenta nunca a profundidade d'esta. É preciso ter toda a integridade da sensibilidade e da rasão para soffrer assim. No padeccimento dos loucos ha um não sei quê, sem nome talvez na symptomatologia do soffrimento, mas a que poderiamos chammar--a isolação da alma.

Ao voltar a si, a condessa parecia um pouco mais calma. Para evitar um recrudescimento de excitação proveniente de uma longa narrativa de episodios que me pareceu discreto evitar, um pouco como estudante de medicina, principalmente como homem honrado, disse-lhe:

--Sabe mais alguem d'este caso? --Sabe-o a minha creada de quarto, a que me acompanhava hontem quando nos viu, e sabel-o-ha dentro em pouco meu primo H... a quem hoje escrevi. Meu primo porém está em Cascaes. O morto é um extrangeiro. Ninguem, a não ser meu primo, o conhece em Lisboa. Ignorava-se mesmo que elle existisse aqui. Entregal-o aos tramites policiaes, ter de revelar o seu nome, descobrir a sua naturalidade, a sua familia, eis o que principalmente eu queria evitar. Conseguido isto, entrego-me aos tribunaes, mato-me, fujo, enterro-me viva... como quiserem!

--E sabe seu primo como elle morreu?

--Não. Vai saber apenas que está morto...

--Póde contar com o silencio da sua creada, por alguns dias ao menos?

--Posso. Por toda a vida.

--Evite, se póde, que seu primo receba hoje a sua carta. E... _elle_, onde está?

--Na mesma rua em que nos encontrámos hontem, no predio n.^o...

--Para entrar na casa...

--Ha uma chave--respondeu ella.

E tendo meditado um momento:

--Hontem--prosseguiu--quando lhe disse que viesse hoje a minha casa, estava louca de desesperação e de horror. Parecia-me que tudo quanto se approximava de mim me trazia a punição, o castigo, e que tudo quanto se affastava fugia para longe com o meu ultimo amparo, com o derradeiro soccorro que eu ainda poderia ter n'este mundo!... Foi n'este delirio que lhe pedi a V..., um extranho, um desconhecido, que viesse vêr-me... Para quê?.. nem eu sabia para quê... Para contar isto a alguem, para me decidir, para ter uma solução, para apressar um desenlace qualquer, para fugir de mim mesma... Ir á policia era entregar esse infeliz á mais horrorosa das profanações. Dirigir-me a alguma das senhoras que conheço, ir bater á porta de uma familia tranquilla, que me receberia na casa de jantar ao levantar da mesa, que me apertaria as mãos, que me traria os seus filhos para eu beijar, e depois dizer-lhes de repente: Eu, que aqui estou, tinha um amante, e matei-o; venho convidal-os para esta festa de vergonha e de ignominia!... Não. Era melhor fugir para o desconhecido, entregar-me ao acaso... Em tudo isto pensei confusamente, não sei como, sem continuidade, sem nexo, aos pedaços, depois que o vi, durante esta noite medonha. Não tenho hoje mais lucidez de espirito do que tinha hontem... Não sei o que hei de fazer... Sinto apenas que estou perdida, que é preciso que alguem venha, que é preciso que me levem... O senhor parece-me um homem generoso, leal, compadecido e bom... Sabe já o que me succedeu, sabe onde _elle_ está. Disse-lhe qual era a casa, disse-lhe o numero da porta. Aqui tem a chave.

E tirando do seio uma corrente de ferro, de elos angulosos como de um cilicio, que trazia suspensa do pescoço por dentro do roupão, abriu uma argola que lhe servia de remate, soltou uma pequena chave, e entregou-m'a.

Deixou-se cahir n'um _fauteuil_, inclinou a cabeça para traz e ficou prostrada, silenciosa, no abatimento, no abandono, no entorpecimento profundo que d'ordinario se succede ás grandes crises nevralgicas.

Sem saber o que fizesse, pensando todavia que uma ideia qualquer me occorreria mais tarde como desfecho possivel para esta situação tão imprevista, tão extraordinaria, guardei a chave. Senti que me era preciso, primeiro que tudo, sahir d'alli, retomar o ar livre, achar-me a sós commigo mesmo, reflectir, raciocinar.

--Minha senhora--disse-lhe então--se amanhã, até ao meio dia, eu lhe não tiver reenviado esta chave, será signal que me prenderam, que está tudo perdido. Se não souber mais de mim, quero dizer, se lhe não fôr restituida esta chave, fuja, esconda-se, faça como quizer. Interrogada, negue tudo. Eu preferirei mil vezes acceitar a responsabilidade d'esta morte a imputar-lh'a, e, por caso algum do mundo, será jámais o seu nome proferido por mim. D'aqui até lá, para coordenar as suas ideias, para equilibrar a sua razão, para não enlouquecer, se quer um conselho de physiologista, violente-se um pouco, abra uma janella, sente-se deante de um caderno de papel e escreva o que se passou. Depois queime o que escrever. O unico meio de dominar uma situação como a sua, o unico meio de verdadeiramente a comprehender, é analysal-a. Houve um philosofo que deixou aos infelizes esta maxima: «Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema.» Vá escrever. Faça as suas memorias ou faça o seu testamento, mas escreva, e queime depois. Agora, adeus. Adeus até amanhã, ou quando não, adeus para sempre.

Ella conservava sempre a attitude extatica em que cahira na cadeira de braços. Tinha a bocca entre-aberta, o labio inferior tremia-lhe, com esse tocante gesto infantil que toma a desolação no rosto das mulheres, e grossas lagrimas silenciosas, corriam-lhe em fio pelas faces e gotejavam lentamente nas rendas do vestido. Fez um movimento para se erguer, procurando articular uma palavra d'agradecimento. Profundamente enternecido, dei um passo para traz, inclinei-me com respeito, e sahi.

V

Tendo fechado a porta do aposento em que ella ficára, ao passar na sala em que primeiro estivera, occorreu-me de repente uma ideia. Sobre uma das mezas achavam-se dois grandes albuns. Folheei-os rapidamente. Um d'elles encerrava apenas uma serie de apontamentos de viagem tomados por uma só pessoa, segundo se via da uniformidade da letra a lapis e em portuguez. Entre os apontamentos escriptos estavam collados ou pregados nas paginas alguns especimens de plantas e de flôres, e viam-se delineados varios esboços de construcções e de fragmentos architectonicos. Era um album de estudos. O outro continha uma collecção de pensamentos, de maximas, de versos, de desenhos, de aquarellas, firmados por muitos nomes diversos. Eu devorava com os olhos o conteúdo de cada lauda.

Não ousára perguntar á condessa o nome do seu amante. Comprehendia que a bocca d'ella nunca mais poderia pronuncial-o, e não obstante, eu precisava de sabel-o, de ver letra d'elle. Estava certo de que esse nome desconhecido figuraria indubitavelmente entre os que eu estava lendo, que a letra desejada se encontraria no meio dos escriptos que me estavam passando pelos olhos. Como poderia porém adivinhal-o, sem tempo, sem vagar, sem o socego de espirito necessario para meditar a intenção de cada uma das phrases que ia lendo?... Era-me forçoso abandonar este recurso, e o album que tinha nas mãos era todavia, talvez, o unico meio que me restava de poder descobrir o que desejava! Hesitei um momento, e sahi por fim, levando o livro comigo.

Apenas me achei na rua tomei um trem, que dirigi para minha casa, acantoei-me na carroagem e puz-me a ler successivamente cada um dos trechos em verso e em prosa, de que se compunha a collecção.

Sabia pela condessa que o morto era estrangeiro. Esta informação era insufficiente para que eu o distinguisse n'aquella torre de Babel. De pagina para pagina ia-me surprehendendo uma nova lingua. Havia francez, italiano, allemão, inglez, hispanhol... O nome de Ernesto Renan apparecia sobposto a duas palavras chaldaicas; Garcin de Tassy, orientalista na Sorbonne, firmava um periodo em lingua hindustanica; Abd-el-Kader tinha deixado simplesmente o seu nome arabe; a princesa Dora Distria assignava de Turim um pequeno texto albanez. Nomes portuguezes, apenas dois.

A leitura dos textos não me adiantava mais do que a simples inspecção da variedade dos nomes e da differença de linguas.

Ao chegar a casa, vi que o numero que a condessa me indicara era o de um predio de um só andar, pobre de apparencia, quasi fronteiro á casa que eu habitava, perto de uma esquina, collocado ao lado de um predio mais saliente, e tendo a porta n'um angulo reintrante que a escondia da parte principal da rua. Para o lado opposto até á esquina proxima havia uns armazens deshabitados. Defronte corria um velho muro, ao alto do qual sobresaiam as ramas seccas de um canavial. A situação topographica da casa onde estava o morto permittia-me pois entrar e sair d'ella sem ser visto.

Ali dentro haveria talvez um papel, uma carta, uma nota, que me revelasse o nome que desejava conhecer.

Dei a volta á chave e entrei. No alto da escada, junto de uma porta cerrada, estava caida uma luva e dois bocados de papel. Um era meia folha pequena, lisa, em branco. O outro era um pedaço de _enveloppe_; tinha no alto um carimbo do correio de Lisboa com a data do dia anterior; a um canto havia inutilizada uma estampilha franceza; no subscripto lia-se: _Mr. W. Rytmel_.

Este nome achava-se no album da condessa por baixo de dois versos inglezes.

A luva, que levantei do chão, era de mão de homem, e de pellica branca com cordões pretos. Por dentro tinha em letras azues a marca de um luveiro de Londres. Era evidente que tinha achado o que procurava. Rytmel era o nome do morto.

Abri em seguida a porta que tinha em frente de mim e estremeci de horror. Estendido n'um sophá estava o cadaver. A expressão do seu rosto inculcava um socego feliz. Parecia dormir. Apalpei-o; estava frio como marmore. Collocado perto d'elle estava um copo com um pouco de liquido. Era opio.

Percorri o aposento com um relance d'olhos. No forro de setim preto do chapeu, que estava caído no chão, vi bordadas em vermelho uma corôa de barão e duas grandes lettras--um W. e um R.

Não podia perder tempo. Fui para casa, sentei-me pacientemente á minha banca e abri o album defronte de mim na pagina em que estavam os versos assignados por W. Rytmel.

É de saber que tenho aquella especie de habilidade que Alexandre Dumas considera aviltante e vilipendiosa para a intelligencia: sou, como terá visto pela letra d'estas cartas, um excellente calligrapho. Copiei escrupulosamente, desenhando letra a letra, por trinta ou quarenta vezes consecutivas, os dois versos que tinha patentes. Depois principiei a construir, com letras da mesma fórma das que tinha copiado, outras palavras differentes. Finalmente, depois de muito estudo e de muitos ensaios, peguei na meia folha de papel que tinha encontrado na casa em que se dera a catastrophe, e fiz em inglez com escripta que ninguem no mundo duvidaria ser a da pessoa que escreveu no album os versos assignados pelo nome de Rytmel, uma declaração pessoal do suicidio por meio do opio. D'este modo, quer mais tarde me occorresse, quer não, o meio mais conveniente de sepultar o cadaver, as suspeitas de homicidio desappareciam.

A condessa estava salva desde que, antes de mais ninguem, eu entrasse na casa e collocasse junto do corpo o bilhete que escrevera.

Mas eu ficava sendo um _falsario_. Repeti a mim mesmo esta palavra sinistra e estremeci de horror. Era preciso achar outro meio, que eu procurava debalde. E no entanto o tempo corria. Veio a noite. Lembrei-me que o primo da condessa poderia vir de Cascaes prevenido por ella, e cheguei a sahir de casa com pregos e um martello para encravar a fechadura da porta e retardar a entrada no predio onde se achava o morto. Occorreram-me mil idéas phantasticas, cada qual mais absurda. Passeei por muito longe, a pé, meditando, inquieto, nervoso, congestionado, estafado, devorado de febre, palpando no fundo do bolso o bilhete terrivel com que poderia desviar a responsabilidade da cabeça de um criminoso, tomando todavia para mim uma parte egual no seu remorso.

Finalmente, por volta da meia noite, sem bem saber porquê, nem para quê, levado por uma attracção terrivel, atraz de uma suprema inspiração, cingi-me com o muro, abri a porta, penetrei na casa. Então me encontrei inesperadamente com o doutor e com a pessoa conhecida no decurso d'esta historia pelo nome de _mascarado alto_.

O primo da condessa, tendo chegado de Cascaes ao meio dia, acompanhado de dois amigos intimos, inquieto pelo desapparecimento de Rytmel, que era seu hospede e vivia como homiziado em casa d'elle em Lisboa, foi ao predio mysterioso de que possuia uma chave e que sabia ser frequentado regularmente pelo inglez, e encontrou ahi o cadaver. Conhecendo as relações de Rytmel com a condessa, ponderando quanto havia de delicado na necessidade de manter o maior sigillo em volta d'aquella catastrophe, e julgando por outro lado indispensavel que o testemunho de um medico constatasse a morte, que poderia ser apenas apparente, planeou e realisou a emboscada em que surprehendeu o doutor ***, que elle sabia casualmente que passaria n'essa tarde pela estrada de Cintra.

Sabem o que se passou n'essa noite.

VI

No dia seguinte ás onze horas da manhã, todos nós, os que haviamos ficado n'essa casa fatal, nos achavamos reunidos, de rosto descoberto, em torno do cadaver.

O doutor havia sido conduzido ao ponto da estrada de Cintra, em que fôra tomado na vespera.

F..., encarcerado durante a noite em um quarto interior da casa, havia communicado com um allemão que habitava o predio contiguo, e passára-lhe de manhã por um buraco feito no tabique, a carta ao doutor, publicada mais tarde no _Diario de Noticias_. Em seguida arrombou a porta do quarto que lhe servia de carcere, e depois de uma altercação violenta, arrancou a mascara ao primo da viscondessa. Os outros dois mascarados, vendo o seu companheiro descoberto, tiraram egualmente as mascaras. Um d'elles era intimo amigo de F...

--Que é isto?... Como póde isto ser?... gritou F... exaltado.

E apontando em seguida para o cadaver, continuou:

--Aquelle homem está morto, e foi roubado. Depressa expliquem-se! como póde isto ser?

--Meus senhores,--exclamou o _mascarado alto_--o segredo que eu tenho tido em meu dever guardar dentro dos muros d'esta casa, e que espero fique para sempre sepultado n'ella, pertence a uma senhora. Uma parte d'este segredo, aquella que mais particularmente nos interessa, a que explica a presença d'aquelle cadaver diante de nós, conhece-a este senhor.

E voltando-se para mim ao dizer estas palavras, accrescentou:

--Em nome da nossa dignidade, emprazo-o pela sua honra a que declare o que sabe.

--Jurei não o dizer--respondi eu--não o direi nunca. Ao entrar aqui, em presença de um perigo que julguei imminente sobre a cabeça das pessoas mais particularmente envolvidas n'este mysterio, perdi os sentidos, desmaiei mulheril e miseravelmente. Falta-me diante do perigo a energia physica, que é a feição visivel do valor. Não imaginem por isso que tambem careço de força moral precisa para guardar um segredo, á custa que seja da minha propria vida! Interrogado por gente mascarada, que não conhecia, era-me licito mentir, pôr tambem na resposta uma mascara. Diante de gente de bem, que me interroga invocando a sua honra, o meu dever é calar-me. Previno-os de que são absolutamente inuteis todas as tentativas que fizerem para me obrigarem a outra coisa.

--Não é difficil de cumprir o seu dever! observou com ironia o mascarado alto. O corpo d'aquelle desgraçado não póde ficar ali por mais tempo. É urgente que tomemos uma deliberação decisiva e que salvemos a responsabilidade que pesa sobre nós, de modo tal que fique para sempre tranquilla a consciencia que nos dictar o conselho que houvermos de seguir. Visto que este senhor se recusa a principiar, começarei eu.

E traçou sobre uma folha de papel as seguintes linhas, que ia pronunciando ao mesmo tempo que as escrevia:

«_Minha prima._

«Na rua de... n.^o... acham-se n'este momento reunidos diante de um cadaver os seguintes homens: (seguiam-se os nossos nomes). É um tribunal supremo constituido pelo acaso e que vae julgar em derradeira e unica instancia o crime sujeito pela fatalidade á nossa jurisdicção. Se em presença d'este tribunal a minha prima tiver que depôr, peço-lhe que o faça.»

--Perdão...--observei eu.--Peço licença para accrescentar uma linha:

«A. M. C. não devolve a chave.»

* * * * *

Elle escreveu o que dictei, assignou, dobrou o papel, e disse a um dos seus amigos:

--Vae já entregar este escripto á condessa de W...

Meia hora depois uma carruagem que percorrera a rua a galope parou á porta do predio em que estavamos. Rolámos para dentro da alcova o sofá em que se achava o cadaver, e cerrámos o reposteiro da sala. Abriu-se a porta, e a condessa entrou.

Seguira o alvitre que lhe propus. As vinte e quatro horas decorridas desde que eu a deixára até ao momento de partir para ali, tinha-as empregado em escrever com uma eloquencia apaixonada e febril a historia da sua desgraça. O caderno que lhe remetto encerra, senhor redactor, a copia da longa carta dirigida por ella a seu primo. Cedo o logar que estava occupando nas columnas do seu periodico á publicação d'este documento, que verdadeiramente se poderia chamar _O auto de autópsia de um adultério_.

Depois direi o destino que démos ao cadaver, e o fim que teve a condessa.

+A Confissão d'ella+

I

Parece-me ás vezes que tudo isto se passou n'uma vida distante como um romance escripto, que me causa saudades e dôr, ou uma velha confidencia de que a minha alma se lembra. Mas de repente a realidade cae arrebatadamente sobre mim, e creio que soffro mais então, por ter a consciencia de que não devia nunca ter deixado de soffrer. Foi bom que me determinasse a esta confissão. Contar uma dôr é consolal-a. Desde que me determinei a escrever estas confidencias, ha no meu peito um alivio e como um movimento de dôres crueis que desamparem os seus recantos.

O principio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer. Lembra-me o dia, a hora, a côr da relva, a côr do meu vestido. Foi no fim do penultimo inverno, em maio. _Elle_ estava tambem em Paris. Viamo-nos sempre. Ás vezes saíamos da cidade, iamos passar o dia a Fontainebleu, Vincennes, Bougival, para o campo. A primavera era serena e tepida. Já estavam floridos os lilazes. Levavamos um cabazinho da India com fructa, n'um leito de folhas de alface. Riamos como noivos...

Havia tres mezes que estavamos em Paris: o conde--creio que o disse--estava na Escossia com lord Grenley caçando a raposa nas tapadas do principe de Beaufort.

Houve então um baile no _Hotel de Ville_, um d'esses bailes officiaes em que uma multidão de praça publica se acotovella sob os lustres, brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma walsa com um coronel austriaco, quando a viscondessa de L..., que vivia então em Paris, veiu a mim, toda risonha:

--Conheces este nome: _miss Shorn?_

--Não. Uma americana?

--Uma irlandeza. Uma maravilha, O prefeito dançou com ella; a condessa Waleuska beijou-a na testa, Gustavo Doré prometteu-lhe um desenho. Vae ser apresentada nas Tulherias. No fim, queres que te diga? Acho-a insignificante. Bonitos cabellos, sim. Não se falla n'outra cousa! Mas tu deves conhecel-a...

--Porque?

--Tem dançado com Captain Rytmel, parecem intimos. Tu ris?

--Eu?

--Não... tu riste!

--Nunca rio, senão quando quero chorar, minha querida!

--_Tiens, tiens!_--murmurou ella, olhando muito para mim.

E affastou-se. O meu pobre coração ficou em desordem. Ás vezes, na nossa alma, toca-se de repente a rebate, e as desconfianças adormecidas, acordam, tomam as suas armas, e fazem sobre nós um fogo cruel.

--Captain Rytmel approximara-se.

--Vem radiante, disse-lhe eu. Quem é miss Shorn?

Elle respondeu gravemente:

--É a amiga intima de minha irmã.

Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste.

Os movimentos da dança lembravam-me as cerimonias d'um culto. O meu ramo ficou espalhado pelo chão. N'esse instante, sem saber porquê, detestei Paris, o ruido, o imperio; desejei as sombras de Cintra, os retiros melancolicos de Bellas, cheios dos murmurios da agua.

Quiz sair. N'uma das ultimas salas uma mulher alta, loira, tomava das mãos d'um velho extremamente magro e distincto a sua _sortie de bal_.

Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto d'ella, e fallando baixo para mim:

--Miss Shorn! disse elle.

Era realmente linda. Grandes cabellos loiros, fortes, luminosos; os olhos largos, intelligentes, serios; um corpo perfeito.

N'essa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam accesos. Entrei, fui ao espelho precipitadamente. Deixei cair dos hombros o _burnous_. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem apparecia ao fundo do quadro n'um vapor luminoso. Achei-me feia. Olhei mais. Tinha os braços nús, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciencia de que eu estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser linda!

D'ali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps. Captain Rytmel acompanhou-me. Eu tinha um logar na tribuna do _Jockey_. Havia uma enorme multidão. Estava a imperatriz, a córte, a diplomacia;--a tribuna resplandecia de fardas, de joias, de plumas, de reflexos de seda. As musicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos batalhões em marcha, o luzir das bayonetas, as vozes de commando, o galopar dos cavallos, o brilho dos capacetes, o ceu resplandecente, como um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava extranhos sentimentos de guerra e de gloria. E todo o corpo estremecia quando aquellas poderosas massas passavam gritando:

--Viva o imperador!

Sou uma pobre mulher, mas estremecia tambem!

A infanteria tinha passado. Rytmel fôra fallar com miss Shorn, que estava em companhia de lady Lyons. O barão Werther, embaixador da Prussia, ficara collocado junto d'ella.

Ia passar a artilheria e a cavallaria. O imperador, com o seu estado maior, tinha vindo collocar-se ao pé da tribuna do _Jockey_. Nós todos nos inclinavamos para ver os generaes que o cercavam: Montauban, o que tomára Pekim; Canrobert com os seus longos cabellos brancos; a espessa figura de Besaine; o altivo perfil trigueiro de Mac-Mahon, que viera da Algeria...

Miss Shorn era tambem muito olhada na tribuna do _Jockey_. Dizia-se que a imperatriz lhe tinha sorrido e que madame de Talouet lhe mandara, sem a conhecer, um ramo de violetas do polo.

Mas os olhos começavam a voltar-se para o fundo da planicie, d'onde a cavallaria devia partir, e corria um arrepio d'enthusiasmo perante um tão grande poder militar. N'essa manhã fallava-se em certas reservas entre o gabinete de Berlim e as Tulherias. Lembrava-se Sadowa, mil cousas que eu não sei; e olhava-se muito para o barão Werther, que sorria com o seu tumido sorriso prussiano.

No entanto, a cavallaria formara em linha. Os clarins tocavam, as bandeiras desdobravam-se: e de repente aquella enorme massa despediu á carga cerrada do fundo do campo, para a tribuna do _Jockey_.

Os capacetes, as couraças, as espadas, faiscavam ao sol. O chão tremia sob o compasso do galope. Sentia-se já o tinir dos ferros. Distinguiam-se já os coroneis, esbeltos moços condecorados. Ouvia-se o respirar offegante dos cavallos. O imperador tinha-se descoberto, todos na tribuna estavam de pé... De repente, por um movimento unico, toda aquella enorme columna estacou firme, vibrante, immovel, reluzente, agitando as espadas, e gritando:

--Hurrah! Viva o imperador!

A tribuna, de pé, respondeu:

--Hurrah!

Então, vendo uma tão admiravel cavallaria, uma tão grande força, tanto prestigio imperial, e tomados do indomavel orgulho das tradições ou possuidos da febre do sangue militar, muitos officiaes, que estavam nas outras alas, adiantaram-se, e elevando as espadas, gritaram:

--A Berlim! a Berlim!

Por todo o campo se ouviam agora gritos exaltados:

--A Berlim! a Berlim!

E na tribuna algumas vozes clamavam tambem:

--Sim, sim, a Berlim!

O imperador então, erguendo-se nos estribos, estendeu a mão aberta como impondo silencio, ou como dizendo: _Esperae!_

Áquele grito inesperado todo o estado maior se tinha apertado em torno do imperador, e eu que estava nos primeiros bancos da tribuna, vi o marechal Mac-Mahon deter subitamente o cavallo, voltar meio corpo rapidamente, e com a mão apoiada no xairel escarlate bordado a ouro, que cobria a anca do animal, erguer os olhos meio risonhos para o lado da tribuna em que estava o embaixador da Prussia. Eu segui o olhar do marechal, olhei tambem, e vi... como hei de dizel-o? Vi Rytmel. Vi-o junto de miss Shorn, curvado, fallando-lhe, sorrindo-lhe, absorto, afogado na luz dos seus olhos. Ella olhava-o, extremamente séria, com um longo olhar demorado e convencido, em que eu vi todo o fim da minha vida!

II

D'hai a dez dias o conde chegou; partimos para Portugal. Durante esse tempo que ainda estive com Rytmel em Paris, nem eu trahi as minhas duvidas, nem elle mostrou preoccupações alheias aos interesses do nosso amor.

Vim para Lisboa; recebia regularmente cartas d'elle. Estudava-as, decompunha as phrases palavra por palavra para encontrar a occulta verdade do sentimento que as creára. E terminava sempre--meu Deus!--por descobrir uma serenidade gradual no seu modo de sentir. Rytmel escrevia-me com muito espirito e com muita logica para poder pôr o coração no que escrevia. Evidentemente o seu amor passava da paixão para o raciocinio. Criticava-o: prova de que não estava dominado por elle. Tinha até já palavras engenhosas e litterarias. Valia-se da rethorica! Ao mesmo tempo a sua lettra tornava-se mais firme; já não eram aquellas linhas tortas, convulsivas e arrebatadas que palpitavam, que me envolviam... Era um infame cursivo inglez, pausado e correcto. Já me não escrevia como d'antes em papel d'acaso, em folhas de carteira, em pedaços de cartas velhas, que denotavam as inspirações do amor, os sobresaltos repentinos da paixão: escrevia-me em papel Maquet, perfumado! Pobre querido, o que o seu coração tinha de menos em amor tinha de mais o seu papel em _marechala!_

E eu? É talvez occasião de fallar aqui do meu sentimento. Duvidei fazel-o. Não queria collocar o meu coração sobre esta pagina como n'uma banca de anatomia. Mas pensei melhor. Eu já não sou _alguem_. Não existo, não tenho individualidade. Não sou uma mulher viva, com nervos, com defeitos, com pudor. Sou um _caso_, um _acontecimento_, uma especie de _exemplo_. Não vivo da minha respiração, nem da circulação do meu sangue: vivo abstractamente, da publicidade, dos commentarios de quem lê este jornal, das discussões que as minhas maguas provocam. Não sou uma mulher, sou um _romance_.

III

Não pense que digo isto com amargura. A maior alegria que eu posso ter é a anniquilação da minha individualidade.

Por isso não tenho escrupulos. As almas extremamente desgraçadas são como as creancinhas: devem mostrar-se nuas.

Além de tudo supponho que estas paginas podem ser uma revelação proveitosa para aquellas que estejam nas illusões da paixão. Que me escutem pois!

São 11 horas da noite. N'este momento quantas sei eu que soffrem, que esperam, que mentem, possuidas de um sentimento, que pouco mais lhes dá do que a felicidade de serem desgraçadas! Tu, minha pobre J..., mulher de discretos martyrios, a quem tantas vezes vi os olhos pisados das lagrimas! tu pobre Th..., que tens passado a tua vida a tremer, a receiar, a humilhar-te, a espreitar, e a fugir..., vós todas que estaes envolvidas pelo elemento cruel da paixão, quasi fóra da vida, e em lucta com a verdade humana, vós todas escutae-me!

Desde que amei, a minha vida foi um desequilibrio perpetuo. Não era voluntariamente que eu cedia á attracção, era com uma repugnancia altiva. Mil cousas choravam dentro em mim, soffria sobretudo o orgulho. Era impossivel fazer com elle uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofetea-me o coração.

O que eu soffri! o que eu córei! Córei diante da minha pobre Joanna, da minha velha ama, um anjo cheio de rugas, que sabe sobretudo amar quando tem de perdoar! Córava diante das minhas criadas. Julgava-me feliz quando ellas me sorriam, tremia quando lhes via o aspecto serio. Dava-lhes vestidos, ensinava-lhes penteados. Saíam ás vezes de tarde, recolhiam alta noite; eu córava profundamente no meu coração, e sorria-lhes.

O olhar dos homens era-me insupportavel: parecia-me envolver uma affronta. Imaginava que era publica a aventura do meu coração, que era julgada como uma creatura de paixões faceis, o que dava a todos o direito de me fazerem córar. Quantas vezes sahi do theatro afogada em lagrimas! Analysava os gestos, os olhares, os movimentos dos labios. «Fulana olhou-me com desdem! Aquelle riu-se insolentemente, quando eu passei! Aquell'outra affectou não me ver.» Se n'uma modista, ao escolher um vestido, me diziam: «Esta côr é alegre, é bonita!» eu pensava commigo: «Bem sei, aconselham-me as côres vivas, ruidosas, as côres do escandalo, o género _artiste!_» E saía, fechava os _stores_ do meu _coupé_, chorava desafogadamente.

Não me atrevia a beijar uma creança; olhava-a com uma ternura ineffavel, ia a tomal-a nos braços, mas dizia commigo: «Deixa esse pobre anjinho, não és bastante pura para lhe tocar!»

Devo dizer tudo. Córava diante do meu cocheiro! Sorria-lhe com o maior carinho: temia a todo o momento uma má resposta, uma audacia, uma palavra accusadora. Quando eu entrava para a carruagem, e elle se erguia respeitosamente, eu ficava tão satisfeita d'aquella prova de attenção, que tinha vontade de o abraçar...

Acha odioso, não?

Defino o meu estado por uma palavra precisa e terrivel: quando meu marido me apertava expansivamente a mão, eu soffria tanto como se o outro me atraiçoasse!

Ai de mim! Quantas vezes quiz eu consolar o meu orgulho, pensando nas glorias dramaticas do soffrimento e do martyrio! Quantas vezes me comparei ás figuras lyricas da paixão, que contam as legendas da sua dôr ao ruido das orchestras, á luz das rampas, e que são _Traviata, Lucia, Elvira, Amelia, Margarida, Julietta, Desdemona!_ Ai de mim! mas onde estavam os meus castellos, os meus pagens, e o ruido das minhas cavalgadas? Uma pobre creatura que vive da existencia do Chiado, que veste na _Aline_, que glorificações pode dar á sua paixão?

E depois é cruel, e é forçoso dizel-o: ha sempre um momento em que uma mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades moraes do seu amante que a dominaram. Porque então haveria justificações. E ha uma profunda humilhação em nossa consciencia quando nos chegamos a convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas idéas e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um _não sei quê_, em que entra talvez a côr do seu cabello e o nó da sua gravata. Sejamos francas; para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das nossas preferencias? Não quero dizer que as elevações moraes não sejam um auxiliar poderoso á sympathia instinctiva; mas o que na realidade nos domina é o exterior de um homem. Que todas as que lerem estas confidencias dolorosas se consultem no silencio do seu coração e digam o que determinou n'ellas a sensação: se foi o caracter ou se foi a physionomia. E as que forem francas dirão que na sua vida influiu talvez mais a côr de um _frack_, do que a elevação de um espirito.

Sim, digo-o, francamente, d'aqui d'este canto do mundo, em que o ruido das cousas tem o som ôco da tampa de um esquife: os desvarios do coração em nós outras, nada os absolve, quasi nada os explica.

Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tedio assaltadas de chimeras; tive os meus romances intimos, que nasciam, soffriam, morriam entre duas flores do meu bordado. Creei aventuras, dramas apaixonados e fugas dramaticas, aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto do fogão.

Conheci mais tarde muitos caracteres femininos e a historia de muitas sensibilidades. Experimentei eu tambem os sobresaltos da paixão--e nunca vi, nunca soube que estas imaginações, que estas _attracções_ nascessem de uma verdade da natureza, da logica das circumstancias, da irreparavel acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo ephemero, romantico, litterario, ficticio, que habita no cerebro de todas as mulheres.

Vejo-o d'aqui a sorrir... Não se admire de me ver fallar assim. Lembra-se d'aquellas conversações tão intimas e tão sérias na rua de...? Lembra-se do terraço de _Clarence-Hotel_, em Malta, quando a lua silenciosa cobria o mar? Não se recorda das minhas idéas então e d'aquellas imaginações que eu denominava gloriosamente os meus _systemas_? Não se lembra que me chammava então _philosopho loiro_? O _philosopho_ sentiu, chorou, soffreu, teve por isso o melhor estudo. Que maior ensino que as lagrimas? A dôr é uma verdade eterna, que fica, emquanto as theorias passam. Não imagina o que tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas idéas rectas e precisas saem das incoherencias do pranto!

Por isso hoje não creio em certas fatalidades, com que as mulheres pretendem esquivar-se á responsabilidade. Não creio no que se chama theatralmente _as fatalidades da paixão_. A vontade é tudo; é um tão grande principio vital como o sol. Contra ella _as fatalidades_, as febres, o ideal, quebram-se como bolas de sabão.

Respondem-me chorando: _a fatalidade!_ Mas, meu Deus! tomemos um exemplo,--a aventura trivial, a commum, o que se poderia chammar a _aventura typo_, o que se vê todos os dias, em qualquer rua, no primeiro numero par ou impar... a aventura que nós acotovellamos no passeio, que toma comnosco neve na confeitaria Italiana, e que se enterra ao pé de nós no Alto de S. João.

A scena é simples, de tres personagens. Eu, por exemplo, sou a mulher. Meu marido é um homem honesto e trabalhador. Cança-se, lucta, prodigaliza-se: logo de manhã sae para o seu escriptorio, ou para o seu jornal, ou para o seu officio, ou para o seu ministerio; cercea o seu somno, almoça á pressa, quebra o seu descanço. Todo elle é attenção, vigilia, trabalho, sacrificio. Para quê?

Para que os nossos filhos tenham uns _bibes_ brancos, e uma ama aceada; para que as minhas cadeiras sejam de estofo e não de páu; para que os meus vestidos sejam de seda e talhados na _Marie_, e não de chita e cosidos pelas minhas mãos, de noite, a um candieiro amortecido.

Meu marido é um homem honesto, sympathico, serio, affavel. Não usa pós de arroz, nem _brilhantine_, não tem gravatas de apparato, não tem a extrema elegancia de ser moço de forcado, não escreve folhetins; trabalha, trabalha, trabalha! Ganha com o seu cançasso, com os seus tedios, em horas pesadas e longas, o jantar de todos os dias, o vestuario de todas as estações. A sua consolação sou eu, o centro da sua vida sou eu, o seu ideal e o seu absoluto sou eu! Não faz poemas romanticos, porque eu sou o seu poema intimo, a musa dos seus sacrificios; não tem aventuras porque eu sou a sua esposa; não tem viagens gloriosas pelos desertos nem o prestigio das distancias, porque o seu mundo não é maior do que o espaço que enche o som da minha voz; não ganhou a batalha de Sadowa mas ganha todos os dias a terrivel e obscura batalha do pão dos seus filhos...

É justo, é bom, é dedicado. Dorme profundamente porque o seu cançasso é legitimo e puro; gosta da sua _robe de chambre_ porque trabalhou todo o dia. Julga-se dispensado de trazer uma flôr na _boutonniére_ porque traz sempre no coração a presença da minha imagem.

Pois bem! que faço eu?

Aborreço-me.

Logo que elle sae, bocejo, abro um romance, ralho com as criadas, penteio os filhos, torno a bocejar, abro a janella, olho.

Passa um rapaz, airoso ou forte, louro ou trigueiro, imbecil ou mediocre. Olhamo-nos. Traz um cravo ao peito, uma gravata complicada. Temo o cabello mais bonito do que o do meu marido, o talhe das suas calças é perfeito, usa botas inglezas, pateia as dançarinas!

Estou encantada! sorrio-lhe. Recebo uma carta sem espirito e sem grammatica. Enlouqueço, escondo-a, beijo-a, releio-a, e desprezo a vida.

Manda-me uns versos--uns versos, meu Deus! e eu então esqueço meu marido, os seus sacrificios, a sua bondade, o seu trabalho, a sua doçura; não me importam as lagrimas nem as desesperações do futuro; abandono probidade, pudor, dever, familia, conceitos sociaes, relações e os filhos, os meus filhos! tudo--vencida, arrastada, fascinada por um soneto errado, copiado da _Grinalda_!

Realmente! É a isto, minhas pobres amigas, que vós chamaes--_fatalidade da paixão!_

E no emtanto como corresponde elle a este sacrificio terrivel?

Como tem uma aventura, não póde occultar a sua alegria, toma ares mysteriosos, provoca as perguntas; compromette-me; deixa-me para ir esperar os touros em intimidades ignobeis; mostra as minhas cartas em cima da mesa de um café, ao pé de uma garrafa de cognac; jura aos seus amigos que me não _ama_, e que é--_para se entreter_; e se meu marido o chicotear no meio do Chiado, como é vil, cobarde, vulgar e imbecil, irá queixar-se á Boa Hora!

_Et voilá D. Juan!..._

Não! é necessario demolir pelo ridiculo, pela caricatura, pelo chicote e pela policia correccional, esse typo indigno que se chama o _conquistador_. O _conquistador_ não tem attracção, nem belleza, nem elevação, nem grandeza como typo,--e como homem não tem educação, nem honestidade, nem maneiras, nem espirito, nem _toilette_, nem habilidade, nem coragem, nem dignidade, nem limpeza, nem orthographia...

Perdôe-me, meu primo, estas exaltações. Sou impressionavel, vou como se costuma dizer--_atraz da phrase_. Esqueço ás vezes as minhas dôres modernas, para me lembrar das minhas velhas indignações.

E pensa que, por condemnar estes amores triviais, eu me absolvo a mim? Não. Apesar de ter amado um homem de todo o ponto excellente, cuja superioridade d'espirito o meu primo conhecia e amava, d'uma distincção tão perfeita e tão completa; posto que a nossa affeição tivesse vivido n'um meio tão elevado, tão nobre, tão altivo,--apezar de tudo, eu tenho-me por tão condemnavel como aquellas de quem fallei,--e julgando-me sem justiça e fóra da graça, faço penitencia diante do mundo.

IV

E quanto, quanto soffri então, na modestia da minha vida, no apartamento do meu segredo! Quanto desejei ser uma pobre costureira que leva o seu filho pela mão!

Dentro do meu _coupé_, puxado a largo trote á saida do theatro, envolvida n'um cachemire, com uma pelle de martha nos pés, e um aroma doce na seda das almofadas, quantas vezes invejei as pequenas burguezas que saíam das torrinhas, embrulhadas em disformes mantas de agazalho, pisando a lama!

No dia em que recebia cartas d'elle, saía de Lisboa, fugia, ia para o campo! Levava-as, amarrotadas e beijadas, ia para a quinta de..., penetrava nas sombras espessas, ali ficava, longo tempo, envolta no calor tépido do sol, entorpecida pelo rumor sereno das ramagens, e pelo murmuroso correr da agua nas bacias de pedra!

Oh doce vida das arvores e das plantas! passividade da relva, irresponsabilidade da agua, pacifico somno dos musgos, suave pousar da sombra! quantas vezes me consolastes, e me ensinastes a soffrer calada! quantas vezes invejei a immobilidade do vosso ser!

Era ali, só, relendo essas cartas crueis, que eu sentia o amor d'aquelle homem fugir-me como a agua de um regato que se quer tomar entre os dedos.

Que me restaria então?

Voltar outra vez á serenidade legitima da vida? Não podia, ai de mim! estava para sempre expulsa do paraizo pacifico da familia, da casta sombra do dever. Lançar-me nas aventuras e na revolta? Meu Deus! isso repugnava tanto ao meu caracter como o contacto d'um animal viscoso á pelle do meu peito.

Ficava pois sem situação na vida. Não tinha n'ella um logar definido. Entrava n'essa legião dolorosa e tristemente miseravel--_das mulheres abandonadas_.

A minha unica honestidade agora devia ser conservar-me captiva d'aquelle sentimento. A minha unica absolvição estava na verdade da minha paixão. Quanto mais me separasse do mundo e me désse ao meu amor; mais me approximava da dignidade. Nas situações definidas e corajosas ha sempre um lado honesto; o que repugna ao instincto casto são as conciliações hypocritas. A posição que me restava, era ser de Rytmel, só d'elle e para sempre: e eu sentia que elle se ia lentamente affastando de mim como eu me affastava de meu marido.

Era a minha entrada na expiação.

N'estes amores, o castigo não vem só do mundo: elles mesmo conteem os elementos da justiça cruel. O coração é o primeiro castigado pela mesma paixão. A punição da falta contra a honra vem mais tarde pelos juizos dos homens.

Eu estava então diante da maior miseria moral em que se póde encontrar uma mulher n'estas condições lamentaveis.

Eu amava Rytmel, Rytmel queria casar.

Que faria, meu Deus? Iria em nome da minha paixão desviar aquella existencia de homem, da linha natural, simples, humana, que leva ao casamento, á familia, ao dever?

Devia eu impedir que elle casasse? Mas não era isto impedir, abafar a legitima expansão da sua vida? Não era proscrevel-o das fecundas e serenas alegrias da familia, para o ter preso nos asperos, nos estereis sobresaltos de uma paixão romantica?

Tinha eu o direito de sequestrar aquelle homem para uso exclusivo do meu coração, encarceral-o dentro d'uma ligação illegitima e secreta, onde elle se esterilisaria, onde os seus talentos e as suas qualidades se enferrujariam como armas inuteis, e toda a sua acção social se limitaria a seguir o _frou-frou_ dos meus vestidos? Não dava isto ao meu sentimento um aspecto de egoismo animal? Não tirava isto ao meu amor a melhor qualidade: a virtude do sacrificio?

Poderia eu prival-o de ter um dia os filhos, que fossem a continuação do seu ser e a sua immortalidade? Podia eu prival-o em nome do meu ideal de ter na velhice aquella doce e branca companheira, sob cujo olhar pacifico, o homem justo espera, socegado, o nobre momento da morte?

E era só isto?... Póde um espirito sincero acreditar na duração d'estes amores exaltados, feitos de sensibilidades e de martyrios, que não têem o dever por base, e têem a traição por origem? E por dois ou tres annos mais que esta aventura continuaria, tinha eu o direito de ir quebrar o destino da _outra, d'ella_, pobre rapariga, que o amava, que edificava a sua vida sobre o coração d'elle, que se preparava para ser no lar, e para sempre, a presença da graça e a consciencia viva? Não: isto não podia ser.

Mas por outro lado, era justo que eu, tendo sacrificado por elle tudo, desde o pudor intimo até á honra social, fosse agora arremessada como uma luva velha?

Eu que tinha sido tudo quando se tratava da sua imaginação, não seria nada agora porque se tratava do seu interesse? Não me exilara eu por elle, do paraizo domestico? Por elle não renunciara as alegrias pacificas da vida, e a sublime esperança d'uma morte digna? Como eu tinha sacrificado por elle a honra d'um homem, não podia elle sacrificar por mim as esperanças romanescas d'uma creança? Era justo ter-me trazido enganada, envolvida, como n'um arminho, nas apparencias do amor, ter-me conduzido com os olhos vendados, attrahida, suspensa do rythmo dos seus passos, a um logar perigoso, a uma situação intoleravel, e chegando ahi dizer-me: «Adeus agora! eu vou para a felicidade. Tu fica; mas cuidado, que para traz não pódes voltar; e se deres um passo para diante, vaes abysmar-te na infamia!».

Não, isto não deve ser: o amor não é uma creação litteraria, é um facto da natureza: como tal produz direitos, origina deveres. E os direitos do amor não os abdico.

Pois quê! Por causa da _outra_! Hei de dar tamanha consideração ás lagrimas que choram dois olhos alheios, que nunca vi, que estão a duzentas leguas de distancia e não hei de apiedar-me das minhas lagrimas, que escorrem aqui na minha face, e que eu aparo na tremura das minhas mãos!

«És casada» dizem-me. O que! Porque perdi mais, devo ser attendida menos! Eu, que vivo quasi fóra do mundo, sem estar ligada a nenhuma d'estas cousas superiores que amparam a vida, suspensa sobre a morte por um leve fio, por este amor unico, é por isso que devo ir com as minhas mãos quebrar esse fio, quebrar esse amor!

Ha algum direito humano que exija isto de mim? Ha alguma piedade que o veja friamente? Ha alguma consciencia que o justifique? Se ha, essa consciencia poderia ensinar a serem duros os rochedos do mar!

Mas, meu primo, tudo isto é aqui, n'este papel em que lhe escrevo. Porque na realidade eu não podia luctar com _ella_! _Ella_ era a _miss_, a que havia de ser esposa e mãe,--vencia tudo! Elevava-se sobre as velhas affeições, sobre os velhos erros, como a imagem da virgem sobre o globo feito de barro e de lama, onde se enrosca a serpente.

Nem tentei luctar!

E foi por esse tempo que recebi uma carta em que elle me dizia: _Parto para Portugal._

Que vinha fazer? O que era? Vinha despedir-se de mim? Vinha ver as minhas agonias? Vinha consolar-me? Vinha convencer-me? Vinha de novo dar-se captivo ao meu amor? Vinha. Nem elle mesmo sabia mais nada!

V

Rytmel chegou. A primeira vez que o vi foi em minha casa.

O conde estava então em Bruxellas. Era noite e na minha sala de musica achavam-se reunidas algumas pessoas: a marqueza de... velha legitimista, que fôra a graça da córte toureira de D. Miguel; o visconde de... moço insignificante e vagamente loiro, que eu acolhia bem, porque sua irmã, que morrera, fôra a minha intima, a minha confidente de collegio.

Viera tambem a viscondessa de... pequenita creatura petulante e mediocre, que tinha a graça de ter vinte annos, junta com a desgraça de os não saber ter e cuja especialidade era o querer parecer profundamente perversa, quando era apenas perfeitamente incaracteristica. Mas ao pé de mim, sentado n'um sophá com um abandono asiatico, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido--Carlos Fradique Mendes. Passava por ser apenas um excentrico, mas era realmente um grande espirito. Eu estimava-o, pelo seu caracter impeccavel, e pela feição violenta, quasi cruel, do seu talento. Fôra amigo de Carlos Beaudelaire e tinha como elle o olhar frio, felino, magnetico, inquisitorial. Como Beaudelaire, usava a cara toda rapada: e a sua maneira de vestir, de uma frescura e de uma graça singular, era como a do poeta seu amigo, quasi uma obra d'arte, ao mesmo tempo exotica e correcta. Havia em todo o seu exterior o que quer que fosse da feição romantica que tem o _Satan_ de Ary Sheffer, e ao mesmo tempo a fria exactidão de um _gentleman_. Tocava admiravelmente violoncello, era um terrivel jogador d'armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fôra corsario grego. O seu espirito tinha um imprevisto profundo e que fazia scismar: fôra elle que dissera da pallida duquesa de Morny: _elle a la bêtise melancolique d'un ange._ O imperador citava muitas vezes este dito, como sendo conjunctamente a critica profunda de uma physionomia e de um caracter.

Carlos Fradique tinha por mim uma amisade elevada e sincera. Chamava-me _seu querido irmão_. Conhecia-me desde pequena, andara commigo ao colo. Em Paris tornou-se celebre; era o que se poderia chamar um _philosopho do boulevard_. Tinha sido _l'ami de coeur_ de Rigolboche, e quando ella rompeu por se ter apaixonado por _Capoul_, Carlos Fradique deixou-lhe no album uns versos quasi sublimes, de um desdem cruel, de um comico lugubre, uma especie de _Dies irae_ do dandysmo... Promettia á Rigolboche que quando ella morresse elle velaria para que ainda além do tumulo ella vivesse no _chic_, sentindo Paris na sepultura. Algumas das estrophes que elle traduziu para mim, e que depois se publicaram, fizeram sensação e escola...

E eu qu'inda te amo, ó pallida canalha, Que sou gentil e bom, Far-te-hei enterrar n'uma mortalha Talhada á _Benoiton_! Irei á noite com Marie Larife, Venus do macadam, Fazer sentir ao pó do teu esquife Os gostos do cancan... E no tempo das _courses_, p'lo verão --Assim t'o juro eu-- Irei dar parte á tua podridão Se o _Gladiador_ venceu...

Eram dez horas. Carlos Fradique, com uma voz impassivel, quasi languida, contava as situações monstruosas de uma paixão mystica que tivera por uma negra antropophaga. A sua veia, n'aquelle dia, era toda grotesca.

--A pobre creatura, dizia elle, untava os cabellos com um oleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado d'amor, approximei-me d'ella, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nú. Queria fazer-lhe aquelle mimo! Ella cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em soffrer por ella. Suffoquei a dôr, e estendi-lhe outra vez o braço...

--Oh! sr. Fradique! gritaram todos, escandalisados com a invenção monstruosa.

--Comeu mais, continuou elle gravemente, gostou e pediu outra vez.

Fallava com um sorriso fino, quasi beatifico. Nós iamos revoltar-nos contra a cruel excentricidade d'aquella historia.

N'este momento vi á porta da sala, trémula, com um grande espanto nos olhos, chamando-me baixo, a minha criada Betty. Fui: ella tomou-me pela mão, foi-me levando, e no corredor, olhando com receio, abrindo n'um grande pasmo os braços, disse-me ao ouvido:

--É elle!

Encostei-me desfallecidamente á parede, sentindo parar o coração.

Betty, com passos discretos foi abrir a porta do meu _toillette_. Entrei. De pé junto d'uma mesa, extremamente pallido, estava elle. Apertei as mãos sobre o peito, fiquei immovel, suspensa. Elle caminhou para mim com os braços abertos, para me envolver; eu deixei-me cahir aos seus pés, e calada beijei-lhe os dedos. Elle tinha ajoelhado commigo, e com as mãos enlaçadas, os olhos confundidos, choravamos ambos. Eu só dizia n'um murmurio de lagrimas:

--Ha tanto tempo!...

--Minha senhora, minha querida menina, dizia Betty da porta, e aquella gente, santo Deus, que ha de dizer?

Eu não a escutava. Foi elle que disse sorrindo:

--Tem razão, Betty, tem razão! É necessario voltar á sala.

E deu-me o braço. Entrámos: elle grave, eu meio desfallecida, abstracta, com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso vago nas feições.

Disse o nome de captain Rytmel, e a sua antiga amisade com o conde. Vi a marqueza sorrir levemente.

E voltando-me para Rytmel:

--O sr. Carlos Fradique, disse eu, antigo pirata.

Os dois homens apertaram a mão.

--A senhora condessa lisongeia-me extremamente. Eu fui apenas corsario, disse Carlos.

Sentei-me ao piano acordando, a fugir, o teclado. Assim via bem Rytmel. A luz envolvia-o. Estava mais pallido, o seu rosto apresentava linhas mais graves. A testa tinha perdido a sua pureza: havia uma ruga estreita e funda que a dominava.

Fradique continuava fallando. Agora fazia a critica das mulheres do Norte.

--A irlandeza, dizia elle, tem mais que nenhuma mulher, a graça... Sobre tudo a que vive junto dos lagos! A melhor religião, a melhor moral, a melhor sciencia para um espirito feminino--é um lago. Aquella agua immovel, azul, pallida, fria, pacifica, dá um extremo repouso á alma, uma necessidade de cousas justas, um habito de recolhimento e de pensamento, um amor da modestia e das cousas intimas, o segredo de ser infinito, sendo monotono, e a sciencia de perdoar... Exijo na mulher com quem casar, que tenha as unhas rosadas e polidas, e um anno de convivencia com um lago!

Eu vi Rytmel córar de leve e torcer nervosamente o bigode.

Pelo lucido instincto da paixão, comprehendi que entre aquella glorificação dos lagos, e os occultos pensamentos de Rytmel, havia uma affinidade. Lembrou-me a revista de Longchamps, os louros cabellos irlandezes de miss Shorn, e voltando-me para Carlos Fradique:

--Meu caro amigo, um pouco do seu violoncello, sim?

A sala abria sobre os jardins. A placida respiração do vento fazia arfar as cortinas. Carlos Fradique começou a tocar uma ballada das margens do mar do norte, de um encanto singularmente triste. Sentia-se o chorar das aguas, o feerico correr das ondas, o compassado bater dos remos de um pirata norvegio, a fria lua. Eu tinha ido com Rytmel para junto da varanda, e emquanto a pequena melodia soava nas cordas do violoncello, lembravam-me as antigas cousas do meu amor, o _Ceylão_, as noites silenciosas em que elle me jurava a verdade da sua paixão e a voz do mar parecia uma affirmação infinita; lembravam-me os terraços de Malta batidos da lua, as moitas de rosas de _Clarence-Hotel_, os prados suaves de Ville d'Avray; via-o ferido, pallido sobre as suas almofadas; via-o a bordo do _Romantic_, commandando as manobras da fuga, chorando os desastres do amor... E estas memorias emballavam-se no meu cerebro, confundidas com as melodias do violoncello.

VI

Ao outro dia eu devia encontrar-me com elle n'essa fatal casa n.^o... Fui, como sempre, toda vestida de preto, envolta n'um grande veu. Estava extremamente pallida, palpitava-me o coração de susto. Era aquelle um momento de transe. Eu decidira ter com Rytmel uma explicação clara, definitiva, sem equivocos... Uma palavra que elle dissesse, sêcca ou indifferente, um gesto impaciente, e eu considerar-me-hia como abandonada, exilada da vida; retirava-me para um _chalet_ da Suissa, ou para Jerusalem, ou para a melancolia d'um claustro no sul da França. Tinha determinado assim a solução do meu destino.

Quando cheguei á casa n.^o... elle não estava ainda. Fiquei alli muito tempo, immovel n'uma cadeira. Os ruidos da rua chegavam-me como no fundo d'um sonho. A sala tinha uma luz esbatida, atravez dos vidros foscos como os globos dos candieiros. Eu sentia aquella impressão indefinida, que nos vem quando estamos durante muito tempo n'um logar socegado e triste, olhando o silencioso caír da chuva.

De repente a porta gemeu docemente, elle entrou.

Vinha do campo. Tinha colhido para mim um pequenino ramo de flôres miudas das sebes. Veio apoiar-se nas costas da minha cadeira, e deixou-m'as cahir no regaço...

Depois, fallando-me baixo, junto da face:

--Andei todo o dia a pensar em si, _á travers champs_.

Não respondi, e com os olhos errantes nas côres do tapete, desfolhei cruelmente as pequeninas flôres dos prados. Tinha um contentamento amargo em torturar aquelles delicados seres, que vinham d'elle, e que me parecia terem d'elle aprendido a mentir.

--Pensei constantemente em si, e o passeio foi encantador, repetiu com uma voz docemente insistente.

Eu ergui os olhos para elle.

--Responda-me: sabe mentir?

--Mas, meu Deus, disse elle, affastando-se, parece que me quer hoje mal, minha querida filha!

Não respondi; mas o meu regaço estava coberto de flôres mutiladas.

Elle então ajoelhou ao meu lado, e tomando-me as mãos, espreitando os meus olhos impassiveis, ficou esperando, n'uma contemplação amante e paciente, que eu quebrasse aquella imobilidade. Eu sentia todo o meu ser pender para elle, n'uma attracção insensivel; mas dominava-me. Até que por fim elle ergueu-se lentamente, arremessou o corpo para um sofá, e ali ficou, como refugiado, folheando um volume de Musset, que estava sobre a mesa...

Levantei-me, tirei-lhe arrebatadamente o livro das mãos:

--Sabe o que é? Não o comprehendo, e é necessario que me diga, mas francamente, claramente, syllaba por syllaba, o que tem! Não me ama, é claro. Escusa de protestar. Vi-o logo pelo tom das primeiras cartas que me escreveu de Londres. E agora vejo-o pelo seu olhar, as suas menores palavras, o seu silencio, até. Ha uma cousa qualquer, não sei qual, mas ha. A verdade é que me abandona, que me não ama. É necessario que se explique. Isto não póde ser assim. Soffro. Se soubesse! chorei toda a noite...

E recomecei a chorar deante d'elle, com soluços que me quebravam. Elle tinha-me tomado as mãos e dizia-me baixo as cousas mais tocantes, em que havia as ternuras do amante e as consolações do amigo. Affastei-o de mim, e comprimindo o pranto:

--Não, não, é necessario que me diga claramente tudo. Eu não sei o que te quero perguntar ou não me atrevo talvez... Mas tu sabes o que me deves responder... Dize-me a verdade...

Elle, cruzando os braços, respondeu-me, com uma extrema placidez:

--Mas, minha querida amiga, a verdade é que as illusões do seu espirito são a nossa desgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalidade do caracter feminino. É-lhes insupportavel a serenidade. Na vida pacifica procuram o romance, no romance procuram a dôr. É necessario que esses pequeninos e graciosos craneos tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade. Que quer então que lhe diga? Não vim a Portugal espontaneamente? Não tem encontrado sempre ao seu lado o meu amor, fiel como um cão?--Que mais quer? Acha-me reservado, diz. E se eu tivesse as violencias d'Othelo, achava-me de certo ridiculo! De resto, sabe-o bem, amo-a! Digo-lh'o aqui, sentado n'um sofá, de sobrecasaca, em uma casa que tem numero para a rua, e vou d'aqui a pouco; n'um _coupé_, jantar, jogar talvez o xadrez, vestir--quem sabe?--uma _robe de chambre!_ É lamentavel tudo isto, bem sei. E é por isto que não tem confiança em mim? E diga-me francamente: se eu estivesse aqui nos paroxismos d'Antony, ou tivesse uma _toilette_ veneziana, ou se isto fosse uma abbadia feudal, ou se eu partisse d'aqui para conquistar Jerusalem, diga-me--tinha mais confiança?

--Tudo isso não quer dizer nada.

--Oh minha querida amiga...

--A sua querida amiga, interrompi, nada mais pede que um coração franco e recto. São tudo pois imaginações minhas? Não ha nada que nos separe? Pois bem, vou dizer-lhe uma cousa e juro-lhe que é irremissivel, juro que o digo em toda a frieza do meu juizo, sem exaltação e sem paixão, com o discernimento mais livre, o calculo mais positivo...

--Mas, meu Deus! Diga...

--E esta resolução, acceita-a?

--Uma resolução... E o que envolve ella?

--Envolve a unica cousa possivel, a unica que me fará crer em si, com a mesma fé com que creio em mim. Acceita-a?

--Mas como não hei de acceitar?...

--Pois bem, comecei eu.

E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face n'uma voz ardente como um beijo:

--Fujamos ámanhã.

Rytmel empallideceu levemente e retirando de vagar as suas mãos d'entre a pressão das minhas:

--E sabe que é uma cousa irreparavel?

--Sei.

Elle sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no emtanto, de pé junto d'elle, com a minha mão pousada sobre o seu hombro, dizia-lhe como no murmurio de um sonho:

--Pensava n'isto ha um mez. Vamos para Napoles. Vamos para onde quizer. Adoro-te... É como uma pessoa que se deixa adormecer. Adoro-te, e quero viver comtigo...

Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta dos seus olhos; estavam cerrados de lagrimas.

--Meu Deus! Rytmel, tu choras...

--Não, não, minha querida! estava pensando em minha mãe, que não torno talvez mais a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante!

E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como sellando um pacto eterno.

VII

Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty.

--Betty, disse eu fechando a porta do quarto, Betty, depressa, quero dizer-te uma coisa. Não me digas que não...

--Santo Deus! Socegue, descance, minha querida menina! Jesus, como vem pallida!

--Betty, é uma cousa irreparavel... devia ser. Foi pensada a sangue frio. Vês como estou tranquilla, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução digna. Betty, não me digas que não!...

--Mas, minha rica senhora...

--Não se podia voltar atraz. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão feliz!

--Bem feliz, ao menos?

--Doidamente. E se não fosse assim, morria...

--Mas então...

--Fugimos ámanhã.

Ella estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que appareciam lagrimas, e suffocada, com as mãos juntas:

--E eu?

Atirei-me aos seus braços:

--Pois havias de ficar, Betty? Tu vens comnosco, Betty.

E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando roupas, batendo as palmas, e gritando:

--Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja, arranja!

Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre, triumphava: a minha vida apparecia-me, larga, cheia, explendida, coberta de luz. Entrei nas modistas, olhei, escolhi, comprei, com impaciencias de noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas.

--Partes? perguntavam-me.

--Para França.

--Com a guerra?

--Não ha guerra. E havendo, não é interessante ver matar prussianos?

Á porta do _Sassetti_, encontrei Carlos Fradique.

--Sabe que parto ámanhã? disse-lhe eu.

--Sabe que parto hoje? respondeu-me. Ia lá, apertar-lhe a mão.

--Mas é inesperado isso! Vae para França? Para quê?

--Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve haver attitudes de mortos muito curiosas.

--Mas vae debalde. Não ha guerra. É positivo. Por isso eu vou para Italia.

--Vae para Italia?... Mas, então... Ah! Vae para Italia? Minha pobre amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qualquer parte, ou feliz, ou triste, para a consolar, ou para fazer um _trio_ com o meu violoncello, sou seu, _adesso e sempre_.

Apertou-me a mão. Não sei porque, aquellas palavras deram-me uma sensação triste.

Quiz ir ao Aterro. A tarde caía. A agua tinha uma immobilidade luminosa. Do outro lado os montes estavam esbatidos n'um vapor azulado e suave. Sobre o mar havia nuvens inflammadas, d'uma côr fulva, como no fundo d'uma gloria. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz.

Sentia-me vagamente melancolica. O rio, aquellas casas triviaes, todos aquelles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até ahi quasi inexpressivos, appareciam-me pela ultima vez que os via, com uma feição sympathica. Tive uma saudade piegas daquelles logares: quiz sorrir, escarnecer; mas a verdade era que aquella paisagem, o pesado hotel Central, o terraço de Braganza-hotel, a grosseira e escura rua do Arsenal, todas essas cousas alheias a mim, me despertavam inesperadamente o desejo instinctivo de tranquillidade, de familia, de situações pacificas, fazendo destacar no fundo da minha vida, n'um relevo negro, a aventura que eu ia intentar; e apparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que se despedem, faziam-me pensar nas cousas irreparaveis, no exilio e na morte!

A minha carruagem subia a passo a rua do Alecrim. As luzes accendiam-se. O ceu estava ainda pallido.

Uma senhora passou, só, a pé, levando uma creança pela mão: era uma mulher nova e distincta; parecia feliz. O pequenino, loiro, gordo, ria, palrava n'aquella linguagem mysteriosa e doce, que é o que ficou ainda na voz humana do _a b c_ do ceu.

Como seria bom ser assim uma mulher pacifica, com um equilíbrio suave no coração, uma _toilette_ fresca, o amor das cousas justas, e um filho pela mão! Se eu fosse assim seria alegre, amavel, passearia, daria _bonbons_ ao meu pequerrucho, tral-o-hia vestido de côres leves, com uma flôr no cinto; conversaria com elle, e á volta, depois do cansaço do meu passeio, amaria a tranquillidade da minha vida. Elle adormeceria sobre o sofá. A janella estaria aberta. Grandes borboletas brancas voariam em volta do candeeiro; eu, ajoelhada, procuraria despil-o, sem o acordar, cantando, baixo, em segredo, uma melodia dormente de Mozart, e no entretanto a penna do pae rangeria, a um canto, sobre o papel. Ó perfumados paraizos da vida! como eu me affasto de vós!

Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quarto estavam fechadas, affiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande pelle, apertada na sua correia. Tudo estava prompto, deviamos partir na manhã seguinte. As minhas idéas simples debandaram.

Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de paizes extensos e distantes, que se atravessam ao galope da _posta_ ou na velocidade d'um _wagon_. Era noite. Não pedi luz. O luar entrava no quarto atravez das arvores do jardim. Sentei-me á janella.

A minha situação appareceu-me então com o prestigio de um bello romance. Mil imaginações e phantasias cantavam no meu cerebro. Sentia-me á entrada de uma vida de perigos, de extasis, de glorias. Via-me na tolda de um paquete entre os perigos de um naufragio: ou n'uma serra espessa, por um grande luar, n'uma companhia de contrabandistas que cantam á Virgem; ou no silencio de uma caravana escoltada de _beduinos_, acampando no monte das Oliveiras, defronte de Jerusalem. Percorreria a Italia; entraria nas cidades ao galope dos cavallos, ao accender o gaz, quando a multidão enche os _corsos_ entre fileiras de altivos palacios da Renascença. Via-me em Napoles, na bahia, por um luar calmo: dormindo sob as vinhas em Ischia; ou na frescura das grutas do Pausilippo, onde ainda choram as nayades... A porta abriu-se de repente, um criado entrou com uma carta. Não vi a letra do _enveloppe_, não olhei sequer, mas sentia-a! Veiu luz. Era verdade, era de Rytmel! Tive-a longo tempo na mão, incerta, trémula. Pul-a em cima da pedra d'uma _console_, fui olhar-me ao espelho, vi-me pallida. No emtanto a carta attrahia-me, parecia-me que luzia sobre o marmore branco. Tomei-a, pesei-a, senti-lhe o aroma, e de vagar, cançada, suspirando, com os braços vergados ao peso d'ella, fui-a lentamente abrindo.

VIII

Transcrevo textualmente essa carta terrivel:

«Querida:--Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as minhas malas fechadas e afiveladas: Tenho o meu passaporte... É verdade! não te esqueças de tirar o teu. Escrevi a minha mãe. Escrevi a um amigo querido, que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na austera firmeza da tua resolução. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso na minha mão, como um passaro, ou como uma luva: posso pousal-o sobre a tolda d'um paquete, pol-o n'uma mesa de jogo em cima d'uma carta, collocal-o na ponta d'uma espada, ou fechar-t'o na mão e dar-t'o. Mas tu pelas condições da tua vida tens um logar definido no mundo, limitado e circumscripto. Estás presa, por um annel de casamento, a uma ordem de cousas, a um certo numero de leis, e és na vida como um navio ancorado no mar. Por isso é justo que antes de te separares violentamente do teu centro legitimo, eu, que tenho a experiencia das desgraças, das viagens, e do espectaculo do mundo, te diga algumas palavras, que, se não me tornarem mais amado ao teu coração, tornar-me-hão mais estimado ao teu caracter. Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrae n'este momento de mim, da minha honra e da minha fidelidade. Fallo do amor, lei ou mysterio ou symbolo, força natural ou invenção litteraria. Fias-te de mais no amor! Aquelle amparo superior, aquelle apoio solido e protector, que todo o espirito procura no mundo, e que uns acham na familia, outros na sciencia, outros na arte, tu parece quereres encontral-o sómente na paixão, e não sei se isso é justo, se isso é realisavel!

Creio que te fias de mais no amor! Elle não construe nada, não resolve nada, compromette tudo e não responde por cousa alguma. É um desequilibrio das faculdades; é o predominio momentaneo e ephemero da sensação; isto basta para que não possa repousar sobre elle nenhum destino humano. É uma limitação da liberdade, é uma diminuição do caracter; especialisa, circumscreve o individuo é uma tyrannia natural, é o inimigo astuto do criterio e do arbitrio. E queres que tenha esta base a tua situação na vida? E crês na estabilidade do amor, tu?... Sim, é possivel, emquanto elle viver do imprevisto, do romance e do obstaculo; emquanto necessitar do _coupé_ de _stores_ cerrados; mas logo que entre n'um estado regular, que se estabeleça definidamente para durar, que se organise, que se economise, extingue-se trivialmente; e quando quer conservar-se, tem a miseria de se assimilhar ás chammas pintadas d'um inferno de theatro. E então, desde o momento que o amor desapparecesse, que rasão de ser tinha a tua vida, e que justificação tinha que dar de si o teu incoherente destino? Ficavas sem uma situação definida: tudo te era vedado, ou pela força das leis sociaes, ou pela altivez da tua honra. Recuar para as cousas legitimas, arrepender-te, era impossivel: o arrependimento é um facto catholico, não é um facto social. Continuar e persistir em viver pelo amor era um equivoco hypocrita, e poderias um dia encontrar-te a viver na libertinagem.

Imaginas hoje que o amor é a unica tendencia, a unica preoccupação da tua vida... Não: é apenas idéa dominante na tua natureza. Ha outras exigencias, que hoje não sentes chamarem dentro de ti, porque teem sido plenamente satisfeitas no meio legitimo em que tens vivido; mas quando, mais tarde, estiveres retirada de tudo, fechada no amor como n'uma concha, sentirás então amargamente que te falta o _quer que seja_ que é a sociedade, a opinião, o centro d'amisades, o _rang_, as consolações incomparaveis que dá a estima dos que nos saudam. E o não encontrar então no mundo o teu logar, elegante, avelludado, agaloado, emplumado e coroado, dar-te-ha a sensação do abandono; e as consolações que então te quizer ministrar o amor pela sociedade que te falta, encontrarão aos teus olhos o mesmo tedio que encontrariam agora as consolações da sociedade pelo amor que te fugisse. Uma mulher que foge com o seu amante, só pode ter um logar no _Demi-Monde_; ou então um logar equivoco nas salas, quando é celebre por um talento ou por uma arte. Ora tu não quererás ir para a Italia frequentar, em Napoles, Madame de Salmé, nem quererás cantar n'um theatro, nem commetter a inconveniencia de escrever um livro. A viver modesta, tens de viver triste; a viver radiante, tens de viver humilhada. E pensas que pódes, por um anno sequer, viver na intimidade absoluta e no segredo?

O segredo, o refugio, um _ninho_ perfumado n'um quinto andar, são cousas extremamente doces, no meio da sociedade e das relações do mundo; a publicidade official da vida dá então um encanto extranho áqueles momentos de mysterio. Mas a perpetuidade do mysterio deve ser egual áquella legendaria tortura da beatitude eterna! Quando dois entes se encontram pelas fataes condições do seu procedimento, obrigados a viverem um do outro, um para o outro, um eternamente no segredo do outro, quando isto se não passa na ilha de Robinson, nem entre dois discipulos de Sedwinborg, nem entre dois desgraçados cheios de fome--mas n'uma cidade ruidosa e viva, entre duas pessoas positivas e educadas pelo segundo imperio, e que têem as complacencias do luxo, crê que deve ser amargo.

E depois, pensa! A nossa vida arrastar-se-ha tristemente, de paiz em paiz, sem um centro amado, sem uma familia, sem um fim. Não teremos, nem durante a existencia, nem no grave momento da morte, a serenidade de quem é justo. A nossa vida será como a das sombras romanticas de Paulo e Francesca de Rimini, levadas pelo vento contradictorio. Morreremos emfim como dois seres estereis, que nada crearam, e que não têem quem fique na terra com a herança do seu caracter; e quando todos pelos seus filhos ganham a unica justa immortalidade, nós sómente seremos mortaes, e para nós mais que para ninguem será terrivel a lembrança do fim! Perdôa que te escreva estas cousas. Mas fiz o meu dever. E agora posso livremente, insuspeitamente, dizer-te que me sinto feliz, e que o momento d'amanhã, quando virmos desapparecer a terra e nos acharmos sós, no infinito mar,--será para mim tão bello, que só por elle julgarei justificada a minha vida.»

Quando acabei de lêr esta carta, sentei-me machinalmente deante das malas, com os olhos fixos, como idiota. Abri uma gaveta, tirei não me recordo que pequeno objecto de renda, e tornei a fechar, com um movimento automatico, lugubre, e a ausencia absoluta da consciencia e da vida. Chamei Betty:

--Betty, que horas são?

--Onze, minha senhora.

--Dá-me agua, tenho sede. Dá-me agua com limão...

Quando ella sahiu fui encostar a cabeça á vidraça, a olhar o movimento ondeado e lento das ramagens escuras. A lua pareceu-me regelada. Betty entrou.

--Betty, disse-lhe eu n'uma voz sumida, sabes? Tenho medo de morrer doida...

Ella olhou-me, e viu no meu rosto uma tal expressão d'angustia, que me disse:

--Que tem, meu Deus, que tem? Chore, minha rica menina, chore...

--Não posso, não posso. Eu morro... Vem para o pé de mim, Betty!...

--Meu Deus, quer-se deitar? diga...

E erguendo os olhos e as mãos, n'uma imploração cheia de dôr, de desespero:

--Deus me leve para si! Ai! nada d'isto era se a mamã fosse viva, minha senhora!

Começou a chorar. Eu olhei-a com uma grande afflicção, senti os olhos humidos, os soluços suffocaram-me, e arremessando-me aos seus braços, chorei, chorei, chorei amargamente, chorei cruelmente, chorei pela saudade, chorei pela traição, chorei pelo meu passado legitimo, chorei pelo encanto dos meus peccados, chorei por me sentir chorar...

IX

Soceguei. Vencida, fiquei n'uma _chaise longue_, muda e como morta. Olhava machinalmente o tremer da luz.

--Betty, disse eu, deita-te. Eu estou bem. Vae...

Ella saiu, chorando. O quarto estava mal allumiado. Eu via, fóra, as ramagens do jardim, recortando-se n'um relevo negro sobre o pallido ceu, cheio da lua. Estive muito tempo assim, olhando, sem consciencia e sem vontade. Lentamente, creio, comecei pensando em cousas alheias aos interesses da minha dôr: lembrava-me a fórma d'um vestido que eu tinha desenhado para a Aline.

Por fim ergui-me, passeei muito tempo no quarto, o movimento chamou-me á consciencia e á verdade das minhas afflicções. Arranquei a folha d'uma carteira, e escrevi a lapis tumultuosamente: «Tem rasão, tem rasão. Espero-o ámanhã ás 10 horas da noite na casa... Até lá não lhe direi que o amo; só lá lhe direi o que soffro.»

Eu mesma saí ao corredor, e do alto da escadaria, silenciosa, allumiada por um grande globo fosco, chamei um criado, André, imbecil e indiscreto, e atirei-lhe o bilhete lacrado, dizendo-lhe:

--Leve esse bilhete já... Vá n'uma carruagem.

E indiquei-lhe a casa de meu primo. Rytmel estava hospedado lá.

Vim sentar-me á janella do meu quarto: vinha um aroma suave do jardim; o luar, as grandes sombras, tinham um repouso romantico e triste. Lentamente, a minha desgraça começou apparecendo-me inteira, nitida, em pormenores, n'uma grande synthese, como se fosse um mappa.

Eu era trahida! Aos vinte e tres annos, com todas as intelligencias da paixão, com todos os delicados prestigios do luxo, era trahida, era trahida! Senti então pela primeira vez a presença do ciume, esse personagem tão temido, tão cantado nas epopéas, tão arrastado pela rampa do theatro, tão conhecido da policia correccional, tão cruel, tão ridiculo, tão real! Vi-o! Conheci-o! Senti o seu contacto irritante e mordente como um corrosivo; a sua argumentação miuda, jesuitica, implacavel, sanguinaria: todo o seu processo d'acção, que torna de repente o coração mais puro tão immundo como a toca d'uma fera.

Senti o mais cruel dos ciumes todos; aquelle que se define, que diz um nome, que desenha um perfil, que nol-o mostra, o nosso inimigo, que nos enche as mãos d'armas, que nos obriga a avançar para elle. Eu sentia no meu ciume um ponto fixo--_ella_. Era _ella_, a _outra_! Lembrava-me confusamente: tinha cabellos louros, finos, espalhados, uma nuvem de ouro esfiado. Eu tinha-a visto em Paris vestida de roxo na revista de _Longchamps_. O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar n'elle o quer que fosse, que promettia um destino pacifico. Que secreto encanto se irradiaria da esbelta fraqueza do seu corpo? Era a simplicidade? Era a intelligencia? Era a sciencia das cousas do amor?... Como eu ardia por a conhecer! E não sabia nada d'ella senão que era irlandeza, e que se chamava Miss Shorn!

Ah sim, sabia outra cousa--que elle a amava!

Conhecel-a! conhecel-a! Mas como? Podia ser, pelas suas cartas! De certo! Ella devia pôr n'ellas toda a sua intima personalidade. Era loira, era ingleza, por isso raciocinadora: devia escrever pacificamente, sem sobresaltos, e sem inspirações da paixão; nas suas cartas provavelmente desfiava o seu coração. Eu conhecel-a-hia bem, se as lesse! Eu saberia o estado de espirito de Rytmel, a marcha da sua paixão, pelas cartas d'ella. Devia lel-as! Era necessario pedil-as, roubal-as, compral-as, eu sei! Mas era necessario lel-as!

Para pensar assim eu nenhuma _prova_ tinha de que elle recebia cartas d'ella, mas tinha a _certeza_ que ellas existiam e que o seu coração estava cheio d'ellas...

Quiz serenar, pacificar-me, dormir.

Deitei-me. O meu pobre cerebro estava n'uma vibração tempestuosa; era como n'uma tormenta em que veem á superficie da mesma vaga os destroços d'um naufragio e as flores da alga; no meu espirito revolto, surgiam no mesmo redemoinho, as cousas graves, e as recordações futeis, as minhas dôres e as minhas phantasias, os desastres do meu amor, e ditos de operas comicas! Sentia a chegada da febre. Chamei Betty.

--Betty! não posso dormir, não sei que tenho. Quero dormir por força. Quero ámanhã todas as minhas faculdades em equilibrio. Se não durmo estou perdida, endoideço... Dá-me alguma cousa.

--Mas o quê, minha senhora?

--Olha, dá-me aquella bebida que davam á mamã nas insomnias, a que tu tomas quando tens dôres... Tens?

--Quer opio?

--Não sei! agua opiada, vinho opiado, o quer que seja. Foi o doutor que me disse...

--Minha querida menina, eu tenho opio. Uma gota, n'um copo de agua. Eu sei? Talvez lhe faça mal!

--Dá-m'a, o doutor disse-m'o hontem. Dá, depressa.

Bebi. Era agua opiada, creio eu. Não sei. Parece-me que adormeci logo, e lembro-me que durante o somno sentia-me encaminhar incessantemente, n'um movimento perpetuo que affectava todas as fórmas; ora lento e pacifico, como um passeio sob uma alameda; ora rapido, volteado, e era a _walsa_ de _Gounod_ que eu dançava; ora solemne e melancholico, e era um enterro que eu acompanhava; ora cortante, escorregadio, veloz, e era em Paris, e era no inverno, e eu patinava sobre a neve.

Acordei de manhã, serena, e decidida. Mandei pôr um _coupé_. Saí. Fiz parar á porta de meu primo. Eram duas horas da tarde. Eu sabia, desde essa manhã, que Rytmel estava com elle em Bellas. Subi. Appareceu um criado portuguez, Luis, que eu conhecia, um imbecil, atrevido para o ganho, discreto pelo medo.

--Mr. Rytmel!

--Saiu, senhora condessa.

--Jacques?

--Foi com elle, senhora condessa.

Jacques era um criado antigo de Rytmel.

--Luis, leva-me ao quarto de mr. Rytmel.

Ao abrir a porta do quarto estremeci. Sentia-me humilhada. Fui rapidamente a uma secretária, revolvi as gavetas, as pequenas papeleiras. Nenhumas cartas, apenas cartas indifferentes. Irritada, abri as commodas, espalhei as roupas, procurei nos bahus, nas malas, nos bolsos, ergui o travesseiro. Tremia, arquejava. Era uma busca inquisitorial, frenetica, desesperada, infame!

--Luis, disse eu baixo, Luis, tens vinte libras. Tens cincoenta.

--Mas, minha senhora...

--Este senhor onde tem as suas cartas? Tens cem libras. Dou-te tudo, estupido... Onde tem elle as cartas, elle?

--Oh minha senhora! disse o creado, com uma voz lamentavel, eu não sei.

--Não tens visto? Não tem uma secretária, uma papeleira, uma carteira?...

--Tem. Tem uma carteira de marroquim. Tral-a comsigo. Anda cheia de cartas...Levou-a decerto. Nunca a deixa.

Sahi, desci a escada, correndo, fugindo d'aquelle desastre, d'aquella vergonha, d'aquellas confidencias. Atirei-me para o fundo da carruagem.

--A casa! gritei.

Tinha fechado os _stores_; soluçava, sem soluçar[2].

--Betty! Betty! clamei logo no corredor.

Ella appareceu, correndo.

--Betty, disse eu, vivamente, fechando a porta do quarto. Dize-me: aquella agua com opio não faz mal?

--Porque? sente-se doente?

--Não. Estou bem. Não faz mal?

--Nenhum.

--Juras?

--Juro. Mas...

--Jura sobre estes santos Evangelhos.

--Oh, senhora! Mas porque? Juro. Mas porque?

--Tens opio? Dá-m'o.

--Quer dormir?

--Não.

Ella então olhou-me, fez-se extremamente pallida:

--Mas, senhora condessa, que quer isto dizer?

--Dá-m'o. Dá-m'o, Betty. Pensas que me quero matar?

Ella calou-se.

--Oh, doida! disse eu, rindo. Se me quizesse matar não t'o pedia. Mas sou feliz... Passaram-se outras cousas, vês tu? Não t'as digo, mas sou feliz. Sabes o que é? É que me vou logo encontrar com elle.

E com a voz mais baixa, como envergonhada:

--É ás dez horas, e vês tu? Queria dormir para não esperar.

--Oh, minha senhora, não lhe vá fazer mal! De resto, eu lh'o dou. O frasco d'opio está aqui n'esta gaveta do lavatorio. Não lhe faça isto mal, meu Deus!

--Não, não, minha Betty! Ah! está na gaveta? Bem. São duas gotas, sim? Não me faz mal. Estou tão contente! Olha, até nem quero dormir. Fica aqui a conversar commigo. São cinco horas. Para as dez pouco falta. Não custa esperar. Está então n'aquella gaveta o frasco... Bom. Sabes, Betty? sou feliz. Não quero dormir. Conta-me uma historia.

A pobre creatura, vendo-me alegre, sorria. Eu, entretanto, tinha os olhos fitos na gaveta do lavatorio. Betty fallava, fallava! Eu ouvia as suas palavras sem comprehender, como se ouve um murmurio d'agua.

X

A tarde descia no emtanto, e eu sentia uma inquietação, uma angustia crescente.

Meu primo, não sei se poderei contar-lhe miudamente todos os transes d'aquella noite. Não o exigirá de certo. Nada seria mais terrivel do que ter de redigir e colorir o meu crime. Perdôe-me a confusão afflicta das minhas palavras e os arabescos tremulos da minha lettra.

Eram dez horas da noite: fui á casa n.^o... Rytmel estava lá. Achei-o pallido, e instinctivamente estremeci. Conversámos. Enquanto elle fallava, eu olhava-o ávidamente, examinava a sua casaca, espreitava o volume que devia fazer a carteira onde estavam as cartas. E revolvia com a mão humida o bolso do meu vestido: tinha n'elle o frasco d'opio. Era um frasco de crystal verde, facetado, com tampa de metal fixa. As palavras de Rytmel n'essa noite eram muito doces e muito amantes. Procuravam explicar-me a sua carta, e palpitavam ainda de paixão... Vinham realmente da verdade do seu coração? Era uma rhetorica artificial á flor dos labios, enganadora, como um panno de theatro? Não o sabia: só as cartas d'ella m'o poderiam revelar, e elle tinha-as ali no bolso! Eu via o volume que fazia a carteira no peito da casaca! Estava ali a sentença da minha vida, a minha infelicidade insondavel, ou a immensa pacificação do meu futuro! Podia porventura hesitar?--Elle fallava no emtanto. Eu tremia toda. Olhava fixamente para um copo que estava sobre a mesa ao pé d'uma garrafa de crystal da Bohemia. O reposteiro da alcova achava-se corrido; dentro estava escuro.

Betty tinha ido commigo, e ficára n'um quarto distante, que dava para uns terrenos vagos...

--E se houvesse um desastre! pensei eu de repente. Não ha pessoas que succumbiram completamente, cujo adormecimento foi acabar de arrefecer no tumulo?

Mas eu via sempre a saliencia da carteira, que me tentava como uma cousa resplandecente e viva. Podia approximar-me d'elle de repente, enfraquecel-o ao calor das minhas palavras, ir levemente, astuciosamente, arrebatar-lhe a carteira, saltar, correr, atirar-me para o fundo do meu _coupé_, e fugir. Mas se elle resistisse? Se perdesse a consciencia da sua dignidade e da humilde debilidade do meu ser? Se me sujeitasse violentamente, se me arrancasse outra vez as cartas?

Não podia ser. Era necessario que dormisse tranquillamente! Se as cartas fossem innocentes, simples, inexpressivas como eu ajoelharia depois, ao pé do seu corpo adormecido, como esperaria com uma ancia feliz que elle acordasse! que aurora sublime acharia elle nos meus olhos quando os seus se abrissem! Mas se houvesse nas cartas a culpa, a traição, o abandono?!

Levantei-me. Rytmel tinha ao pé de si um copo com agua. Bebia aos pequenos golos quando fumava. Eu deixava-o fumar. Mas eu não sabia como havia de achar um momento meu, bastante para deitar duas gotas de opio no copo.

Tive um expediente trivial, estupido.

--Rytmel, disse eu, como n'um theatro, como nas comedias de Scribe, com uma voz imbecilmente risonha,--vá dizer a Betty, que póde ir, se quizer. A pobre creatura dormiu pouco, está doente.

Elle saiu; ergui-me. Mas ao approximar-me da mesa, defronte do copo, fiquei hirta, suspensa. Estive assim um tempo infinito, segundos, com a mão convulsa apertando o frasco no bolso. Mas era necessario, eu tinha-o ouvido fallar, voltava, sentia-lhe os passos, ia entrar... Tirei o frasco, e louca, precipitada, mordendo os beiços para não gritar, esvasiei-o no copo.

Elle entrou. Eu deixei-me abater sobre uma cadeira, trémula em suor frio, e, não sei por quê, sentindo uma infinita ternura, disse-lhe sorrindo, e quasi chorando:

--Ah, como eu sou sua amiga! Sente-se ao pé de mim.

Elle sorriu. E--meu Deus!--approximou-se, creio que sorriu, e tomou o copo! E com o copo na mão:

--E sabe, disse elle, que ninguem o crê mais do que eu!... Se não fosse o teu amor como poderia eu viver?

E conservava o copo erguido. Eu estava como fascinada. Via o reflexo da agua, parecia-me vagamente esverdeada. Via as scintilações do crystal facetado.

Finalmente bebeu!

... Desde esse momento fiquei n'um terror. Se elle morresse? Meu Deus, por que? Não se dá opio ás creanças, aos doentes? não é elle a clemente pacificação das dôres? Não havia perigo. Quando acordasse eu seria tão sua amiga, tão terna com elle, para me absolver d'aquella aventura imprudente! Ainda que seja culpado, amal-o-hei! pensava eu. Pobre d'elle! Não lhe bastava ter de dormir assim forçadamente n'um somno pesado e cruel? Amal-o-hia, culpado. Trahida, amal-o-hia ainda!

Elle entretanto estava calado, no sophá, com a cabeça encostada. De repente pareceu-me vel-o empallidecer, ter uma ancia, sorrir. Não sei o que houve então. Não me lembra se fallámos, se elle adormeceu brandamente, se alguma convulsão o tomou. De nada me lembro.

Achei-me ajoelhada ao pé d'elle. Devia ser meia noite. Estava immovel, deitado no sophá. Tinham passado duas horas. Senti-o frio, via-o livido, não me attrevia a chamar Betty. Dei alguns passos pelo quarto em uma distracção idiota. Cobri-o com uma manta.

--Vae accordar dizia eu machinalmente. Compuz-lhe os cabellos ligeiramente desmanchados. De repente a idéa da morte appareceu-me nitida, e pavorosa. Estava morto! Senti como o fim de todas as cousas. Mas chamei-o, chamei-o brandamente, e com doçura...

--Rytmel! Rytmel!

E andava nos bicos dos pés para o não acordar! Subitamente estaquei, olhei-o ávidamente, precipitei-me sobre o corpo d'elle, envolvi-o, gritando suffocada:

--Rytmel! Rytmel!

Ergui-o: a hallucinação dava-me uma força cruel. A cabeça pendeu-lhe inanimada. Desapertei-lhe a gravata. Amparei-o nos braços, e n'esse momento senti o volume, a saliencia que na sua casaca fazia a carteira. Veiu-me a idéa das cartas. Tudo tinha sido pelo desejo de as lêr. Tirei-lhe a casaca; era difficil; os seus musculos estavam hirtos. Junto com a carteira havia outros papeis e um masso de notas de banco. Ao tomal-os, os papeis e as cartas espalharam-se no chão. Apanhei-as, apertei-as na gravata branca e metti tudo no bolso.

Isto tinha sido feito convulsivamente, inconscientemente. Dei com os olhos em Rytmel. Pela primeira vez via contracção mortal do seu rosto. Chamei-o, fallei-lhe! Estava frenetica! Porque não queria elle acordar? Empurrei-o, irritei-me com elle. Porque estava assim, porque me fazia chorar? Tinha vontade de lhe bater, de lhe fazer mal.

--Acorda! acorda!

Insensivel! Insensivel! Morto! Ouvi passar na rua um carro. Havia pois alguem vivo!

De repente, não sei por que, lembrei-me que tinha esvasiado o frasco! Deviam ser só duas gotas! Estava morto!

Gritei:

--Betty! Betty!

Ella appareceu, arremessei-me aos seus braços. Chorei. Voltei para junto d'elle. Ajoelhei. Chamei-o. Quiz dar-lhe um beijo: toquei-lhe com os labios na testa. Estava gelada. Dei um grito. Tive horror d'elle. Tive medo do seu rosto livido, das suas mãos geladas!

--Betty, Betty, fujamos!

Consciencia, vontade, raciocinio, pudor, perdi tudo aos pedaços. Tinha medo, sómente medo, um medo trivial, vil!

--Fujamos! Fujamos!

Não sei como saí.

Fóra da porta vi ao longe, no começo da rua, uma luz caminhar! caminhava, crescia! Havia alguem, vestido de vermelho, que a trazia! Parecia-me ser sangue! A luz crescia. Esperei, a tremer. Aquillo caminhava para mim. Approximava-se! Eu estava encostada á porta, na sombra, fria de pedra. A luz chegou: vi-a. Era um padre, era outro homem com uma opa vermelha e uma lanterna. Iam levar a alguem a extrema uncção...

Amparei-me no braço de Betty, e principiei a andar, sem saber para onde, como louca.[*]

[*] Seguiam-se as linhas em que se contava o encontro que teve commigo, as quaes linhas elimino por se referirem a successos que eu mesmo narrei e que v. sr. redactor, já conhece.--A. M. C.

CONCLUEM AS REVELAÇÕES DE A. M. C.

I

Convidada a expor o que sabia, a condessa disse de viva voz, com humildade e com firmeza, a causa e o modo como involuntariamente matara Rytmel.

--Eis as cartas e as notas que elle trazia comsigo--concluiu ella, collocando sobre a mesa um masso de papeis atados n'uma gravata branca. As minhas derradeiras disposições, accrescentou, estão feitas. Dêem-me o destino que quizerem. Inflijam-me o castigo que mereço.

Estavamos todos calados. F... adiantou-se para o centro da sala e ergueu a voz:

--Castigar é usurpar um poder providencial. A justiça humana que se apodera dos criminosos não tem por fim vingar a sociedade, mas sim protegel-a do contagio e da infecção da culpa. Todo o crime é uma enfermidade. A acção dos tribunaes sobre os criminosos, posto que nem sempre cesse de facto, cessa effectivamente de direito no momento em que termina a cura. Sequestrar aquelles em que o mal deixou de ser uma suspeita physiologica, e por conseguinte uma verdade scientifica, é fazer á sociedade uma extorsão, que, por ser muitas vezes irremediavel não deixa de ser monstruosa e horrivel. Todo aquelle que não é pernicioso, é necessario, é indispensavel ao conjuncto dos sentimentos, ao destino das idéas, á arithmetica dos factos no problema da humanidade. A natureza do acto que estamos ponderando, as rasões que o determinaram, as circumstancias que o revestiram, a intenção que lhe deu origem, tudo isto nos convence de que a liberdade d'esta senhora não póde constituir um perigo. Encarcerada e entregue á acção dos tribunaes, seria uma causa-crime, interessante, escandalosa, prejudicial. Restituida a si mesma, será um exemplo, uma lição.

E approximando-se da porta, correu a chave que a fechava por dentro, abriu-a de par em par, e dirigindo-se á condessa, com voz respeitosa e grave, accrescentou:

--Vá, minha senhora: tem a mais plena liberdade. Poderia disputar-lh'a a justiça official, não póde empecer-lh'a a rectidão dos homens de bem a quem foi entregue a decisão da sua causa. O seu futuro, violentamente assignalado pela desgraça, não pertence aos criminosos, pertence aos desgraçados. Leve-lhes a melancolica lição d'estes desenganos, e permitta Deus que perante a suprema justiça, possam os beneficios obscuros e ignorados que houver de espalhar em volta de si, compensar os erros que atravessaram o seu passado! Os vestigios da sua culpa ficarão sepultados n'esta casa.

Nós abrimos-lhe passagem para que sahisse. A condessa, n'uma pallidez cadaverica, vacillava; faltavam-lhe as forças; não podia sustentar-se em pé. O mascarado alto deu-lhe o braço. Ella fez um movimento como se tentasse fallar; o seu rosto contrahiu-se n'uma profunda expressão de dôr; hesitou um momento; por fim comprimiu os beiços no lenço e sahiu abafando uma palavra ou estrangulando um soluço.

Momentos depois ouvimos a carruagem affastando-se com aquillo que fôra no mundo a condessa de W...

Haviamos accordado no modo de occultar o cadaver, o que se tornava tanto mais facil quanto era inteiramente ignorada a assistencia do capitão em Lisboa.

Vieramos para o pavimento inferior do predio, a uma casa terrea, a que se descia por quatro degraus para baixo do solo. Era ao fim da tarde. Estavamos alumiados com a luz das velas, porque não entrava na loja a luz do dia. Tinha-se cavado uma profunda cova. Sentia-se o cheiro humido e acre da terra revolvida. Dois dos individuos a que tenho chamado os mascarados, seguravam duas serpentinas em que ardiam dez velas côr de rosa. Do travejamento escuro do tecto pendiam como cortinas pardacentas e prateadas as teias de aranhas rasgadas pelo peso do pó.

Desenrolámos o fardo que tinhamos collocado junto da cova, e contemplámos pela derradeira vez a figura do morto estendido sobre a sua manta de viagem.

Tinham-lhe atado a gravata branca, abotoado o collete e vestido a casaca azul de botões de ouro, em cuja carcella se via ainda pendida uma rosa murcha. A cabeça d'elle, na luz a que estava sujeita, era de uma expressão ideal. Os olhos, de que se não viam as pupillas, apagados e immoveis, davam ao seu rosto o vago aspecto que apresentam os das antigas estatuas. Nos labios entre-abertos parecia pairar um leve sorriso sob o bigode arqueado. Os anneis do cabello, despenteados pelo contacto da manta em que viera envolto o cadaver, destacavam na lividez da fronte como um vello de ouro n'uma superficie de marfim.

Havia um silencio profundo. Ouvia-se o bater dos segundos nos relogios que tinhamos nas algibeiras e o zumbir das moscas que esvoaçavam sobre a face do morto. Eu fitando-o com os olhos marejados de lagrimas, pensava melancolicamente...

Pobre Rytmel! Se n'este momento solemne, em que o teu corpo espera á beira da cova pelo seu descanço eterno, te faltam na terra as pompas funebres devidas á tua jerarchia; se te não seguiu até aqui um prestito de uniformes recamados de ouro; se nem sequer tens ao entrar na tua derradeira morada as orações de um padre e a luz de um cirio, cubra-te ao menos a benção da amisade! Descendente de lords, moço, intelligente e bello, quando todas as flores que perfumam a vida desabrochavam debaixo dos teus passos, apaga-se de subito no firmamento a estrella que presidiu ao teu nascimento, e tu baqueias como o ente mais despresivel no fundo de uma sepultura sem lapide, sem nome, na mesma casa em que vieste procurar a ultima expressão da tua felicidade, á luz das mesmas velas que alumiaram o teu derradeiro beijo! Os outros desgraçados que morrem têem ao menos na terra um logar assignalado onde repousam as suas cinzas, e onde podem ir os que os amaram chorar por elles. É mais cruel o teu destino: tu morres e desappareces! Não ensombrarão a tua campa as arvores tristes dos cemiterios. As aves que passarem nos ceus não baixarão a beber da agua que as chuvas tiverem deixado na urna do teu mausoleu. A lua, terna amiga dos mortos, não virá beijar por entre a rama negra dos cyprestes, a brancura da tua campa. O orvalho das madrugadas não chorará nas flores do teu jazigo. As abelhas não murmurarão em torno das rosas plantadas sobre o teu corpo. As borboletas brancas não adejarão no fluido de ti mesmo que podesse romper do seio da terra para a luz da manhã no aroma dos jasmineiros e dos goivos. Tua mãe, pensativa e pallida, procurará debalde a grade em que se ampare ao dobrar os joelhos e levantar para o céu esse olhar de interrogação em que a lembrança dos filhos mortos se envolve como na tunica luminosa de uma ressurreição.

O _mascarado alto_, curvou-se sobre o cadaver de Captain Rytmel e ergueu-o vigorosamente pelos hombros. Nós amparámos o corpo e descemol-o ao fundo da cova. O mascarado, ajoelhando-se depois no chão, cobriu com um lenço o rosto do morto e disse, como se estivesse fallando a uma creança adormecida:

--Descança em paz! Eu irei dizer a tua mãe o logar em que repousa o teu corpo, e voltarei a ajoelhar-me sobre esta sepultura depois de ter recebido no meu proprio seio as lagrimas que ella derramar por ti. Adeus, Rytmel! adeus!

E impelliu em seguida para dentro da cova uma grande porção da terra amontoada aos pés. A terra desabou de chofre sobre o cadaver, levantando um som baço e molle.

II

Examinámos depois os papeis de Rytmel afim de coordenarmos os seus negocios. Verificou-se a existencia de mil e trezentas libras em notas do banco de Inglaterra. Entre as cartas não havia uma só letra de miss Shorn.

Nenhum de nós tinha o espirito bastante socegado para poder reentrar immediatamente nos assumptos triviaes da existencia. Resolvemos permanecer ali até que decorressem alguns dias sobre a catastrophe de que tinhamos sido testemunhas.

O predio em que estavamos foi comprado em nome de lady... a mãe de Rytmel, e n'elle se guardaram todos os objectos que lhe tinham pertencido. Um cofre de ferro, damasquinado d'ouro e destinado a receber as cinzas do morto, foi collocado no logar em que elle se achava sepultado.

O _mascarado alto_ dispunha-se a partir para Londres quando tivemos noticia da publicação das cartas do doutor n'este periodico. A condessa declarou que se entregaria á policia, se não levantassemos na imprensa as suspeitas formuladas na carta de _Z..._ ácerca da probidade do medico, e se F... se não desdissesse categoricamente das injurias que nos dirigira na carta imtempestivamente mandada ao dr... por intermedio de Friedlann. A condessa auctorisava-nos a tornarmos publica a sua historia, dizendo que tinha deixado para sempre de pertencer ao mundo, para o qual a biographia que ella lhe legava seria talvez um exemplo proficuo.

Foi então, sr. redactor, que determinámos referir-lhe todos os pormenores d'este doloroso acontecimento, occultando ou substituindo os nomes das pessoas que tiveram parte n'elle, e deixando á sociedade a faculdade de as descobrir e o direito de condemnal-as ou absolvel-as.

A condessa resolveu em seguida entrar em um convento, que ella mesma escolheu depois de miudas indagações. O _mascarado alto_ acompanhou-a e eu segui-o a uma villa da provincia do Minho, onde existe ainda, regido com todo o rigor ascetico do estatuto, um velho convento de carmelitas descalças, habitado por cinco ou seis religiosas. Estas mulheres decrepitas vivem como d'antes na pobreza de que fizeram voto, mantendo a oração, a penitencia e o jejum com a mesma exaltação mystica, com o mesmo fervor catholico dos primeiros annos das suas nupcias com o divino esposo. Trazem os pés nus e o corpo constantemente envolto na aspereza estreme do burel. Não usam roupas de linho nem algodão. Em nenhum dia do anno se permittem carne ás suas refeições. Comem juntas no antigo refeitorio, havendo sempre uma que revesadamente se prostra á entrada da sala, segundo o primitivo uso da ordem, para que as outras lhe passem por cima ao entrar e ao sair da mesa. Não têem patrimonio de nenhuma especie, nem outro algum rendimento que não seja o producto dos trabalhos que fazem. Furtadas a toda a convivencia externa, vivem na clausura mais estreita e na miseria extrema. Ninguem no mundo tornou a ver as moradoras d'aquella casa desde que entraram n'ella. As que morrem são enterradas pelas outras no claustro e cobertas com uma pedra lisa, sem nome e sem data, Não ha distico nem outro signal que difference as que deixam de existir. A morte para todas ellas começa no momento em que transpõem o limiar da portaria. Dentro tudo é sepulchro. A morte é simplesmente a mudança de cubiculo.

Tal foi a casa escolhida pela condessa para recolhimento e asylo do resto de seus dias.

O exterior do edificio era mysterioso e lugubre. Cingia-o em toda a sua amplitude uma alta muralha que o disgregava do resto do mundo, cerrando as casas habitadas pelas freiras ao exame de fóra. Era um predio emparedado. A muralha, que media a altura de quatro andares, era da côr da estamenha, sombria e triste, manchada de grandes nodoas esverdeadas e negras como o capuz de um ermita, uma especie de lençol em que se enrolasse para o enterro uma casa morta. Havia um ponto em que esta facha se recolhia, formando o pateo por onde se entrava para o convento, cuja porta, mordida pelos annos, chapeada e cravejada com enormes pregos, se via no fundo atravez dos grossos varões de uma grade de ferro. Pelas juntas desarticuladas das grandes pedras que lageavam o pateo, rompiam moitas de ortigas, com a rudeza de cabellos hirsutos, sahidos pelos rasgões de um barrete. Do meio do largo surgia o bocal da um poço, cujo balde seguro por uma corda de esparto pendia de uma estaca. No chão estavam estendidos os andrajos das pobres da visinhança, que vinham laval-os ao pé do poço, e n'esse recinto os deixavam a enxugar juntamente com as enxergas dilaceradas e apodrecidas dos berços dos seus pequenos. A um canto do pateo pendia do muro uma corrente de ferro com que se tangia uma sineta interior. A este signal via-se n'uma abertura da alvenaria rodar no muro um cylindro de madeira, que por um movimento vagaroso mettia para dentro a sua superficie concava e mostrava para fóra o seu interior convexo. Parecia quando isto se ouvia que o taciturno monstro entreabria a palpebra, deixando vêr uma orbita sem olho. Este apparelho chamma-se a roda. A condessa pronunciou ahi uma palavra, a que respondeu de dentro uma especie de gemido, e foi esperar em seguida para junto da porta negra ao fundo do pateo.

Quando a porta se abriu e o primo da condessa lhe apertou pela ultima vez a mão, as lagrimas, que até ahi conseguira difficultosamente reprimir, saltaram-lhe dos olhos.

--Acha horrivel, não é verdade? perguntou-lhe ella com um sorriso em que transparecia a extranha luz da resignação das martyres antigas. Que queria que eu fizesse, meu querido amigo? Matar-me? Prostituir-me á convivencia da sociedade? Não posso. Falta-me o valor para sacrificar ao meu infortunio a salvação da minha alma, e escuso de dizer-lhe que me falta igualmente a intrepidez precisa para sacrificar ao socego ordinario da vida o pudôr do meu coração. Bem vê pois que acceitei a solução mais suave. Coitado! como lhe doe a tristeza do meu destino! Deixe estar: prometto-lhe morrer breve, se me não succeder aquella desgraça receada por Santa Thereza de Jesus: que o prazer de me sentir morrer me não prolongue mais a vida!

Entregando-lhe em seguida o capuz e o manto de casimira em que fôra envolvida:

--Adeus, meu primo,--disse-lhe ella deixando-se beijar na testa,--adeus! Peça a Deus que me perdôe, e aos vivos que me esqueçam.

Aos primeiros passos que ella deu para lá da porta, esta fechou-se do mesmo modo porque havia sido aberta, sem que ninguem mais fosse visto, tendo mostrado um buraco lobrego, negro e profundo como a guela de um abysmo, e a amante de Rytmel entrou no claustro. Os ferrolhos interiores rangeram successivamente nos anneis, expedindo uns sons intercortados, similhantes a soluços arrancados de uma garganta de ferro.

O _mascarado alto_ passou parte d'essa noite na villa, esperando a mala-posta que partia á uma hora. Ao subirmos juntos á carruagem ouvimos uma especie de rebate em dois sinos de uma igreja. Perguntámos o que era. O deputado da localidade, que nos acompanhava no _coupé_, respondeu, atirando fóra um phosphoro com que accendera um charuto:

--São as carmelitas que pedem o soccorro da caridade, porque não teem que comer.

O cocheiro fez estalar o açoite, e a berlinda partiu a galope, abafando o vozear entristecido das sinetas com o estrepito que ia fazendo pelas calçadas estreitas e tortuosas da povoação.

Pouco mais tenho que contar-lhe.

O conde de W... recebeu em Bruxellas uma carta de sua mulher contendo estas linhas:

«Destituo-me voluntariamente da minha posição na sociedade. De todos os direitos que por ventura podesse ter, um só peço que não seja contestado: o direito de acabar. Supplico-lhe que me permitta desapparecer, e que acredite na sinceridade da minha gratidão eterna.»

O doutor está, como elle mesmo disse, nos hospitaes de sangue do exercito francez.

Frederico Friedlann partiu repentinamente, no mesmo dia em que lançou no correio a carta de F..., para ir encorporar-se na segunda _landwer_ do seu paiz.

F... e Carlos Fradique Mendes achavam-se ha dias em uma quinta dos suburbios de Lisboa escrevendo, debaixo das arvores e de bruços na relva, um livro que estão fazendo de collaboração, e no qual--promettem-n'o elles á natureza mãe que viceja a seus olhos--levarão a pontapés ao exterminio todos os trambolhos a que as escolas litterarias dominantes em Portugal têem querido subjeitar as inviolaveis liberdades do espirito.

Se me é licito por ultimo fallar-lhe de mim, saberá, sr. redactor, que estou recolhido em uma pequena casa na provincia. Se ainda se lembra de Therezinha, não extranhará que eu accrescente que estou casado ha dias. Precisava d'isto o meu coração: da paz de um lar tranquillo. Presencear as profundas commoções romanescas da vida é como ter assistido a um grande naufragio: sente-se então a necessidade consoladora das cousas pacificas; então mais que nunca se reconhece que o ser humano só póde ter a felicidade no dever cumprido.--_A. M. C._

A ULTIMA CARTA

Sr. redactor do _Diario de Noticias_.--Podendo causar reparo que em toda a narrativa que ha dois mezes se publica no folhetim do seu periodico não haja um só nome que não seja supposto, nem um só logar que não seja hypothetico, fica v. auctorisado por via d'estas lettras a datar o desfecho da alludida historia--de Lisboa, aos vinte e sete dias do mez de setembro de 1870, e a subscrevel-a com os nomes dos dois signatarios d'esta carta.

Temos a honra de ser, etc.

Eça de Queiroz.

Ramalho Ortigão.

INDICE

Prefacio da 2.^a edição

Exposição do Doutor ***

Intervenção de Z

De F... ao medico

Nota

Segunda carta de Z...

Narrativa do mascarado alto

As revelações de A. M. C.

A confissão d'ella

Concluem as revelações de A. M. C.

A ultima carta

* * * * *

Notas de Transcrição:

Palavras aparentemente erradas no livro original [1] "quando", [2] chorar.